Professores: o que ainda não aprendemos?

Foi no recente 1º de maio – logo nesse dia – que abri a internet e vi imagens pavorosas da violência perpetrada pela polícia paranaense, poucos dias antes, contra os trabalhadores da educação, professores daquele Estado. Impressionante essa “homenagem”. Veio a reflexão de que muito tempo se passou e pouco o Brasil aprendeu com os seus mestres. Lembrei que durante a vida toda conheci professores extremamente dedicados e competentes e outros nem tanto. Mas, mesmo quando fui mais indisciplinado, sempre dediquei respeito e reverência a todos, indistintamente. Afinal, mestre é mestre. E sempre tem algo a ensinar. O problema é que nem todo aluno está disposto a aprender. E às vezes um ou outro termina se voltando contra os seus mestres, até com seus (des)governos desastrados e suas tropas famintas por violência.

Uma vez, num tempo em que exerci o nobre e difícil ofício de professor por alguns anos, diante de um aluno bem experimentado e cheio de saberes, lancei a solene pergunta, numa conversa a dois: “– Será que você não tem mais nada a aprender?”. O aluno foi sábio ao fazer um silêncio reticente e contido diante de mim e da indagação, fitando-me sério, mas não partindo para se digladiar comigo. Apenas respondeu que sim, que ainda havia algo a aprender. Esse mesmo aluno se tornaria, meses mais tarde, um bom amigo e interlocutor. E a minha admiração somente cresceu, por ele ter aprendido a lição, num instante de valiosa humildade.

Atitude de sabedoria, humildade e respeito não foi bem o que ocorreu em Curitiba. Todos viram uma situação sinistra de ataques violentos e cruéis, com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, além do auxílio medievalesco dos nutridos cães pitbull, contra os professores manifestantes desarmados, que reclamavam direitos e que se viram, de repente, cercados em plena “praça de guerra”. Homens e mulheres sangravam, atingidos por golpes, tiros, potentes mordidas de animais. O horror se apresentou a olhos vistos. Um quadro de batalha antiga, em vermelho e negro. E tudo denotando fortes violações dos direitos humanos e da nossa democracia, que – lembre-se e relembre-se – não tem tantos anos assim, merecendo permanentes cuidados.

Fico me perguntando o tempo todo: O que aprendemos neste país? E o que desaprendemos nesses mais de 500 anos de existência? Por que não nos lembramos daquele que deve ser o adequado tratamento a ser dado aos nossos mestres, que – de maneira heróica e devotada – tanto já sofrem no labor? O que este país vai querer ser quando crescer? E cresceremos desse jeito? Por algum momento me lembrei da canção do bom e velho Legião Urbana: “Quero me encontrar, mas não sei onde estou/Vem comigo procurar algum lugar mais calmo/Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita/Tenho quase certeza que eu não sou daqui.”

O Brasil precisa, sim, ser a “Pátria Educadora”. E não são somente os governos que possuem um papel relevante a cumprir nisso tudo. A educação é algo muito mais complexo, que envolve atores e fatores múltiplos. Tudo isso precisa ser atualizado, continuamente reciclado, para que não haja retrocesso. Por ser lição primeira, não podemos nos permitir a reprovação em matéria de liberdades públicas. A violência crua não pode ser empregada como se fosse um assunto bom de aula. Muito menos contra nossos mestres. E precisamos passar de ano, de década, de século e de milênio nos quesitos da prova de democracia. Tratemos com dignidade, pois, os que nos trazem as lições todas. E que o respeito e a educação digam sempre: “– Presente, professor!”

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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