Primo Diovas

Por Demétrio Diniz

Pelas dez da noite, após as aulas, o primo Diovas descia para o trapiche. Levava consigo a radiola de pilha e discos de Francisco José cantando fados. Além da música portuguesa, o primo gostava da poesia romântica de Guerra Junqueiro. De frente para o rio, e no escuro da noite, exercitava a memória declamando seu poema preferido:

Nisto ecoou através do negro céu profundo
A voz celestial de Jesus moribundo,
Que lhe disse:
– Traidor, concedo-te o perdão
Além do meu carrasco és inda o meu irmão,
Pregaste-me na cruz; é o mesmo, fica em paz,
Eu costumo esquecer o mal que alguém me faz.
(…)
Estes golpes cruéis, estas horríveis dores;
As chagas para mim são outras tantas flores.

Recitava de cor os 134 versos de A Caridade e a Justiça, poema muito declamado à época por se insurgir contra o clericalismo. Andei pesquisando sobre o poeta muito tempo depois de ter o câncer levado o primo, e fiquei sem poder lhe dizer que em Portugal era considerado o maior depois de Camões, e o mais amado de todos; que as lojas e os bancos de Lisboa, do Porto e de Sintra fecharam no dia de seu enterro; que choraram pelas ruas a sua morte; que era filho de mãe israelita, tinha a barba negra, o nariz adunco e andava com chapéu de judeu. Coisas que certamente o interessariam. E que, menos de cem anos depois desse luto coletivo, lá estive estourando os meus pulmões de fumante na interminável e íngreme ladeira que leva à Praça do Mirante; no Largo da Misericórdia, na calçada do Combro, no Largo do Camões, na Rua do Ouro, na Rua do Alecrim, todo o Rossio, Baixa do Chiado, Embaixadores e Bairro Alto, vasculhando os sebos de Lisboa — o Olispo, Bizantina, Plisso, Da Costa e dezena de outros. Estranhamente não encontrei nenhum escrito do autor de A Velhice do Padre Eterno.
Devo acrescentar que também nada encontrei de Zajac Malgorzata, nem mesmo sabiam de sua existência, ela que viveu ali após fugir dos nazistas e escreveu um livro sábio. Reforcei em mim a convicção sobre o esquecimento do passado, este uma camada de poeira onde, com sorte, se vislumbra do soterrado apenas um aceno. E do esforço físico que me deixou cansado por dias, compreendo: queria estar a subir e descer ladeiras como o fizemos no tempo da mocidade, abraçados como dois irmãos depois de um porre de vinho, o primo Diovas e eu.
Sempre o acompanhava no trapiche, e para me garantir de sua companhia eu ouvia Olhos Castanhos e outras canções. Isso até meia-noite, quando ali começavam a chegar alguns rapazes excitados e alegres, à espera de Renê. Ali mesmo, entre tábuas  úmidas e apartadas — donde se podia ver abaixo o vaivém cintilante das marolas —, Renê os satisfazia com seu pênis avantajado. À distância, e voltando para casa, ouvíamos vindos do trapiche uivos de prazer e dor. Alourado e bonito, conhecido como o Rei dos Veados, Renê se vangloriava de ter comido todos os da Ribeira e Cidade Alta, inclusive um colunista social famoso.
Por esse tempo Diovas se apaixonara pela mulher de Oto, dono de um pequeno bar, baixinho, barrigudo, de bigode fino. A mulher de Oto se encarregava de preparar e trazer à mesa os tira-gostos. Uma vez em que serviu um prato de galinha cozida, o primo me disse namoro com ela. Oto saía para as compras e os dois faziam amor na cama do casal, ela gastando depois um frasco de desodorante para anular o cheiro de cigarro, com medo que o marido na volta o sentisse.
