Profissão: Indignado

Prestes a completar 60 anos, liderando uma equipe de jovens repórteres e consagrado como uma celebridade no jornalismo brasileiro, Caco Barcellos não perdeu a capacidade de indignar-se diante de injustiças, mas confessa: “Me sinto cruelmente derrotado pela realidade”

Por Débora Mamber e Rodrigo Levino

Para Caco Barcellos, poderoso não é quem manda ou quem tem muito dinheiro no banco. São os que conseguem fazer muito com os poucos trocados que ganham em empregos indignos. Os que sobrevivem com esgoto a céu aberto e um sistema público de saúde em estado de penúria. Os que têm o dom de driblar as rasteiras da vida e ainda assim marcar um gol.

Desde que começou a rabiscar as primeiras crônicas, quando saía pelos bairros de Porto Alegre durante a madrugada com seu cachorro vira-lata para testemunhar e contar os fatos à sua volta, Caco Barcellos interessava-se pelas histórias da camada mais desprovida da sociedade. Hoje, prestes a completar 60 anos e mais de trinta de carreira — 25 dos quais na Rede Globo –, a bandeira dos injustiçados se tornou uma marca registrada de seu trabalho, que notabilizou-se por reportagens investigativas e denúncias de grande alcance social.

Sentando numa das cinco poltronas da sala de seu apartamento, uma morada que para o imaginário acerca do padrão de vida dos globais pode ser considerada espartana, de tão simples, Barcellos mostra-se cioso de sua importância como jornalista – ‘que tem, sim, um papel social a cumprir’. O tom de sua fala é professoral, até didático, mas desprovido de empáfia. Quando sai às ruas, é abordado por senhoras idosas que dizem “rezar para ele sair de enrascadas”, homens que querem denunciar iniqüidades, jovens querendo uma fotografia, mulheres em busca de uma intimidade maior com o repórter-galã. Na maioria das vezes, são demonstrações de carinho, que ele costuma retribuir com atenção. “Por isso, meu processo de trabalho é lento. Tem equipe que não quer sair comigo, pois chego aos lugares na periferia e fico horas conversando com quem me pára – e são muitos”

A notoriedade lhe rende um material de trabalho precioso. São centenas de histórias contundentes e exclusivas, como todo jornalista deseja, que caem no seu colo a todo tempo. E que, quando despertam seu interesse para serem contadas, de tão esmeradas já lhe renderam mais de vinte prêmios de jornalismo e literatura como Jabuti, Esso e Vladimir Herzog. A láureas vieram pelo que produziu tanto na mídia impressa — nas revistas IstoÉ e Veja –, como repórter de TV e autor de livros-reportagem.

É o único proveito que Barcellos diz tirar do fato de ser reconhecido como repórter. Dispensa regalias e tratamento diferenciado onde quer que esteja: “Acontece de chegar ao banco e ter uma fila imensa. O gerente me reconhece e chama ‘ah, vem cá, vamos dar um jeito de sair mais rápido’. Claro que não! Faço questão de ser tratado mal como são todos os demais. E acho vergonhoso existir fila especial para quem tem um punhado a mais de dinheiro na conta”.

Pai de três filhos – Ian, de 32, Iuri, de 18 e Alice, 11 — desde meados de 2008 comanda um oásis na programação da TV aberta no Brasil: o Profissão Repórter, atração semanal da Rede Globo dedicada a esmiuçar grandes histórias com personagens geralmente anônimos, sob diversos ângulos.

Foi a vontade de Caco de ser onipresente que o levou a criar o programa. Obsessivo na busca de se aproximar da verdade, seu desejo era poder abordar vários lados de uma mesma história ao mesmo tempo – o que lhe permitiria ser mais eqüitativo com os envolvidos. Assim, surgiu a idéia de filmar com quatro equipes de jornalistas trabalhando simultaneamente em diversos lugares sobre uma só matéria.

Ao conceber o programa, Barcellos e o diretor Marcel Souto Maior determinaram também que esses jornalistas fossem jovens profissionais sem experiência, que tivessem o entusiasmo e o frescor de presenciar pela primeira vez os acontecimentos de seu tempo. Escolhidos após um intenso processo de seleção, os novatos estimularam ainda mais o experiente jornalista, que rejeita o papel de mentor. “Muitas vezes acho que estou fazendo algo original quando um deles cita um autor que já escreveu sobre aquele assunto há muito tempo”. A troca é mútua: enquanto os iniciantes trazem a ele referências das milhares de informações que colheram nas novas mídias, o veterano os faz olhar para além da tela do computador e descobrir o fascinante mundo em que jornalistas buscaram a notícia desde os tempos primordiais: a rua.

Além da simultaneidade de equipes, até então um formato inédito na televisão, os bastidores passaram a ser expostos diante de todo o país. Para Barcellos, não se trata de nenhuma inovação: “Os programas humorísticos já faziam isso, só que sempre mostravam o erro. Eu prefiro colocar discussões éticas, que estão presentes em todas as redações, mas nunca mostradas”.

