O processo criativo

Por Luisa Geisler
BLOG DA COMPANHIA

(Prezados leitores do blog da Companhia das Letras: a continuação do post “Seis livros que sempre estou lendo” já volta. Peço desculpas pelo transtorno, mas o resultado da segunda parte estava abaixo do que vocês merecem [plateia ao fundo: “awwn”]. Retomarei no próximo mês. Agradeço a compreensão.)

Antes de começar, Luisa precisa arrumar sua escrivaninha. Nenhum autor jamais escreveu algo decente em uma escrivaninha bagunçada. Luisa esvazia os quatro porta-canetas em sua mesa, categorizando cada grupo de objetos em: canetas e lapiseiras pretas e azuis; canetas coloridas e marca-textos; canetas bonitas demais para usar; tesoura, grafite, carimbos e outros acessórios de papelaria. Após meia hora de reflexão, ela decide que não faz sentido as canetas coloridas ficarem no porta-canetas, que é uma xícara preta, enquanto as canetas pretas ficam num porta-canetas cor-de-rosa com ursinhos. Ela reinicia o processo.

Luisa abre o arquivo de Word em branco e sabe que isso é progresso.

Luisa encara o documento aberto.

Semanas atrás, Luisa havia achado um brinquedo de infância que pretendia doar. Uma mola, dessas plásticas que vão do rosa-choque ao verde. Luisa encara a mola. Talvez ela não deva doar tão cedo. Empurra a mola e todos os aros param em uma das mãos. Ela tenta de novo. Luisa brinca com a mola por aproximadamente oito horas seguidas.

Após um artigo inteiro da Wikipédia sobre a física das molas e um par de documentários, Luisa está pronta para o trabalho.

Luisa digita “(sem título)” e dá espaço. Progresso.

Luisa nota que deixou o filme que estava assistindo na noite anterior ainda aberto no Netflix. Não custa fechar. Janela indiscreta, de Hitchcock.

Luisa brinca com a mola por mais quarenta e cinco minutos, até acabar o Room 237, documentário sobre a produção de O iluminado.

Após buscar O iluminado no Netflix Brasil, Luisa descobre que o filme está indisponível. Ela tem de voltar ao trabalho.

Abaixo de “(sem título)”, Luisa escreve “por Luisa Geisler”. Quebra de linha. Progresso.

Luisa configura a página conforme sua obsessão: fonte Times New Roman 12, espaçamento 1,5, justificado, linhas numeradas de maneira contínua. Salva o arquivo. Progresso.

Luisa volta à linha de “por Luisa Geisler”, que ela agora sabe que é a linha número 2. Luisa deleta “por Luisa Geisler”. A pessoa para quem enviar o arquivo vai saber que foi ela quem escreveu. Duas quebras de linha. Progresso.

Luisa descobre que se jogar a mola na direção do cachorro, ele tentará buscá-la. O yorkshire corpulento odeia e teme a mola.

Luisa resolve lavar o cabelo antes que escureça. Ela pode escrever durante a noite, mas dormir de cabelo molhado causa gripe.

Luisa tenta pensar a respeito do texto enquanto deixa o hidratante agir no cabelo, mas acaba contabilizando o número de pintas do braço esquerdo. Luisa se indaga a respeito do câncer de pele.

Luisa passa três horas buscando sintomas de câncer de pele na internet.

Luisa escreve: “(introdução)”. Quebra de linha. Escreve: “(problema #1)”. Quebra de linha. Escreve: “(aqui vem o exemplo com o salário do Neymar)”. Nova linha. Escreve: “(aqui entra a digressão sobre aquilo que eu li em Moby Dick)”. Nova linha. Escreve: “(aqui eu faço uma piada sobre autores que citam Moby Dick.)”. Na mesma linha: “>>paralelo com Jurassic Park possível? y/n?”. Quebra de linha. Escreve: “acho que já li um artigo sobre isso. PROCURAR.” Luisa seleciona a palavra PROCURAR e coloca tons de amarelo ao fundo. Quebra de linha. Luisa seleciona a palavra PROCURAR novamente. O tom de fundo é verde-limão. Progresso.

Luisa tenta usar a mola colorida como pulseira no braço com possível câncer. Ela sacode a nova pulseira. O yorkshire corpulento salta e late de raiva para o maligno acessório. Luisa sabe que tem de voltar ao trabalho.

Luisa anota em um post-it “marcar dermato”, e gruda o recado no canto da tela do computador.

O post-it cai atrás da escrivaninha. Luisa passa aproximadamente oito semanas o resgatando. Ela demora mais três dias para grudar o post-it em seu lugar anterior.

O yorkshire corpulento quer fazer suas necessidades na rua. Justo quando Luisa ia começar o texto.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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