O processo criativo

Por Raphael Montes
BLOG DA COMPANHIA

Desde o início do ano, estou escrevendo meu próximo romance, de título provisório Jantar. Minha escrita sempre foi lenta, com muitas idas e vindas, a busca pela frase mais simples e de melhor sonoridade. Já dizia o mestre Nelson Rodrigues: “só eu sei o trabalho que me dá empobrecer os meus diálogos”. Tenho o costume de ler todos os capítulos já escritos antes de avançar, o que sempre atrasa o processo.

Ao longo desse ano, com todas as viagens para eventos e demais trabalhos, escrevi cerca de oitenta páginas do novo livro. Sempre tive facilidade em elaborar tramas complexas, com muitas reviravoltas, ganchos e linhas narrativas. Para mim, o grande interesse da literatura (e de cada livro) é determinar o foco narrativo, o ponto de vista que norteará toda a história. Ou seja, o que mais me desafia não é a história que vou contar, mas sim como vou contar.

Diferentes pontos de vista determinam histórias diferentes. Apenas para ilustrar, imaginemos a história do sequestro de uma criança. Os personagens principais são o pai, a mãe, o sequestrador, a criança, um policial responsável. Temos cinco pontos de vistas, todos absolutamente distintos, que acabam por refletir abordagens possíveis de uma mesma trama.

Uma vez contada do ponto de vista da mãe ou do pai, trata-se de uma história de perda, de angústia. É possível explorar reflexões sobre a paternidade, explorar a fragilidade da família e também a busca desesperada pelo filho. Se escolhida a visão da criança, temos uma história de medo, amadurecimento, autoconhecimento. Perde-se a chance de trabalhar a investigação dos pais, mas cresce a chance de mostrar a relação da criança com o ambiente hostil e com o sequestrador. Por sinal, se a história for contada do ponto de vista do sequestrador, será ainda outra: uma de tensão, necessidade de dinheiro, hesitação sobre o que fazer com a criança. Possivelmente, um romance social que explorará as motivações do personagem em cometer aquele crime. Por fim, na visão do detetive, teríamos um clássico romance policial investigativo em que até os pais da criança seriam suspeitos do crime. Diferentes pontos de vista, diferentes histórias.

Naturalmente, não existe um ponto de vista ideal. Tudo depende do que se pretende contar. Em Dias perfeitos, se eu tivesse escolhido narrar do ponto de vista da Clarice, o livro talvez devesse se chamar Dias imperfeitos. Em Jantar, a exploração dos pontos de vista é essencial. Trata-se de uma história de versões. O quebra-cabeças vai sendo montado sem que a verdade esteja evidente de início.

Conforme escrevia, senti que a história me escapava. Essa semana tomei coragem e aceitei: escolhi pontos de vista errados. Precisava mudar, acertar o tom. Debrucei-me sobre o esqueleto da trama — uma espécie de roteiro do livro que faço antes de escrever — e tratei de repensar cenas e estrutura. Acho que encontrei um caminho. Os novos pontos de vista determinam um novo final para o livro. Reaproveitando algumas partes, voltei ao zero e recomecei Jantar. Às vezes, um livro impõe seu destino e não adianta insistir ou brigar. Voltou a ser delicioso escrevê-lo. Se tudo der certo, ano que vem Jantar será servido para vocês.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery Magazine. Suicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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