A presença da ausência

Por José Castelo
O GLOBO

Se a literatura tem algum poder – já que, antes de tudo, ela promove o contato com nossas limitações – , seu poder é de descobrir conexões ali onde parece haver apenas o inacessível e a interdição. É de abrir lugar para que o ausente enfim tome corpo. A ficção traça pontes que ligam mundos incomunicáveis. Ela nos ajuda, assim, não apenas a suportar, mas a desejar o impossível. Trabalha com a ignorância, transformando-a em energia.

Essa descoberta, de estruturas que ligam mundos inacessíveis, pode ser apresentada, desde cedo, às crianças. É o que faz a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (FOTO) em “A Menina do Mar” (Cosac Naify, com ilustrações de Veridiana Scarpelli). Devemos, sim, dizer aos pequenos: o impossível pode acontecer. E isso não será só uma fantasia inócua, ou uma falsa esperança. Aqueles que reduzem a fantasia à mentira ignoram seu poder de criação.

Basta ler a bela história que Sophia (1919-2004) nos deixou. Passeando a beira mar, um rapazinho descobre uma menina que não consegue viver fora d’água. Preso a sua vida terrena (humana), o garoto logo entende que os dois habitam mundos incompatíveis. Ainda assim, insiste em uni-los. Tudo começa com a chegada do equinócio, quando o mar se agita e os ventos se agigantam. Tudo começa com quatro gargalhadas _ a gargalhada de ópera de um polvo, a gargalhada seca de um caranguejo (que lembra a tosse), a gargalhada em “glu, glu” de um peixe e, por fim, a gargalhada humana de uma menina. Dissonantes, ainda assim, ou por isso, elas formam uma bizarra orquestra.

Nesse dia, o rapaz conhece a Menina do Mar – assim ela se chama. Mora com seus quatro amigos em uma pequena gruta, na qual o garoto é incapaz de entrar. O polvo, com suas ventosas, arruma a casa. O caranguejo, com suas tenazes (dispostas como pinças), cuida da cozinha. O peixe, que só tem barbatanas, já que nada pode fazer de prático, é seu melhor amigo. Entre eles, a menina, que tem o tamanho de uma mão. Estranha família que, com sua estrutura incomum, vive – apesar disso, ou por isso _ em harmonia.

A menina é curiosa a respeito das coisas da terra. Primeiro, acredita que o garoto deseja fritá-la _ como os homens costumam fazer com os peixes. Depois, espanta-se com uma rosa que o rapazinho lhe traz. Surpresa com o contraste entre os dois mundos, ela comenta: “No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas”. Defronta-se, pela primeira vez, com o humano e seus difíceis sentimentos. “Isso é por causa da saudade”, lhe diz o garoto. Desconhece a palavra, pergunta o que significa. “A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”.

Ali, ao se defrontar com um sentimento que funde a melancolia com a falta, a Menina do Mar compreende que as diferenças entre os dois mundos vão muito além das razões naturais. “As coisas na terra são esquisitas e diferentes”, ela diz quando o garoto a presenteia com uma caixa de fósforos para que descubra o que é o fogo. Aprende que a natureza os separa: “Tu se vieres para o mar afogas-te. E eu se for para a terra seco”. Depois de descobrir o vinho _ “quem o bebe fica cheio de alegria”, diz o garoto _, a menina se dá conta de sentimentos que vão muito além das causas naturais. Define, então, seu próprio mundo: “O mar é uma prisão transparente e gelada”.

O rapazinho insiste em levá-la para um passeio pela terra. Pretende usar um balde d’água como veículo. Mas a Grande Raia, rainha dos oceanos, a proíbe de viajar. Logo em seguida, o garoto é atacado por polvos e cai desacordado. Quando volta a si, conclui: “Era como se tudo tivesse sido um sonho”. Pouco depois, uma gaivota vem lhe trazer um recado da menina. “Ela manda-te dizer que já sabe o que é a saudade”. Nessa confluência de sentimentos, a barreira que separa os dois garotos começa a rachar. O sonho, agora, aproxima terra e mar. Toda a luta do menino, a partir daí, se concentra na busca da menina. Aqui se impõe a força das palavras. Unindo mundos distintos, ao mesmo tempo em que os separa, a palavra “saudade” se torna uma ponte para a vida.

Outras leituras, imediatamente, se agitam em minha mente. Recordo, primeiro, de um sonho de Franz Kafka, narrado em uma carta a Milena Jesenská. Sonhou que cometera um assassinato. Aflito, voltou para casa. Ao encontrar-se com a mãe, lhe diz: “Se alguém falar mal de Milena, por exemplo, o meu pai, eu também o mato, ou então me mato”. É um pesadelo desordenado, cheio de lacunas e de imprecisões _ como costuma acontecer com nossa lembrança dos sonhos. Kafka termina seu relato (que releio em “Sonhos de Franz Kafka”, Iluminuras, 2003) com a frase que me interessa: “Aí despertei, mas nem o sonho e nem o despertar foram verdadeiros”. Onde está a verdade _ no sonho, ou na vigília? No mar, ou na terra? Uma lacuna _ “saudade” _ se abre entre os dois lados, afastando-os, mas também aproximando. Nesse impasse, nos encontramos.

Kafka dizia que suas histórias “são um jeito de fechar os olhos”. A introspecção (a ausência de imagens) não promove o desaparecimento, mas a proximidade. Não desisto: busco outras narrativas que me sirvam de ponte _ de sonho _ para acessar o relato de Sophia. Em outro livro, os “Contos filosóficos”, de Jean-Claude Carrière (EDIOURO, 2009), narra-se uma história de Rumi, o poeta e filósofo persa do século 13. Os discípulos reclamam de suas longas viagens e de suas ausências. O poeta se irrita e os dispersa brutalmente. Intrigado, seu filho lhe pergunta por que reagiu assim a uma manifestação de amor. “É porque, na verdade, eles não me amam”, diz Rumi. Pergunta então ao rapaz se, quando ele se ausenta, não consegue sentir momentos de alegria. O filho responde que sim. “Essa alegria também sou eu. E meus discípulos são incapazes de senti-la”.

Como na história de Sophia Breyner, também no relato de Rumi se afirma a presença de uma ausência. Algo que vai muito além da rudeza dos fatos. Virginia Woolf já nos alertou a respeito dos defensores do naturalismo: “Fatos são tudo o que podem oferecer e fatos são uma forma de ficção bastante inferior”.

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