O primo cumpria serviço militar e gastava durante o dia o soldo no bar de Oto. À noite, no trapiche, eu desconfiava da relação entre a mulher de Oto e a mulher de olhos castanhos da canção. A vida seguia leve como as marolas do Potengi, e na anestesia da juventude. Diovas escrevia um romance — lembro-me apenas que eram muitas páginas, um caderno grosso manuscrito de papel almaço, e o tom se parecia com Iracema, de José de Alencar. Escrevia, enquanto eu sonhava com Marcelino, Pão e Vinho, queria ser como Marcelino, tinha a idade e me achava parecido com Marcelino. À noite estudávamos no Atheneu, ele a participar de discussões nos corredores avarandados. Vavá esmurrava o peito louvando o camarada Stálin, recitava aos gritos  um poema que falava da resistência de Stalingrado ao cerco nazista de novecentos dias. Outro amigo de Diovas sustentava que a música de Nelson Gonçalves era eterna, que Boemia jamais cairia de moda, que nenhuma outra seria capaz de substituí-la, a bossa-nova, iniciante, era para ele obra de um grupinho de amadores.
Enquanto o primo escrevia romance e eu sonhava com Marcelino, Cipião, o colega de quarto, narrava suas desventuras de cabaré. Perdera-se de amores por Alícia, que conhecera no Arpège, ela bebendo e fumando numa mesa com três homens. Na noite seguinte, encontrou-a sozinha, e falou de sua paixão súbita. Depois quis vê-la fora dali, num quartinho de vila no Alecrim. Alícia aguentou por uma semana, mas sentiu falta do uísque, dos cigarros americanos, da farra das amigas, dos comprimidos de pervitin para driblar o sono. Cipião procurou-a pelo bairro, pelo Quitandinha, Café Nice, Cine São Pedro, subiu a pé a ladeira de Maria Boa, até encontrá-la num dos quartos do Arpège, fazendo amor com um cabo de polícia. Brigou com faca, feriu o cliente de Alícia, cortou a mão do garçom que procurou intervir na briga, e perdeu para sempre a amante ao atirá-la nua pela janela do primeiro andar. Alícia caiu em pé e da calçada xingou-o com o xingamento que era insuportável para Cipião: bicho do olho de gafanhoto.
Uma vez o denunciei ao primo Diovas. Cipião se masturbava na janela do quarto vendo as colegiais passarem. Ao se masturbar, ia desnudando-as por parte, mandando em solilóquio tirar a blusa, o corpete, a saia, até chegar na calcinha, quando atingia o gozo, fazia uma pausa e recomeçava, uma dezena de vezes na tarde. Negou o costume, jurando em cruz, ajoelhado como um penitente aos pés de Diovas.
O apartamento do edifício Santa Luzia se desfez numa manhã. O primo atirou o romance na lata do lixo, embalou algumas roupas e se foi para Recife. Ia estudar Direito, sonhava com a velha faculdade onde estudaram Castro Alves e Tobias Barreto. Ouvira falar do Teatro Santa Isabel, das apresentações por lá das atrizes portuguesas Eugênia Câmara e Adelaide do Amaral, da paixão de Castro Alves pela primeira, do poeta condoreiro visitando-a no camarim, pálido, desfalecido, apoiado numa bengala. E de Fagundes Varela, que mais o impressionava: magro e alto, amalucado, arrastando tranças de papagaios pelas ruas do Recife. Esse mundo mágico e perdido no tempo deve tê-lo puxado como puxa uma estrela-guia, mas desconfio também que o incentivaram as estórias do Recife Antigo, das mil e uma mulheres que entravam e saíam pelas doze portas do Bar Paratodos, onde se bebia cuba libre até amanhecer o dia, os estudantes discursavam de pé sobre as mesas, e soldados e marinheiros brigavam de turma. Era o tempo dos marujos de andar bamboleante e farda com pala de seda para fazer resvalar a lâmina da navalha. Era um tempo em que não se inventara ainda caderneta de poupança. Era um tempo em que um bairro à noite atraía um enxame de mulheres, morenas, louras de verdade ou oxigenadas, putas que desciam do Pina, de Casa Amarela, Vasco da Gama e Morro da Conceição, zumbindo num vaivém infatigável. Podemos dizer que aquele ainda era um tempo lírico.

