Presente para Carlos

Por Pedro Augusto Graña Drummond
BLOG DA COMPANHIA

Durante anos foi fácil dar presentes ao Carlos. Não precisava pensar muito, bastava trazer de Buenos Aires aquelas caixas de mentas brancas da Harrods. Como bom doceiro que era, ele adorava aquelas mentas (puras ou cobertas com chocolate).

Um dia, Carlos disse basta. Enjoou das famosas mentas da Harrods. E ficou mais complicado escolher um “regalo” para ele. Não só porque já tinha praticamente tudo o que precisava, mas, também, porque recebia inúmeros presentes super bacanas de seus amigos e leitores.

Não dava para competir com a linda réplica em escala do Profeta Daniel de Aleijadinho, do ateliê de Ferreira Jr., presenteada pelo povo de Congonhas quando Carlos completou 80 anos. Tampouco eu tinha cacife para superar os doces biscoitinhos caseiros que Kate Lyra tantas vezes fez para ele. Nem tive como equiparar minha generosidade com a dos que lhe deram a linda Carranca do Rio São Francisco, estrategicamente colocada na porta de casa por vovó Dolores e que, até hoje, afugenta maus espíritos e encanta os bons que nos visitam.

Carlos ganhava lindos presentes. Mas, apesar da concorrência de tanto carinho e admiração, lembro de ter lhe dado algumas coisas que ele gostou de receber. Por exemplo, uma caixa de discos de vinil com as sinfonias de Schubert dirigidas por Karl Böhm, que ouviu várias vezes seguidas na sua vitrola automática Phillips, encaixada entre os dicionários na prateleira inferior de sua biblioteca. Depois, perante a dificuldade de lhe presentear com livros ou discos, porque ele tinha muitos e bons, optei por um caminho mais econômico e original. Como sou inclinado às artes, rabiscante de aquarelas e praticante de escultura, passei a lhe dar desenhos e objetos feitos por mim. Ele os guardou com carinho. Um deles foi uma esfera de resina poliéster contendo uma ampulheta que simbolizava a relatividade do tempo, pois ao girá-la a força centrífuga impedia a passagem da areia, “parando o tempo” — recordo que Carlos comentou com bom humor que, lamentavelmente, ela não funcionava, pois seu tempo já tinha passado. Outro presente de aniversário, que tive gosto de lhe dar, foi uma réplica de minha mão que talhei em pedra sabão. Creio que ele gostou de ver meu progresso na matéria e a colocou na sala, junto com outros objetos bonitos que ele também ganhara.

Hoje, lembro com saudade dessa preocupação: o que dar de presente ao Carlos? E concluo que, na verdade, eu recebi de meu avô muito mais do que fui capaz de lhe retribuir. Ganhei dele muitos livros, discos, brincadeiras, doces — ele sempre partilhava os presentes que recebia, quando não nos beneficiava com os mesmos. O mais importante de tudo foi o amor que ele me deu, sem condições nem cobranças — tal era seu sentimento de justiça, que procurava aplicar coerentemente a todas as coisas. Que bom exemplo me deu! Gostaria que ele estivesse aqui para lhe dizer isso. Como não é possível, tento fazer com que meu filho Miguel se sinta próximo de Carlos e, aos poucos, descubra esse “rio de sangue” e essa “estranha ideia de família viajando através da carne”.

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Pedro Augusto Graña Drummond é desenhista gráfico e cenógrafo.

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