Ele cita um exemplo: ‘Num de nossos programas, fomos cobrir uma ação de despejo num prédio, no centro de São Paulo. Uma equipe se encarregou de acompanhar os proprietários, outra a polícia, e uma terceira de acompanhar o desenrolar da ação dentro do edifício invadido, convivendo com os moradores. Na madrugada da ação, a repórter desabou. Disse que estávamos nos aproveitando da desgraça alheia, que o lugar estava cheio de crianças e que não seria justo cobrir o fato, já que elas poderiam se machucar nos confrontos’. Os rumos da discussão tornaram-se públicos. Ao final dela, Barcellos convenceu a repórter de que a melhor maneira de ajudar àquelas pessoas era testemunhar e mostrar o que via.

Houve também repórter que tomou bronca no ar por ter fugido da ação durante uma briga de torcidas no estádio e se protegido – talvez o primeiro pito público da história do jornalismo da Globo. Demonstrar emoção também era um tabu na cartilha global. Com exceção de Glória Maria, que representa uma categoria à parte na emissora, todos os outros sempre encobriram suas reações diante dos fatos. “O que há no programa é a revelação de uma parte que eu mesmo sempre escondi. Isso de certa forma é o que traz a proximidade com o telespectador”.

Depois de um ano e meio da estréia do programa, é certo dizer que a fórmula foi aprovada. Os índices de audiência alcançam uma média de 17 pontos, número alto considerando o horário da apresentação e a concorrência de programas de entretenimento em outras emissoras, como “A Fazenda”, na Record. No mais, em uma breve caminhada com Barcellos numa favela paulistana enquanto conversava com a reportagem de PODER, fica claro que o reconhecimento do programa ultrapassou o seu próprio. Muitos ali não se lembram do seu nome, mas logo associam suas feições ao Profissão Repórter. Para ele, mais um motivo de orgulho.

Além do sucesso nas ruas, nos livros que publicou Barcellos também carrega a marca dos Best Sellers. Em 2003, o mais vendido no país teve sua assinatura: ‘Abusado, o dono do morro Dona Marta’, um relato esmerado da violência no Rio de Janeiro a partir da história de Marcinho VP, traficante carioca morto pouco depois do lançamento da obra. Além de ‘Rota 66’, igualmente bem sucedido, e de ‘Nicarágua: A revolução das crianças’.

Em comum nos livros, o onipresente tema misto de violência e injustiça. Tanto do lado dos traficantes de drogas assim como a ação de policiais matadores, ou como ele diz, ‘o estado que mata’. A coragem de desvendar o antes intocável, ao arriscar-se mexendo em vespeiros de reconhecida selvageria, rendeu-lhe há dois anos o Prêmio Especial das Nações Unidas como um dos cinco jornalistas expoentes da defesa dos direitos humanos no Brasil nas últimas três décadas.

Nada disso parece ser o bastante e, apesar dos resultados que alcança com o seu trabalho, confessa sentir-se “cruelmente derrotado” ao falar da realidade que, por mais que tente, vê mudar a passos lentíssimos no que diz respeito à igualdade de direitos e, como taxa, uma solução para “a guerra social entre classes no Brasil, que tende a prejudicar sempre o mais pobre”. E vai adiante: “Me sinto triste, pois eliminamos um foco [de injustiça e violência] e nascem outros tantos. Mas, fazer o quê? Não está no nosso domínio mudar as coisas. Isso não passa de um desejo”.

Ao entrar no assunto da brutalidade que conhece pelos meandros das ruelas dos morros cariocas, a indignação inflama as palavras desse homem acostumado a falar para as câmeras. “Não se pode fechar os olhos para a violência do Estado como os intelectuais do Rio de Janeiro fazem. Há uma presença de Carlos Lacerda que sobreviveu ali e que promove uma campanha difamatória de que quem defende os direitos humanos defende os bandidos. Esse é um discurso fascista, antiquado, dos coronéis, e ainda repetido por muita gente”.

Mais de uma década depois de denunciar a matança do BOPE – Batalhão de Operações Especiais do Rio – em seu primeiro livro, Barcellos ressalta, de cor, os números dos assassinatos cometidos pela Policia Militar carioca em 2007, ano dos jogos Pan-Americanos. Foram 1350. Um número infame e ainda mais vergonhoso se comparado aos 1150 presos executados no mesmo ano por todos os 70 países que adotam a pena de morte. “No Rio de Janeiro, 25% das mortes são praticadas pelo Estado. Se essa é a solução para as Olimpíadas, quantas pessoas terão que matar?”

Quase tão surpreendente quanto os dados é a frase desafiadora com que resume a solução para o problema: “A coisa mais simples do mundo na minha cabeça é eliminar o poder do tráfico”. Como? Criando empregos dignos. “Os jovens das favelas não querem repetir a trajetória dos pais, que conhecem desde que nasceram: Trabalhar 30 anos em troca de nada, de miséria, barraco, com esgoto a céu aberto, policia invadindo… Não tenho dúvida que, se um jovem tiver um salário razoável, competitivo, ele vai preferir do que correr risco de morrer com dinheiro do trafico”.

É o único momento em que Barcellos muda o tom de voz. Que aos poucos retorna à calmaria típica, casando com a aparência jovial mantida com uma dieta leve e o futebol semanal.

Além da reportagem e do arroz integral, que afirma ser o remédio para todos os seus males, a bola é o seu grande vício. “Já cheguei a participar de cinco times simultâneos, para não correr o risco de perder o jogo durante a semana por conta dos imprevistos de trabalho”, conta. É uma das poucas horas em que ele desliga-se da realidade. Fora do campo, Caco Barcellos vira o que o Brasil inteiro conhece: o defensor dos excluídos.

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