2

O dia não amanhecera por completo, homens e mulheres se encaminhavam para a padaria ou o açougue, alguns ainda sonolentos a esfregar os olhos, quando o primo bateu à porta do meu tio, preto de fuligem e poeira, trazendo uma moça que só após o banho se viu que tinha a formosura de bailarina de circo, porque também coberta de sujo depois de três dias de trem, vindo do Recife.
Contou ao tio que Suzana era filha de um usineiro de Pernambuco, e resolveram fugir na mesma noite em que se conheceram num lugar muito bonito, que mais parecia um pagode chinês e ficava por trás da faculdade onde estudavam os dois, e se chamava Torre de Belém.
A boa acolhida do tio, contudo, se interrompeu nos primeiros dias:
— Vem comer na mesa de garfo e faca, botar estilo na minha casa — reclamou.
O pai de Diovas gostava mesmo era de mulher falante, mulher de perna fina, quanto mais fina melhor, e que chapinhasse na cozinha como pato, e sorrisse ao sujar os pés com o leite do milho escorrendo do moinho, dizia que mulher de perna grossa era preguiçosa, sem valia, levava a vida a dormir ou ler revista de moda. O tio era lombrosiano por índole, traçava o caráter de qualquer um pelo andar ou pelo corpo, velhaco, por exemplo, tinha a fala de seda e andava com os pés apontando para fora, e moça que as coxas não roçassem uma na outra, não era mais virgem.
O pai chamou o filho à realidade, esta a pessoa  enfrenta ou esmorece, fugir é bom, mas só no perigo, se casou — ele disse — havia de carregar o peso da responsabilidade. Tanto amor à Suzana, vontade de ter com ela meia dúzia de filhos, e viverem juntos até a morte, olearam a nova vida, a canoa virou do leste para o oeste, o primo ficou com a saboaria, a fabricar e vender sabão. Desfez-se da guitarra clássica, que aprendera a tocar para acompanhar fados, e não falou mais em Guerra Junqueiro nem nos poetas românticos do Recife, tampouco os amores desses mesmos poetas, das réplicas de Castro Alves a Tobias Barreto nos saraus vespertinos e animados do Santa Isabel, sou pobre, sou hebreu, mas não beijo os pés da mulher de Putifar, muito menos também falou o primo em escrever um novo livro.
Tanto trabalho, com um pouco de jeito e sorte, pode dar em riqueza, bem aventurado o primo, que ficou rico, andou depois pela Escandinávia, Caribe e Europa, engordando e se valendo dos spas, os filhos abrindo bancas de advogado, consultório de dentista, lojas de balangandãs. Preciso dizer que nesse ínterim o primo não escapou de crises no casamento, como é frequente acontecer. Especialmente quando se casa com mulher bonita, ainda por cima de descendência nobre, crises de ciúme ao saber que Suzana, na sua ausência, ligava à noite a radiola para que o médico vizinho ouvisse boleros como Besame Mucho, em espanhol mesmo, ciúmes do motorista, tísico e fanhoso, de nome nada pomposo, Dedé da Farinha, mas de quem se disse que Suzana o agarrava na passagem estreita da alcova.

3

Nas suas viagens de negócio às vezes ocorria dele me visitar. Fazia censura à minha pobreza, dava voz à minha mulher, a qual me acusava de ter diploma demais e competência de menos. Displicente, enquanto não saía o café da manhã, apanhava alguma Status antiga, que fazia ponto no centro, folheava-a ligeiramente umedecendo o dedo na ponta da língua, e não evitava a acidez que adquirira com o tempo:
—    Vendo mulher nua, hem?
Já estava com a doença grave, quando me telefonou uma manhã queixando-se do seu pai:
—E então, a pessoa vive 95 anos pra falar uma bobagem dessa?! A vida não ensina nada a ninguém?
O tio, na véspera, estivera reunido com o primo Diovas e eu. E soltou a língua no quintal de casa, como se pela única vez declarasse um testamento honesto. Falou de quando fora traído, ainda não tinha filhos nem netos, pegou a mulher em flagrante, e com uma faca forçou-a no banheiro a entregar-lhe o bilhete infiel, e em vão tentou evitar que ela, minha tia, o engolisse para sempre. Terminaram a briga num sexo áspero, duro. Daí por diante o bilhete lhe serviu de livro imaginário e nunca acabado, escrevendo e reescrevendo mentalmente milhares de vezes, o que nele poderia estar escrito. Na reunião o tio não se contentou em revelar os acessos de desconfiança que o perseguiram até a morte, e aproveitou para apontar as infidelidades das noras. Suzana compartilhara sua cama com o médico, o motorista e mais uns dois ou três, conforme denunciou o tio com algumas décadas de atraso.
Morreu o tio, algum tempo depois morreu o primo Diovas. Tudo ficou longe, brumoso, e agora não são mais que fragmentos a ressurgirem num claro-escuro. Furtivos como os fragmentos de algum sonho, que me esforço em lembrar pelo menos até o meio-dia, e não consigo, se dissipam entre um gole de café, o som do rádio ou a buzina irritante de um carro.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

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