Presença de Herivelto

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Herivelto Martins (1912-1992) faria 100 anos hoje e deve estar na maioria dos segundos cadernos -ou alguma coisa estará errada. Ele foi compositor, letrista, autor de, entre tantas, “Ave Maria no Morro”, “Segredo” e “Isaura”, ex-marido da cantora Dalva de Oliveira (com quem sustentou uma dura e pública briga musical quando se separaram) e pai do cantor Pery Ribeiro. A Globo fez uma recente minissérie sobre ele e Dalva.

Apesar disso, poucos continuam a identificá-lo apenas pelo nome -Herivelto é apenas mais um caso de artista brasileiro que cometeu o erro de trabalhar no passado e, pior ainda, morrer nele. E, sendo o Brasil como é, é normal que os jovens de hoje não saibam quem ele foi – se já não sabem direito nem quem foram estrelas muito mais próximas, como Nara Leão ou Elis Regina.

Em criança, nos anos 50, ainda captei ecos da enorme presença de Herivelto na cena nacional. Meu pai gostava de cantar e tocar violão, e seu repertório incluía “Caminhemos” e “Que Rei Sou Eu?”, sucessos de Herivelto por Chico Alves. Quando Chico morreu, em 1952, Herivelto dirigiu sua produção para Nelson Gonçalves, a quem deu grandes sambas, sambas-canção e até tangos, como “A Camisola do Dia”, “Carlos Gardel” e “Hoje Quem Paga Sou Eu”.

E custei, mas descobri que havia um Herivelto ainda mais antigo, o de “Nem no Sétimo Dia”, “Meu Rádio e Meu Mulato” e “Cabaré no Morro”, todos clássicos de Carmen Miranda, o de marchinhas como “Seu Condutor” e “A Marcha do Funiculi”, e o de tantos sambas associados às escolas, como “Praça Onze”, “Lá em Mangueira” e “Mangueira, Não!”, estas referentes à sua grande paixão -a Mangueira que cantou tanta gente de fora e nunca quis homenageá-lo.

Herivelto está merecendo um songbook em vários volumes, do tamanho dele.

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