Professor da Escola de Música da UFRN é destaque na imprensa internacional

Música nos dias de hoje é sinônimo de ritmos populares, como forró, axé, pagode, sertanejo e funk. Raramente nomes como Bach, Beethoven, Mozart e Chopin são mencionados. Quando são, geralmente são associados a campanhas publicitárias ou a trilha sonora de filmes. Quem não se esquece da clássica propaganda dos sabonetes Vinólia ao som de Quatro Estações, de Vivaldi? Ou da “música do gás”, originalmente chamada de Für Elise, de Beethoven? Ou ainda da memorável abertura do filme original do Superman?

Por isso meu entusiasmo pelos projetos socioculturais cuja proposta é o ensino da música erudita. E Fábio Presgrave é o primeiro que me vem à cabeça quando falo do assunto. Ele comandava um projeto primoroso na Escola de Música de Macaíba, em parceria com a prefeitura e a UFRN. Cerca de 500 jovens entre 8 e 18 anos aprendiam a tocar instrumentos, não lembro se apenas o violoncelo de Presgrave – instrumento de tanta tradição potiguar desde os tempos de Aldo Parisot, na Ribeira dos anos 30.

O Grupo de Cordas, formada por ex-alunos da Escola de Macaíba, então comandada por Presgrave
O Grupo de Cordas, formado por ex-alunos da Escola de Macaíba, então comandada por Presgrave
Presgrave é um flamenguista – defeito mor! – que veio morar em Natal há uns bons anos. Trouxe um talento internacional para disseminar aos alunos da Escola de Música da UFRN e procurava formar centenas de alunos na vizinha Macaíba. Infelizmente, cerca de cinco ou seis anos atrás, a insensatez da prefeitura macaibense desistiu do projeto. Hoje, a cidade é das mais violentas do Estado. E Presgrave, bom, é notícia na Alemanha.

Após concertos recentes, acompanhado da pianista Erika Le Roux e do violinista Daniel Guedes (Professor da UFRJ), pela Série “Kamper Konzerte” em Kamp Litfort e no Orchesterzentrum de Dortmund, o violoncelista foi destaque na crítica alemã espalhada em diversos periódicos.

O jornal “Der Westen” apontou que um dos concertos foi “Uma noite inspirada para os amantes da música de câmara que lotaram o auditório e agradeceram aos músicos com intensos aplausos”. O periódico “RP On-line” afirmou que “Fabio Presgrave tocou com um som maravilhoso, por vezes cheio e por outras aveludado a fantástica melancolia da Elegia e da Seresta”. E ainda que “A intensa interpretação do Trio de Brahms trouxe à tona o ímpeto da linguagem contrapontística da obra. O final furioso rendeu entusiasmados aplausos”.

E penso nos 500 alunos de Macaíba, em contato quase diário com esse instrumentista. Um violoncelista doutor em música pela Unicamp, com títulos de Bacharel e Mestre em Performance pela renomada Juilliard School of Music em Nova Iorque, onde estudou com Harvey Shapiro e Joel Krosnick. Ainda nos Estados Unidos recebeu prêmios reconhecidos, como o Eleanor Slatkin e o Felix Salmond.

E este renomado músico quem ensinava jovens em situação de risco em Macaíba. Mais de 90% da música ensinada a esses alunos era de compositores nascidos há mais de 200 anos – pura música erudita. Na rigorosa prova que exigia/exige alto conhecimento teórico e prático de música, promovida pela EMUFRN – referência no Estado –, o índice de aprovação desses alunos era acima da média. Mas, Presgrave foi embora e os alunos foram as vítimas.

Esse ano, Presgrave apresentará o Concerto de Alberto Ginastera, na Argentina, durante as celebrações de cem anos do nascimento do compositor. Sobre o concerto, o renomado MaestroDavid del Pino destacou no Jornal “La Capital”: “Em novembro Presgrave interpretará o concerto de Ginastera. Tive a sorte de dirigir este solista há dois anos no Brasil, e sua versão de Ginastera foi tão extraordinária que não tinha dúvidas que deveria trazê-lo para cá”.

Desde Agosto de 2015 Presgrave realiza sua pesquisa pós-doutoral na Universidade de Muesnter, na Alemanha. Além dos concertos pela Europa, ele tem oferecido masterclasses em grandes centros de ensino, como a Academia Sibelius de Helsinki, o Conservatório de Oviedo e a Royal Academy of Music na Dinamarca.

O website da Academia Sibelius deu destaque ao masterclass e entrevista com o Professor Presgrave com o seguinte título “A Música como uma Ferramenta para Paz”.

Música, paz – antíteses aos burocratas e à violência decorrente deles. Macaíba é só um exemplo.

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OBSERVAÇÃO: Fui alertado pelo Fábio que, embora o projeto tenha mesmo encerrado, quando a última gestão da prefeitura de Macaíba assumiu, foi retomado, mesmo aos trancos e barrancos, como todo reinício, na atual administração do prefeito Fernando Cunha, o mesmo que apoiou o projeto no início. Agora, o projeto é comandado por André Muniz e Jean Joubert, com excelência musical mantida.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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