Presença derradeira de Ascendino Leite

Entre os conflitos e os anseios da terceira idade, Ascendino Leite encontrou a via da sua profissão de fé ao justapor duas palavras que, embora parecessem se antagonizar, acenavam para uma única possibilidade desejável. Eram elas “poesia ou morte”, título que ganhou a reunião de sua obra poética, lançada em 2006, pela editora paraibana Ideia. Nela encontra-se toda a produção poética desse vate tardio que, em si mesmo, testemunhou um milagre e um capricho das musas: a inspiração para o poema na quadra dos oitentano

Ao tornar-se poeta, depois de ter cumprido um trajeto que visitou o jornalismo, o romance, a tradução, o jornal literário, a crítica – roteiro que seria imitado, salvo pequenas diferenças, poucos anos depois, pelo macaibense Renard Perez –, Ascendino Leite fechou um ciclo de experiências literárias que lhe haviam aberto possibilidades ilimitadas, ao mesmo tempo em que pareciam fixá-lo no núcleo de eleição de sua vida. O humor, a autoironia, uma discreta sensualidade e um grande entusiasmo pela obra que passava a surgir com surpreendente facilidade, marcaram essa fase. Não por acaso um desses livros tem o título de O Nariz de Cíntia; outro reflete o dobre de finados de Poemas do Fim Comum; um terceiro remete, telúrico, a À Flor da Terra e, abrindo o ciclo, as fragrâncias de um Jardim Marítimo, possível influência do Cemitério Marinho de Valéry.

Tivemos o privilégio de prefaciar um dos seus volumes de poesia, cujo título, por si só, evoca uma sentimento por demais nosso: Por uma Saudade Azul. Por trás da cândida evocação, porém, o crítico Hildeberto Barbosa Filho entreviu acertadamente um “pequeno tratado dos sentidos”.

A alternativa “poesia ou morte” não deixava margem a dúvidas: a poesia passou a representar um valor de tal magnitude para o poeta, que se confundia com o sentido mesmo da vida, acompanhando-o e ajudando-o a enfrentar os achaques da idade e a distância que se interpôs entre sua solidão e seus semelhantes, mesmo os mais próximos.

Ascendino, porém, colocou-a em termos ainda mais pessoais, conforme reza a epígrafe que encima seu Poesia ou Morte: “É a poesia que me vai expulsar desta miséria, limpo como o corpo de um recém-nascido”. Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: “O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada”.

Se sua poesia octogenária se constitui um espanto dentro e fora da Paraíba, seu jornal literário, estendido ao longo de vinte volumes, é de uma originalidade tão marcante que fatalmente virará assunto de estudos no breve futuro.

Foi esse poeta-pensador (que poeta não o é?) que as letras paraibanas perderam nessa última semana. Tansfigurou-se, porém, num momento em que sua obra literária – romances, jornais, poesias, entrevistas, traduções, críticas – já haviam se tornado de domínio público entre os leitores da Paraíba, e para além dos limites físicos desse Estado. Lembre-se que ele aqui esteve, há poucos anos, para receber um diploma concedido pelo Instituto Histórico e Geográfico, ratificando os laços que manteve desde os primeiros anos de juventude com o Rio Grande do Norte.

Reportando-se à entrevista que deu ao Galo, em maio de 1998, vê-se ali que Ascendino Leite lembrou dois amigos que teve em Natal, o pianista Oriano de Almeida, de quem foi vizinho no Hotel Sol em várias ocasiões, e Câmara Cascudo, por quem nutria uma admiração ilimitada. Oriano foi seu “querido amigo”, com quem costumava trocar ideias, especialmente musicais. Sobre Cascudo, sabia ser detalhista: “Cascudo é um dos grandes luminares de uma vida de pensamento, como Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco. A obra de Cascudo é o Brasil do nosso lado, mas é o Brasil todo”, sentenciou.

DESTAQUE:

“Em seu último jornal literário, Os Pecados Finais, ele já havia concluído: ‘O verdadeiro destino da palavra é com certeza a poesia. É o seu resumo, o seu destino, seu ponto de chegada’”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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