“Privateering”: Mark Knopfler e a viagem de um corsário

Quem já precisou viajar sozinho a trabalho e sozinho por muitas horas, dias e noites e em finais de semana em uma paisagem solitária sabem como isso pode moldar a alma da pessoa e a sua consciência. Acredito que caminhoneiros sabem o que é isso. Quando fui professor da UERN em Mossoró de 2004 a 2014 e viajando pelos Estados Unidos no meu pós-doutorado em 2015 e 2016, tive a oportunidade de vivenciar essa solidão muitas vezes. Esses momentos devem ser vistos como oportunidades, pois é quando podemos observar quem nós somos em essência. Essa também parece ser a experiência de muitos músicos em longas tournées em diferentes continentes, como são os músicos de heavy metal, que muitas vezes viajam em condições de conforto limitadas, em veículos velhos e com outras limitações.

Este preâmbulo serve para tentar caracterizar a proposta musical de Mark Knopfler no álbum Privateering de 2012, um clássico que não fica velho e que por acaso descobri em 2020 durante a pandemia quando vivenciava a distância de amigos e familiares no período da pandemia do coronavírus. As  composições de Privateering são como uma trilha sonora de uma longa travessia, como a que estamos atravessando na pandemia em meio a um cenário de medo e incerteza. Essa também é a experiência dos corsários (privateers), como registrado por Mark Knopfler. A música Red Bug Tree e outras deste álbum parecem capturar esse olhar idílico da realidade, da experiência subjetiva ao mesmo tempo solitária, mas de uma vida rica.

Muita gente mais nova talvez não conheça Mark Knopfler, o ex-vocalista e guitarrista e compositor do Dire Straits, banda de grande sucesso na década de 1980 por álbuns como Brothers in Arms (1985) e a coletânea Money For Nothing (1988). A banda ganhou 4 prêmios Grammy e 2 Grammy britânicos pelo o conjunto da obra, tendo durado 13 anos.

Em 1987 começam a ser fabricados os primeiros Compact Disc (CDs) no Brasil. A coletânea Money For Nothing foi um dos primeiros lançados em CD em 1988. Era um dos poucos lançamentos disponíveis para serem adquiridos: uma novidade musical no Brasil. O rock moderno do Dire Straits e a adoção deste formato moderno tinha tudo haver com um momento de inovação da época. Este foi um dos CDs que meu pai presenteou a mim e meu irmão. Portanto essa banda traz uma memória emocional para mim.

Independência e aventura

Mark Knopfler possui álbuns solos desde 1983, com o último tendo sido lançado em 2018, tendo atuado no Dire Straits até 1992, encerrando as atividades após uma exaustiva tournée. Dedicou-se então a projeto de álbuns e tournées solos mais intimistas e com públicos menores, nem tanto. É importante enfatizar que várias publicações já apontaram Knopfler como um dos músicos mais ricos da Inglaterra, com grande parte de sua riqueza advinda de direitos autorais de álbuns de grande sucesso comercial. Portanto, ele aos seus 71 anos não depende de realizar grandes tournées para ter seu ganha-pão. Seu foco é o prazer de composições que misturam folk, country, pop, rock e jazz.

Mas retornando ao disco, as primeiras impressões com o álbum musical é com a arte da capa. Confesso que a capa de Privateering é uma das capas mais feias que já conheci. A fotografia apresenta uma van velha em reparo, sem uma das rodas, entre pneus velhos em um cenário de abandono. A capa é lamentável, não enquanto sua arte em si, mas o que ela expressa: um lamento do artista, dos seus desafios e sua experiência existencial.

De acordo com o release do álbum, Knopfler usou a “analogia dos músicos de rock and roll modernos que fazem seus caminhos no mundo em um espírito de independência e aventura”. Afirma Knopfler neste release: “Eu realmente gosto de ter este pequeno grupo de pessoas que se espalha pelo mundo. Eu gosto de estar no comando dela, da banda, da equipe, de viajar por essa paisagem em constante mudança e tocar em todos esses lugares diferentes. Você chega onde chega sem qualquer tipo de ajuda, realmente, fazendo seu próprio caminho no mundo. Não há subsídios do governo para tocar essa música. Você é um corsário (privateer). E é assim que eu gosto.”

O álbum traz também lembranças dos  primeiros dias de carreira do compositor, quando “se você tivesse uma van, poderia entrar em um grupo, então a vans da banda sempre tiveram um lugar especial em meu coração.”

Não pense que se trata de um álbum triste. Está repleto de júbilo! Assim, como é a alma de alguns artistas em contato com a alegria e a maravilha da boa música. Privateering é tão bom que esse poderia ser o único álbum do megatalentoso Mark Knopfler. Trata-se de seu melhor álbum solo e com maior unidade temática, uma ótima recomendação para se escutar durante atividades de estudo, trabalho e em grandes viagens.

Professor de engenharia da produção da UFRN, diretor da FAPERN e coordenador do Habitat Marte. [ Ver todos os artigos ]

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