Processo pode trazer à luz novos textos de Kafka

Kafkianos em todo o mundo estão atentos ao processo que corre em Israel envolvendo “milhares de páginas” supostamente escritas pelo escritor de Praga. Por trás dessas páginas, descortina-se uma longa história de “fugas, protestos, paixões, heranças, promessas, segredos e cofres ocultos”, como assinala a reportagem do Estadão do dia 21 passado, intitulada: “Briga na justiça pode trazer a público milhares de páginas escritas por Franz Kafka”.

Alguns antecedentes do processo já fazem parte da história da literatura do entre-guerras, quando Franz Kafka, sentindo se agravarem seus problemas de saúde, entregou ao amigo Max Brod todos os seus manuscritos, incluindo contos, parábolas e romances, diários e correspondências, exigindo, em troca, que ele os queimasse, o que o amigo prometeu fazê-lo. (mas que, felizmente, não o fez).

Tendo falecido em 1924, Kafka não chegou a conhecer o nazismo; não obstante, nas “Conversas com Kafka”, assinadas pelo seu conterrâneo Gustav Janouch, chegou a abordar esse assunto de forma, aliás, não menos desconcertante que a abordagem que faz sobre os mais diversos assuntos em outros momentos desse livro: “[…] o mundo nos opõe os gritos do antissemitismo. Para não aceder à humanidade, as pessoas se atiram nas profundezas sombrias da doutrina zoológica que é o racismo. Atinge-se o judeu e é o homem que se mata”. Convenhamos que é excessivamente professoral esse viés indulgente da questão. O apelo da Palestina também não lhe foi indiferente, como Hans Zischner mostra em seu também desconcertante “Kafka vai ao cinema” (ZAHAR, 2005).

Max Brod, todavia, sentiu todo o clima de ameaça que pairava sobre os judeus europeus e, em contraste, o apelo sionista pela volta à Palestina judaica, então sob protetorado britânico. Ao deixar Praga, em 1939, levou consigo os originais de Kafka, totalizando um volume muito superior ao que o próprio Kafka havia dado à publicação em vida. Antes de morrer, em 1968, entregou esses documentos a sua secretária e amante Esther Hoffe, pedindo, porém, que com a morte de Esther, os papéis fossem levados a um arquivo público “em Israel ou no exterior”. As filhas de Esther os herdaram. Foi então que a Biblioteca Nacional de Israel, através de seu diretor Hagai Bem Shamai, veio a público reivindicar que os originais de Kafka sejam entregues à instituição que preside, sob a alegação de que “joias literárias dessa relevância não podem permanecer em domínio privado”. Embora ache improvável que no espólio remanescente de Brod exista alguma obra inédita de Kafka, Shamai não desanima, porque confia que esse arquivo dará um status único à Biblioteca Nacional de Israel, após ser recolhido, restaurado, estudado e classificado. Mas a transição do arquivo Brod para a Biblioteca de Israel não se dará de forma pacífica. O Arquivo de Literatura Alemã da cidade de Marbach, que no passado comprou de Esther Hoffe vários manuscritos, inclusive os originais do romance “O Processo”, reivindica para si a posse do arquivo Brod, pelo fato de Kafka ter escrito suas obras em alemão. Como terminará essa disputa de consequências tão dramáticas para a literatura moderna, ainda não se sabe.

Num mundo cada vez mais kafkiano, em diversos sentidos dessa palavra, nada está totalmente descartado. Assim, no aceso dessa disputa pelo acervo de Max Brod, pode haver surpresas. Um único original de Kafka perdido em meio a mil documentos burocráticos é capaz de desencadear um rumor intenso nos meios literários contemporâneos. No fundo, é com esperança numa eventualidade dessa natureza, dadas as características tão particulares dessa arenga, que alemães e judeus se permitem retroceder a anacronismos de raça e de língua, que deveriam estar sepultados por completo nos tempos que correm e, no entanto, esperneiam sem arredar pé do mundo real…

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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