Prémio Príncipe das Astúrias para Amin Maalouf

O Público

“O escritor libanês Amin Maalouf foi hoje distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras. O júri do prémio, reunido esta manhã em Oviedo, escolheu um autor que “através da ficção histórica e da reflexão teórica, tem conseguido abordar com lucidez a complexidade da condição humana”, elogiando-lhe a “linguagem intensa e sugestiva” que nos transporta “no grande mosaico mediterrâneo de línguas, culturas e religiões para construir um espaço simbólico de encontro e entendimento”.

“Frente à desesperança, à resignação ou ao vitimismo, a sua obra traça uma linha própria para a tolerância e a reconciliação, uma ponte fundada nas raízes comuns dos povos e das culturas”, remata o júri no comunicado em que anuncia o vencedor do galardão deste ano.

Autêntico eremita, residente em França, homem acostumado a isolar-se durante meses para escrever os seus livros, Maalouf é um católico árabe que nasceu em Beirute em Fevereiro de 1949 e é licenciado em Economia e Sociologia.

A família materna era natural da Turquia, de onde fugiu para o Cairo, tendo finalmente ido parar ao Líbano.

O pai era um conhecido jornalista, bisneto de um pregador presbiteriano, de modo que ele sempre se considerou no cruzamento de múltiplas culturas e civilizações.

Aos seis anos escreveu o primeiro artigo, em árabe, mas aos 16 já todas as suas notas eram em francês, tendo mais tarde explicado que o árabe era a sua língua social e o francês a sua língua íntima, que a dada altura se tornaria a fala quotidiana, quando os conflitos do Médio Oriente o atiraram para Paris.

Aos 27 anos estava como repórter internacional ao serviço do “An Nahar”, principal diário libanês em língua árabe. Foi recebido em Nova Deli pela primeira-ministra indiana Indira Gandhi, deslocou-se ao Vietname e ao Bangladesh, tornou-se um cidadão do mundo.

Os primeiros livros que iniciou nunca chegaram a ser acabados, o que é próprio de um espírito atormentado, até que em 1981 se começou a interessar muito em particular pelas Cruzadas, tendo devorado dezenas e dezenas de obras sobre esse tema tão transcendental no relacionamento da Europa com o mundo muçulmano.

Foi assim que surgiu um clássico da literatura contemporânea, “As Cruzadas vistas pelos árabes”, a que se seguiriam os romances “Leão, o Africano” (1986), “Samarcanda” (1988), “Os jardins de luz” (1991) e “O século primeiro depois de Beatriz” (!992). De 19998 é o ensaio “As identidades assassinas” e do ano passado “Um Mundo sem regras”.

“As Cruzadas vistas pelos árabes” mereceram-lhe o Prémio da Maison de la Presse e, em 1993, “O rochedo de Tanios” deu-lhe o Goncourt, um dos mais prestigiados prémios literários franceses.

Já na presente década escreveu os libretos de quatro óperas: “O amor de longe”, “Adriana Mater”, “A Paixão de Simone” e “Emília”, todas elas da compositora finlandesa Kaija Saariaho.

Em Julho do ano passado, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Maalouf dissertou sobre “o desregramento intelectual, económico, geopolítico e ético do mundo no século XXI”.

Com este prémio, Maalouf junta-se a uma lista de galardoados que conta com Mario Vargas Llosa (1986), Camilo José Cela (1987), Francisco Umbral (1996), Günter Grass (1999), Doris Lessing (2001), Arthur Miller (2002), Fatema Mernissi e Susan Sontag (2003), Paul Auster (2006), Amos Oz (2007), Margaret Atwood (2008) ou Ismaíl Kadaré (2009).

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