Problema “amazônico”

Por Lee Siegel
ESTADÃO

Os Estados Unidos se veem diante de um problema amazônico. Trata-se de um problema de preservação e desmatamento. Mas, neste caso, o que está em jogo é a preservação da cultura literária, bem como o desmatamento geral da leitura.

Fundada em 1994 e hoje a maior organização varejista online do mundo, a Amazon.com representa uma nova virada na história do capitalismo. Marx argumentava que o capitalismo “reifica” o desejo humano sob a forma de objetos que são comprados e vendidos. A ideia, apesar de curiosa, parece antiquada. A Amazon transforma objetos em sentimentos. O consumidor é atraído para uma espécie de relacionamento amoroso com as mercadorias da Amazon por meio do seu envolvimento direto no universo da loja. O comprador escreve uma resenha para o objeto do seu desejo, dá-lhe uma nota, “curte” o produto no Facebook e em tantas outras redes sociais. Algumas das resenhas chegam a milhares de palavras; chegam perto do nível de uma memória.

A Amazon não é a dona dos meios de produção daquilo que ela vende – ao menos, não ainda. Ela foi um passo além. A gigante da internet obteve a posse do desejo americano. E, por meio de sua manipulação do envolvimento emocional íntimo do consumidor com as transações da loja, ela transformou o próprio desejo no meio primário de produção. A Amazon vai nos oferecer literalmente qualquer coisa que desejemos. Basta manifestar este desejo à Amazon. Presto! O desejo é satisfeito.

Por meio da canibalização e obliteração dos rivais, alcançadas graças à estratégia de oferecer preços muito mais baixos do que a concorrência, a Amazon chegou muito perto de concretizar suas ambições imperiais. Em breve, todos os americanos irão somente à Amazon para comprar a realidade, pedaço por pedaço. Em breve a palavra “Amazon” será um sinônimo para todo o tipo de desejo. Quer parar de espirrar? Pense na “Amazon”. Sente-se levado a uma espécie de transe maravilhoso induzido por uma lembrança particular: “Amazon” esteve aqui. Imagino dois amantes se beijando num momento de êxtase compartilhado. “Amazon!”, suspiram eles. A Amazon está se convertendo na consciência em si.

Uma das consequências deste império da consciência varejista é uma confusão do desejo digna de Ovídio. Cada objeto à venda é equivalente aos demais. Isto não traz grande impacto quando estamos falando de máquinas de lavar e TVs de tela plana, mas a situação se torna extremamente destrutiva quando se trata de uma questão de livros. O fato é que a Amazon perde dinheiro com a venda de livros. A empresa usa os livros apenas como um chamariz para atrair os consumidores e levá-los a comprar outros produtos, como máquinas de lavar e TVs de tela plana, que são os artigos que proporcionam à Amazon seu lucro de verdade. Às vezes a Amazon chega até a oferecer livros de graça, sob a forma de e-books.

Neste processo, os livros perdem sua característica de repositórios únicos do conhecimento, da experiência e dos sentimentos. Os livros passam a ser exatamente como outra mercadoria. A maioria dos objetos pode se tornar o equivalente moral de outras coisas sem que isto acarrete consequências negativas, mas os livros, não – eles não são coisas em si, e sim significados e valores inestimáveis, que se desdobram infinitamente e estão armazenados em objetos. Estranhamente, a Amazon vende livros da mesma forma que os bancos americanos vendiam derivativos financeiros, provocando assim o derretimento econômico dos Estados Unidos em 2008. Como os derivativos, os livros são reunidos pela Amazon em pacotes com outras coisas que são absolutamente diferentes dos livros. Não surpreende que a empresa tenha o nome de Amazon. Como o impressionante Rio Amazonas, ela varre no seu fluxo as preciosas fronteiras entre os objetos físicos que compõem nossa realidade complexa.

Em poucos anos, a Amazon vai tirar do mercado as grandes editoras americanas – ao oferecer preços tão baixos a ponto de acabar com elas de vez e ao estabelecer seu monopólio sobre a distribuição – ou vai obrigá-las a reduzir radicalmente as próprias dimensões, assumindo um novo formato. Se as ditas “seis grandes” editoras de fato reduzirem suas operações, elas terão também que pagar adiantamentos muito menores aos autores. Isto significa que eles não conseguirão mais se sustentar com a própria escrita. Terão de arrumar empregos “normais”. Assim como os livros vão se tornar meras unidades de troca, os autores vão perder seu precioso espaço de afastamento reflexivo, tornando-se também meras unidades de troca no mercado. Todas as coisas e pessoas terão sido monetizadas. Ai de todos nós, lamentam as editoras.

Mas as editoras de livros têm apenas a si mesmas para culpar.

Há cerca de trinta anos, quando conglomerados majoritariamente europeus compraram 80% das editoras americanas, as margens de lucro foram transformadas. (É isso mesmo, 80% das editoras americanas pertencem a empresas estrangeiras, em sua maioria alemãs.) Uma indústria relativamente antiquada, que sempre atraiu estudiosos da língua inglesa e sempre teve como modelo de negócios uma convenção fora de moda, que consistia em vender um objeto por um lucro modesto, viu-se enredada no mercado de crescimento eufórico dos anos 80. O critério de medição do sucesso foi deslocado do lucro para o crescimento. Foi então que o livro, enquanto objeto de integridade, começou a dar lugar à embalagem do livro, às considerações a respeito da aparência dos autores, aos assuntos do momento, aos gêneros sensacionalistas e específicos das aflições, das memórias e assim por diante. O ethos do crescimento exige que os objetos percam suas fronteiras. As fronteiras são um obstáculo ao crescimento. A confusão ovidiana da Amazon foi o próximo passo inevitável.

E o mesmo pode ser dito de sua ênfase no crescimento em detrimento do lucro. A Amazon é de fato a reductio ad absurdum do capitalismo, no qual o vendedor consome a si mesmo ao ignorar a necessidade de ganhar dinheiro em nome da continuidade de sua expansão. O lucro não importa mais. A fungibilidade é a única prioridade. Nenhum objeto pode ter uma identidade separada de outro objeto. É claro que, como em Ovídio, o desejo não pode ser ilimitado e a especificidade dos objetos se faz valer. A jovem mocinha atraente se converte em árvore. O desejo em infinita expansão chega a uma muralha de tijolos. A conta precisa ser paga. A dívida se torna impossível de administrar. A bolha estoura e o mercado entra em colapso.

Um dos paradoxos que regem a vida americana de hoje é o fato de, numa época de crescimento lento para a economia americana, a ênfase maníaca dada pela Amazon ao crescimento em detrimento do lucro pode perfeitamente trazer o fim do crescimento nacional, conforme a empresa gigantesca avança para se tornar a única varejista sobrevivente, ocupando uma fatia cada vez maior da economia. Se a Amazon quebrar, boa parte da economia quebrará com ela. Então, o desafio será reconverter uma máquina de lavar em Anna Karênina.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

13 − 4 =

ao topo