Programação do Flipipa 2011

Por Jóis Alberto

Muito boa a programação do Flipipa 2011, o que era previsível, dada a inegável competência de Dácio Galvão em organizar esse tipo de evento, o festival literário. E Dácio Galvão, doutorando em Letras pela UFRN, trouxe para ele a responsabilidade de fazer a apresentação da conferência do professor e ensaísta Davi Arrigucci Jr, o grande nome desse evento, sob todos os aspectos. Na realidade, é difícil destacar um ‘grande nome’, em meio a tantas estrelas e astros do universo literário brasileiro, mas se eu tiver que destacar um, sem dúvidas destaco o prestigiado professor, autor de ensaios antológicos acerca da vida e obra de Manuel Bandeira, tema da conferência, que abordará também o modernismo e outros autores.

Fernando Morais, Arnaldo Antunes, Eucanaã Ferraz, Carlito Azevedo são outros nomes que se destacam, como todos sabem. Agora, colocar Fernando Morais para debater com Cassiano Arruda Câmara será, no mínimo, um desafio e tanto para ambos. Ambos são grandes jornalistas, sem dúvidas, mas com visões políticas e ideológicas totalmente opostas. Desse modo, é de se esperar que a temperatura aumente muito nos calorosos embates que poderão ocorrer. Seria aconselhável escalar um terceiro nome para moderar os dois, especialmente caso Cassiano recorra aos batidos clichês anticomunistas, da época da guerra fria, que pautam a “Veja” e outros colunistas de direita, notadamente quando abordam a questão do socialismo em Cuba. Mas, inevitavelmente, ‘guerra fria’ faz parte do tema da mesa. É de se esperar, todavia, a habitual competência e originalidade de Fernando Morais para apresentar novas abordagens e superar lugar-comum.

Boas escalações, e que prometem debates sem qualquer risco de clichês – ideológicos ou de outro tipo – , são as mesas que reúnem os poetas Arnaldo Antunes e Jarbas Martins; Eucanaã Ferraz e o professor e poeta João Batista de Morais Neto; Carlito Azevedo e Ana de Santana. Arnaldo Antunes, pela sua imensa criatividade, tanto como poeta como compositor popular, dispensa maiores comentários. Jarbas Martins é poeta, que, em nível local, reconhecidamente entende do ofício como poucos, seja como grande conhecedor de formas tradicionais como o soneto, metrificação – decassilabos, alexandrinos, etc – e rimas, ou como alguém que domina igualmente o repertório da poesia de vanguarda contemporânea, desde os anos 60 à atualidade.

Jarbas Martins é tão talentoso como poeta que muitos dos seus admiradores, como eu, perdoam eventuais equívocos – quem não os comete, vez por outra? -, como a pergunta que ele lançou, em comentários aqui no SP, indagando o motivo por que crítico literário não havia se dedicado ao estudo da ‘comprovada doença mental’ de dois escritores potiguares. “Doença mental” é um conceito polêmico, especialmente a partir das críticas feitas por Foucault, e outros, a essa noção. Além do mais, é de se indagar também: o que é mais importante, conhecer e admirar a obra de Van Gogh ou ler textos acerca da loucura desse pintor genial? O mesmo valendo para a poesia de Artaud e outros artistas que sofreram transtornos ou distúrbios mentais – , termos médicos mais apropriados na atualidade.

Eucanaã Ferraz e João Batista de Morais Neto são, antes de tudo, dois estudiosos da poesia, dois confrades de artes poéticas, dois competentes poetas. À mesa, prometem atrair um bom público para ouvi-los falar acerca da ‘poesia em rotação’ na obra do próprio Eucanaã Ferraz, um dos mais respeitados poetas brasileiros da novíssima geração, ou pelo menos da poesia que ganha maior projeção nacional, aquela criada e divulgada no eixo Rio-São Paulo. E é do Rio de Janeiro que vem outro competente poeta, Carlito Azevedo, editor da revista “Inimigo Rumor”. Só o fato de editar e manter há um bom tempo uma revista de poesia, e de excelente qualidade, já é merecedor de muitos aplausos. Não bastasse isso, Carlito Azevedo é igualmente excelente e premiado poeta.

A ressalva, e sempre há ressalvas a se fazer, é que se, nós jornalistas e escritores potiguares, conhecemos e reconhecemos bem o talento dessas estrelas e astros da literatura brasileira, o fato, regra geral, é que eles conhecem pouquíssimo – ou simplesmente desconhecem – o que se produz de literatura e outras artes no Rio Grande do Norte. Se houvesse, como é desejável esperar, se ocorresse um verdadeiro intercâmbio cultural, com pelo menos algum registro literário – artigo, ensaio, sei lá! – sobre a impressão deles a respeito dos contatos com a literatura do RN e escritores potiguares, acerca dos quais comentassem alguma coisa, contra ou a favor, em textos editados posteriormente em alguma revista ou livro, e não apenas em burocráticos anais, seria de grande valia. No entanto, não é o que ocorre.

Então, depois, provavelmente o que ocorre, ou que ocorrerá, ou o que costuma acontecer nessas ocasiões? Provavelmente o que ocorrerá – e espero não ser previsível nem injusto ao levantar essa possibilidade – mas provavelmente o que ocorrerá é que escritores cariocas como o poeta Carlito Azevedo retornará ao Rio, ao convívio dos círculos literários cariocas, com impressões do tipo de que esteve numa tão longíqua quanto bela Praia de Pipa para debater literatura com ‘escritores paraíbas’! Isso não ocorrerá, é claro, se o poeta carioca deixar de lado eventuais bairrismos, e tiver o mínimo de curiosidade e sensibilidade – ele que abordará o tema ‘poesia: modo de sentir’ – para conhecer um pouco não só do trabalho de Ana de Santana, por exemplo, autora de elogiado texto acadêmico sobre Sousândrade e que será a mediadora na fala de Carlito; mas também um pouco mais acerca de Cascudo e suas cartas para Mário de Andrade, ou descobrir um pouco sobre o sertão, pelas mãos do competente Oswaldo Lamartine, que deixou saudades em muitos de seus admiradores e admiradoras.

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