O primado do leitor

Por José Castello
O GLOBO

Muitos escritores afirmam que, durante seu trabalho, nunca pensam no leitor. Que escrevem para si mesmos e apenas para si. Que o leitor, para eles, não existe. O argentino Adolfo Bioy sempre sustentou a posição oposta. Para ele, o leitor vinha antes de tudo. O leitor era parte essencial da escrita. A propósito, recordo-me sempre de uma declaração do paraguaio Augusto Roa Bastos, que disse certa vez: “Um livro só existe na cabeça do leitor. Sem o leitor, um livro não existe”. Bioy poderia repeti-la. Sem o leitor, um escritor nada é Bioy Casares tinha um delicado hábito pessoal. Quando aprontava um conto, e antes de levá-lo a seu editor, escolhia uma amiga _ sempre uma mulher, mas nunca a mesma mulher _ e a convidava para um almoço. Iam ao “Lola”, um pequeno restaurante a poucos metros de sua casa, em Buenos Aires. Almoçavam como bons amigos. Diziam besteiras, davam boas gargalhadas. Após a refeição, e enquanto tomavam um licor, Bioy lia seu novo conto em voz alta. Enquanto o lia, lia também o rosto e as reações de sua “leitora”. Se elas fossem positivas, de entusiasmo e adesão, o conto estava aprovado. Caso contrário, ao voltar para casa Bioy simplesmente o destruía.

“Além disso”, disse Bioy certa vez em uma longa entrevista a Sergio López, “quase sempre noto que, até esse momento, o argumento tinha graves defeitos que eu não percebia. Mas, respeitando mais a meu leitor do que a mim mesmo, eu trato de melhorá-lo conforme o leio no restaurante”. Em outras palavras: o leitor (em seu caso particular: o ouvinte e, mais ainda, uma mulher) tinha não só o poder de legitimar, ou ao contrário de aniquilar um conto. Mas, muito mais que isso, o leitor ajudava Bioy Casares a escrever. Era uma espécie de coautor. Cabe pensar, talvez, por que motivo Bioy destinava esse papel crucial, sempre, ao sexo feminino. Provavelmente as mulheres, em geral, sabem ouvir melhor do que os homens.

Respeitar o leitor não é escrever narrativas fáceis, ou previsíveis – como muitos ainda acreditam que seja. Não é escrever relatos “digestivos” _ como se um novo livro fosse uma nova marca de refrigerante, ou um novo modelo de tênis. Na mesma conversa, López lembra a Bioy duas visões distintas a respeito da origem das ficções. Borges dizia que, quando começava a escrever, tinha na cabeça o início e o fim de seu relato, mas que lhe faltava o meio. Escrever, em seu caso, era “preencher” uma história que lhe surgira subitamente. Cortázar, por sua vez, afirmava que os contos lhe caíam “como cocos na cabeça”. Nos dois casos, há o relato de um impacto inicial, do qual o leitor – e talvez o próprio escritor – está completamente alijado.

Também no caso de Bioy Casares, as histórias lhe surgiam impulsivamente. Acontece que Bioy desconfiava de seus impulsos e não aceitava legitimá-los antes da aprovação de um interlocutor. Sabia (como Roa Bastos) que, sem o leitor, um livro não existe. Um livro não passa de um amontoado de folhas de papel cobertas de letras incompreensíveis. Para que se torne um ser vivo, um livro precisa ser lido. E, como dizia também Roa Bastos, “na cabeça de cada leitor, um livro é sempre um livro diferente”. No fim das contas, e de forma muito torta, somos nós, leitores, que, ao ler um livro, o escrevemos. Ou, pelo menos, o reescrevemos. Nesse caso, nenhuma ficção tem, a rigor, uma versão original, não passando sempre de uma série de deformações de um livro ideal que jamais será lido.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP