Programação do Flipipa 2011

Por Jóis Alberto

Muito boa a programação do Flipipa 2011, o que era previsível, dada a inegável competência de Dácio Galvão em organizar esse tipo de evento, o festival literário. E Dácio Galvão, doutorando em Letras pela UFRN, trouxe para ele a responsabilidade de fazer a apresentação da conferência do professor e ensaísta Davi Arrigucci Jr, o grande nome desse evento, sob todos os aspectos. Na realidade, é difícil destacar um ‘grande nome’, em meio a tantas estrelas e astros do universo literário brasileiro, mas se eu tiver que destacar um, sem dúvidas destaco o prestigiado professor, autor de ensaios antológicos acerca da vida e obra de Manuel Bandeira, tema da conferência, que abordará também o modernismo e outros autores.

Fernando Morais, Arnaldo Antunes, Eucanaã Ferraz, Carlito Azevedo são outros nomes que se destacam, como todos sabem. Agora, colocar Fernando Morais para debater com Cassiano Arruda Câmara será, no mínimo, um desafio e tanto para ambos. Ambos são grandes jornalistas, sem dúvidas, mas com visões políticas e ideológicas totalmente opostas. Desse modo, é de se esperar que a temperatura aumente muito nos calorosos embates que poderão ocorrer. Seria aconselhável escalar um terceiro nome para moderar os dois, especialmente caso Cassiano recorra aos batidos clichês anticomunistas, da época da guerra fria, que pautam a “Veja” e outros colunistas de direita, notadamente quando abordam a questão do socialismo em Cuba. Mas, inevitavelmente, ‘guerra fria’ faz parte do tema da mesa. É de se esperar, todavia, a habitual competência e originalidade de Fernando Morais para apresentar novas abordagens e superar lugar-comum.

Boas escalações, e que prometem debates sem qualquer risco de clichês – ideológicos ou de outro tipo – , são as mesas que reúnem os poetas Arnaldo Antunes e Jarbas Martins; Eucanaã Ferraz e o professor e poeta João Batista de Morais Neto; Carlito Azevedo e Ana de Santana. Arnaldo Antunes, pela sua imensa criatividade, tanto como poeta como compositor popular, dispensa maiores comentários. Jarbas Martins é poeta, que, em nível local, reconhecidamente entende do ofício como poucos, seja como grande conhecedor de formas tradicionais como o soneto, metrificação – decassilabos, alexandrinos, etc – e rimas, ou como alguém que domina igualmente o repertório da poesia de vanguarda contemporânea, desde os anos 60 à atualidade.

Jarbas Martins é tão talentoso como poeta que muitos dos seus admiradores, como eu, perdoam eventuais equívocos – quem não os comete, vez por outra? -, como a pergunta que ele lançou, em comentários aqui no SP, indagando o motivo por que crítico literário não havia se dedicado ao estudo da ‘comprovada doença mental’ de dois escritores potiguares. “Doença mental” é um conceito polêmico, especialmente a partir das críticas feitas por Foucault, e outros, a essa noção. Além do mais, é de se indagar também: o que é mais importante, conhecer e admirar a obra de Van Gogh ou ler textos acerca da loucura desse pintor genial? O mesmo valendo para a poesia de Artaud e outros artistas que sofreram transtornos ou distúrbios mentais – , termos médicos mais apropriados na atualidade.

Eucanaã Ferraz e João Batista de Morais Neto são, antes de tudo, dois estudiosos da poesia, dois confrades de artes poéticas, dois competentes poetas. À mesa, prometem atrair um bom público para ouvi-los falar acerca da ‘poesia em rotação’ na obra do próprio Eucanaã Ferraz, um dos mais respeitados poetas brasileiros da novíssima geração, ou pelo menos da poesia que ganha maior projeção nacional, aquela criada e divulgada no eixo Rio-São Paulo. E é do Rio de Janeiro que vem outro competente poeta, Carlito Azevedo, editor da revista “Inimigo Rumor”. Só o fato de editar e manter há um bom tempo uma revista de poesia, e de excelente qualidade, já é merecedor de muitos aplausos. Não bastasse isso, Carlito Azevedo é igualmente excelente e premiado poeta.

A ressalva, e sempre há ressalvas a se fazer, é que se, nós jornalistas e escritores potiguares, conhecemos e reconhecemos bem o talento dessas estrelas e astros da literatura brasileira, o fato, regra geral, é que eles conhecem pouquíssimo – ou simplesmente desconhecem – o que se produz de literatura e outras artes no Rio Grande do Norte. Se houvesse, como é desejável esperar, se ocorresse um verdadeiro intercâmbio cultural, com pelo menos algum registro literário – artigo, ensaio, sei lá! – sobre a impressão deles a respeito dos contatos com a literatura do RN e escritores potiguares, acerca dos quais comentassem alguma coisa, contra ou a favor, em textos editados posteriormente em alguma revista ou livro, e não apenas em burocráticos anais, seria de grande valia. No entanto, não é o que ocorre.

Então, depois, provavelmente o que ocorre, ou que ocorrerá, ou o que costuma acontecer nessas ocasiões? Provavelmente o que ocorrerá – e espero não ser previsível nem injusto ao levantar essa possibilidade – mas provavelmente o que ocorrerá é que escritores cariocas como o poeta Carlito Azevedo retornará ao Rio, ao convívio dos círculos literários cariocas, com impressões do tipo de que esteve numa tão longíqua quanto bela Praia de Pipa para debater literatura com ‘escritores paraíbas’! Isso não ocorrerá, é claro, se o poeta carioca deixar de lado eventuais bairrismos, e tiver o mínimo de curiosidade e sensibilidade – ele que abordará o tema ‘poesia: modo de sentir’ – para conhecer um pouco não só do trabalho de Ana de Santana, por exemplo, autora de elogiado texto acadêmico sobre Sousândrade e que será a mediadora na fala de Carlito; mas também um pouco mais acerca de Cascudo e suas cartas para Mário de Andrade, ou descobrir um pouco sobre o sertão, pelas mãos do competente Oswaldo Lamartine, que deixou saudades em muitos de seus admiradores e admiradoras.

Comentários

Há 17 comentários para esta postagem
  1. jr palhares 17 de novembro de 2011 13:22

    Pretendo ir sabado para o evento, porem gostaria de saber a programaçao do sabado?:

  2. Marcos Silva 3 de novembro de 2011 4:08

    O texto de Jóis e os comentários que se lhe seguiram são de interesse para percebermos o FLIPIPA (e atividades similares) como momentos de um processo mais amplo de produção de e reflexão sobre culturas. Até penso qaue este SP e outros blogs e publicações são plataformas permanentes daquele debate, que deve continuar sempre.

  3. Jóis Alberto 3 de novembro de 2011 1:08

    No texto que escrevi sobre a Programação do Flipipa 2011, fiz mais elogios ao evento do que ressalvas – não vou nem usar a palavra ‘crítica’ para não gerar novos mal-entendidos. Por isso, por julgar que já esclareci o uso que fiz do vocábulo ‘paraíba’ – no caso, não me referindo ao nome do Estado vizinho, mas à expressão utilizada pejorativamente por gente preconceituosa, e não só pessoas de baixo nível cultural mas também por gente até de elevado nível intelectual, em Estados do Sudeste e do Sul, e não por mim, natalense, potiguar e nordestino, com orgulho, como sou – passarei a tratar da questão do formato do festival literário.

    Quando um evento – cultural, esportivo, etc, destinado ao grande público, é realizado exclusivamente com verbas da iniciativa privada, não nos cabe fazer sugestões sobre a organização da programação e de outros fatos relacionados à produção, exceto se se tratar de cobertura jornalística, ou se de algum modo prejudicar os nossos direitos – direito de ir e vir; lei do silêncio; poluição sonora ou visual, etc. No caso do Flipipa 2011, trata-se de evento cultural organizado por empresa de iniciativa privada, em parceria com o poder público. Daí, não só como jornalista ou escritor, me permito o direito de fazer algumas sugestões.

    Considero louvável o objetivo do festival literário de ser realizado em praia de grande atração turística – o que o autoriza, sem dúvida, a captar recursos no Ministério do Turismo – , reunindo alguns dos mais notáveis e prestigiados escritores do Rio Grande do Norte, de outros Estados do Brasil e eventuais convidados estrangeiros. No entanto, por mais meritório que seja esse formato, o Flipipa não deveria se limitar a isso. O trabalho do escritor não se resume à criação literária. Desse modo, o Flipipa – não mais para esta edição, mas nas próximas – deveria estimular ideias e projetos para possíveis parcerias com as pequenas, médias e grandes editoras; gráficas – em especial as gráficas que trabalham por demanda, na edição de livros –; divulgação – assessorias de imprensa, trabalhos na internet -; direitos autorais; distribuição, comercialização; discussão de política cultural e outras políticas públicas para o setor, etc…

    Isso exposto, gostaria de enfatizar: como fiz mais elogios e sugestões ao evento, espero não ser lembrado apenas pela crítica em foco, ok?

    Me lembro que, como repórter do “Diário de Natal” – de 1985 a 1997 –, eu cobri as edições iniciais do Festival de Cinema de Natal – FestNatal, e nessa cobertura jornalística, o jornal me dava condições de trabalhar com muita imparcialidade. Como normalmente o trabalho de reportagem das editorias de cidades e de cultura – nas quais as matérias foram publicadas – terminava ao final da tarde e início da noite, muitas vezes eu tinha que convencer ao pauteiro ou pauteira, chefe de reportagem e editores, sobre a necessidade e importância de se cobrir o FestNatal à noite e diariamente, para divulgação na edição seguinte. Apesar disso significar custos para o jornal, com despesas do carro de reportagem, hora extra, etc, no entanto eu sempre conseguia convencer, não por causa da insistência, mas, acredito, que pela importância do cinema nacional e, modéstia à parte, pela minha competência em cobrir o festival.

    Com pauta livre, podia entrevistar o cineasta, produtor, atores que eu julgasse mais importante – e os critérios para definir quem era mais importante, eram não só o de fama, mas principalmente o de talento, merecendo espaço tanto os artistas mais conhecidos do grande público, por trabalhos na TV, como também, evidentemente, cineastas – Walter Lima Júnior, Walter Hugo Khouri, Rogério Sganzerla, Guilherme de Almeida Prado, e muitos outros e outras – que deram grandes contribuições ao cinema brasileiro. Mas desde a primeira edição do evento, em 1987, passei a cobrar, por meio de pauta livre ou sugestões de editores, maior participação popular e de artistas e intelectuais locais no júri, dentre outras críticas e sugestões. Colecionei algumas incompreensões e ingratidões, por isso, mas, profissionalmente, considero que cumpri com competência o trabalho de reportagem e de crítica de cinema.

    A experiência mostra que por mais elogios, espaços, tempo, gastos, etc, que tanto o jornal quanto eu – muitas vezes eu opinava, com matérias assinadas – e outros jornalistas dedicamos ao FestNatal, durante muito tempo fomos mais lembrados pelas eventuais críticas que fizemos, do que pelos generosos espaços abertos aos cineastas, atores, críticos e produtores do audiovisual brasileiro, além, é claro, dos organizadores do evento. No entanto, foi graças às críticas que fizemos ou veiculamos, de entrevistados, tanto os convidados, quando os profissionais locais do setor de audiovisual, foi graças a isso que, posteriormente, o FestNatal abriu, inicialmente, espaço para participação popular, participação de júri local, e, anos depois, exibição de filmes de curta metragem, mostras de vídeo local… Além de, mais recentemente, ter gerado, por iniciativa de outros empreendedores, eventos semelhantes e elogiáveis como o Goiamum Audiovisual, este mais voltado para as produções locais e do Nordeste.

    Da mesma forma, o Flipipa deveria abrir mais espaço para a literatura regional – sem regionalismos ou bairrismos. Digo isso com a experiência não apenas de jornalista cultural ou escritor, mas também com os conhecimentos de quem, com pauta livre, escreveu as matérias das três versões do ENE – Encontro Natalense de Escritores, de 2006 a 2008, para a revista “Brouhaha”, da Fundação Capitania das Artes, na gestão de Dácio Galvão, o mesmo empreendedor do Flipipa. Mas isso é outra história e, a ela, possivelmente me reportarei em outros comentários.

  4. Jarbas Martins 2 de novembro de 2011 11:02

    sou intelectual de Angicos (pra quem não sabe, cidade do Sertão do Cabugi, que Paulo Freire botou no mapa mundi da sua revolucionária pedagogia), sou um “comedor de cabeça de camarão” como Cascudo, Itajubá e Jorge Fernandes, sou pernambucanófilo, desde a positivista Nisia Floresta, passando por Henrique Castriciano, que bebeu sua filosofia na Escola germanófila de Recife, até Zila Mamede (que nasceu na Paraíba), sou paulistano por que os Campos me deram “régua e compasso”, faço parte do multiculturalismo de São Paulo, com filho que nasceu nas vizinhanças do Pacaembu, acostumado ao cheiro do gambá e “baianos” como são chamados torcedores e nordestinos como eu e Lula.

  5. Geraldo Alves S. Júnior. 1 de novembro de 2011 20:41

    O paraíba não é de Jóis, nem de nós do Nordeste, todos Paraíbas. A crítica é ao próprio festival, que não repercute do jeito que Jóis e nós por exemplo gostariamos. Não estou falando de custo benefício, mas de resultado prático, e pergunto, essa estética do festival dá resultados ? Se sim, viva ao nosso paraíba, se não, viva ao Paraíba dos outros.

  6. Godot Silva 1 de novembro de 2011 17:59

    Então vamos pra filosofia…

  7. Marcos Silva 1 de novembro de 2011 17:29

    Francamente…

  8. Godot Silva 1 de novembro de 2011 15:33

    É que adoto a concepção de intelectual In Gramsci, Émile Zola, Sartre… (Não nessa ordem – risos). Intelectual não é aquele que fica apenas no debate, mas o que se compromete com a construção do mundo, iguais aos que vejo “daqui” (contr. Junção da prep. de e do adv. aqui) – por favor, fessor Marcos, não me reclame o “mesmo” (risos). Aliás, vocês sabiam que o termo “intelectual” é usado em vários sentidos, alguns deles, inclusive, pejorativos. Em seu sentido estrito, ele remete ao “caso Dreyfus”, na França. O jornal L’Aurore publicou, em 13 de janeiro de 1898, uma carta aberta do então já renomado escritor Émile Zola, dirigida ao presidente da República, com o título que se tornaria célebre: J’accuse (Eu acuso). O texto era um potente ataque ao processo militar que havia injustamente condenado o oficial judeu Alfred Dreyfus por crime de traição. Evocando a verdade e a justiça, denunciando o anti-semitismo do caso, lembrando a França dos direitos do homem, a carta de Zola criou uma mobilização sem precedentes entre artistas e escritores, que logo publicaram textos em apoio a Dreyfus. Foi a retaliação dos adversários que usou pejorativamente, como neologismo para se referir a eles, o termo “intelectuais”, que até então não tinha circulação em francês. Desde então, a palavra se firmou para, nesse sentido estrito, definir aqueles sujeitos sociais que, trabalhando com o pensamento, intervêm para além das suas especialidades particulares, de forma pública, em temas que dizem respeito à pólis como um todo. Seu grande modelo, durante o século XX, também foi francês, Jean-Paul Sartre, mas as últimas décadas nos deram vários indícios de esgotamento do modelo humanista e orgânico do intelectual sartriano, questionado duramente a partir da explosão anárquica e horizontal de Maio de 1968… Menhã tem mais um pouquinho, Inté!

  9. Jóis Alberto 1 de novembro de 2011 14:24

    Godot Silva,

    Sou natalense, e, como expliquei na resposta que dei ao professor Marcos Silva, eu usei a expressão ‘paraíba’ com evidente conotação crítica, de minha parte, para denunciar notórios preconceitos de muitos no sudeste/sul contra nordestinos. Inclusive, preconceitos por parte de escritores e outros intelectuais, dessas regiões, em especial no eixo Rio-São Paulo, contra nordestinos. Só nega isso quem faz leitura apressada do que escrevo, ou quer tapar o sol com a peneira! Na resposta a Marcos Silva, eu escrevi extenso comentário, não só pelo tema ter exigido, mas também em respeito à inteligência do conceituado docente – aliás, inteligência que respeito um bocado, embora não seja amigo pessoal dele – ele é amigo de amigas e de amigos meus -, tanto que se ele reclamar da extensão do comentário, não farei objeção nem retrucarei. Quanto a você, não precisa se preocupar com o tamanho do comentário. Não vou me alongar mais: não perco meu tempo, nem me dou ao trabalho, nem vou gastar o meu latim (!) com gente com o seu nível de argumentação.

    PS – Este poderia ter sido um comentário muito mais curto, como na expressão ‘curto e grosso’. Porém se eu considero que é curto, todavia não será grosso, porque fineza, gentileza, respeito…, tudo isso é bom e eu gosto!

  10. Marcos Silva 1 de novembro de 2011 14:24

    Godot:

    Puxa, não precisa comparar meu humilde comentário (menos que uma página!) a Tolstoi. Obrigado. Valeu a pena esperar por você.
    Não entendi a referência a intelectuais daqui mesmo. O que é aqui mesmo?
    Obrigado.

  11. Godot Silva 1 de novembro de 2011 12:22

    Marcos Silva.

    Não deixou nem ir ao ar (risos). Olhe. Não me referia ao seu comentário, mas já que fui citado, é dizer: Não há como comparar seu comentário com Война и миръ, escrito por Leon Tolstói, nem tão pouco com esse que me faz pequeno e vazio. Quem sabe se não seria melhor passarmos da literatura para a filosofia. Aqui em São Paulo tá cheio de intelectuais, daqui mesmo os vejo trabalhando feito a gota serena, não é São Paulo!

  12. Jóis Alberto 1 de novembro de 2011 12:16

    Caro professor Marcos Silva,

    Inicialmente destaco o fato de que sou natalense, portanto um potiguar, um ‘paraíba’, para usar – com conotação crítica de minha parte -, essa expressão preconceituosa muitas vezes usada por cariocas para se referir a nós nordestinos. É por isso que já no meu texto afirmo que eu espero não ser previsível nem injusto ao cogitar a possibilidade de reação bairrista de Carlito Azevedo, após participar do evento em Pipa e retornar ao Rio de Janeiro. Nada contra a poesia de Carlito Azevedo. Pelo contrário, há alguns anos, quando Dácio Galvão ainda estava à frente da Fundação Capitania das Artes e organizava o bem sucedido ENE – Encontro Natalense de Escritores, ao me encontrar com Dácio, nos corredores da UFRN, eu sugeri a ele o nome de Carlito Azevedo como um dos convidados. Que bom, então, que Dácio finalmente o traz, agora, no Flipipa 2011 – possivelmente não pela minha sugestão, é claro, mas pelo fato de o organizador do Flipipa ser um grande conhecedor da poesia brasileira contemporânea.

    Quando me refiro à hipótese de bairrismo e preconceitos de cariocas contra nordestinos, não o faço por exagero ou apenas com intenção de polemizar por polemizar. Eu imaginava que esse tipo de preconceito só partisse de pessoas muito desinformadas ou incultas, nascidas em terras cariocas. Para minha surpresa, tenho constatado, lamentavelmente, que isso parte também de pessoas bem informadas – se é que se pode se considerar ‘bem informadas’ ou cultas pessoas pautadas, por (mau) exemplo pela “Veja”. Recentemente, por diversas ocasiões, vimos manifestações preconceituosas contra nordestinos, como no deplorável acirramento de ânimos nas campanhas de Serra X Dilma; ou mesmo na atual polêmica em torno do câncer de Lula, concorda?
    Isso para não falar dos personagens de telenovelas da Globo, que a pretexto de criticar outros personagens que manifestam preconceitos contra nordestinos, contra pobres, contra negros, etc, acabam mais reforçando tais preconceitos do que repudiando-os, correto?

    No facebook, onde estou há pouco mais de um ano e já conto com mais de 700 amigos – pessoas das mais diversas ideologias, anônimas ou famosas, de Natal, de outras cidades do RN e do Brasil, a maioria pediu que eu as adicionasse -, vez por outra me surpreendo como pessoas de alto nível cultural, do Rio ou de São Paulo, com manifestações preconceituosas. Para não dizerem que estou exagerando, cito o caso da professora e antropóloga Alba Zaluar, que embora seja, inegavelmente, uma das mais respeitadas profissionais da área de Ciências Sociais no Brasil, em especial em estudos sobre a violência urbana, colocou ‘post’ no facebook apoiando a famigerada campanha demagógica que sugere a Lula fazer o tratamento de combate ao câncer, pelo SUS! Alba Zaluar é ‘amiga’ no facebook por minha solicitação, mas depois que ela me adicionou fui descobrindo opiniões dela que me decepcionaram um bocado, não pelo fato dela ser crítica do PT, de Lula e do governo Dilma, mas por manifestações preconceituosas e extremamente conservadoras, como essa acerca da doença de Lula. É bem verdade que depois ela retirou o tal lamentável ‘post’, não sem antes excluir da lista de amigos, um senhor que reagiu, indignado, contra o preconceito dela, acusando-a, inclusive, de querer ‘devolver os paraíbas” – estou usando as palavras tais como foram escritas pelo cidadão. Ela negou o preconceito, justificando inclusive já ter sido casada com dois nordestinos, mas, posteriormente, não teve como deixar de reconhecer que errara ao fazer os lamentáveis comentários acerca da saúde de Lula. Antes dela retirar o ‘post’ do ar, do espaço cibernético, eu enviei para ela – que curtiu! – um texto com citação do respeitado médico Adib Jatene em que esse enumera relevantes estatísticas que mostram a importância do SUS, da mesma forma que enviei um outro texto em que critico essa polêmica em torno da doença de Lula. Iniciei o texto com a conhecida citação de personagem da peça de Nelson Rodrigues, de que ‘mineiro só é solidário no câncer’! Dos comentários de Alba Zaluar só se salvaram as observações dela de que houve época em que hospitais públicos, como o Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro e o Hospital de Brasília, eram tão bons que neles se internavam até ministros de Estado e Presidente da República, informações com as quais eu concordo.

    O próprio Carlito Azevedo também é amigo no facebook e já escrevi vários comentários elogiosos nos links postados por ele. Carlito, contudo, nunca se dignou a responder com uma linha sequer – nem que fosse um lacônico ‘obrigado’ (!) ou mesmo para criticar. Bem diferente, por exemplo, de Cláudio Daniel, poeta de São Paulo, que também edita elogiada revista de poesia e com quem mantenho bom diálogo, da mesma forma que mantenho um bom intercâmbio com escritores de outros Estados, como essa excelente poetisa Nina Rizzi, do Ceará, Estado com o qual deveríamos aumentar maior intercâmbio artístico e cultural, da mesma forma como o RN, em especial dos anos 60 para cá, mantém com a Paraíba e Pernambuco. Então, para concluir, acho que o Flipipa 2011 deveria ter incluído, dentre os convidados, não só cariocas e paulistas, mas também cearenses, paraibanos, pernambucanos… A possibilidade de autêntico e necessário intercâmbio seria muito maior com os nordestinos – sem bairrismos ou regionalismos!

  13. Marcos Silva 1 de novembro de 2011 11:43

    Godot:

    Guerra e paz é um livro enorme, Moby Dick idem. Um artista da fome tem poucas páginas. As narrativas de Ficções também.
    Como diria Nelson Ned: tamanho não é documento.
    (Os intrigantes de plantão perguntariam: tamanho de quê?)

  14. Jarbas Martins 1 de novembro de 2011 10:06

    é isso aí, grande amigo e poeta Jóis Alberto.obrigado pela crítica e elogios. ambos com tua marca: a sinceridade.

  15. Godot Silva 1 de novembro de 2011 9:50

    Caro Jóis.

    Um bom crítico literário é aquele que cria novos conceitos: esses conceitos ultrapassam as dualidades do pensamento ordinário e, ao mesmo tempo, dão às coisas uma verdade nova, uma distribuição nova, um recorte extraordinário. Sua influência e seu gênio se avaliam graças à maneira pela qual tais conceitos se impõem, são utilizados, entram e permanecem no mundo literário.

    Você belisca e assopra e deixa espraiar, sorrateiramente, certo preconceito ao chamar vocês – pois você se inclui – de “escritores Paraíbas”. Olhe. Não gosto de comentários extensos – são cansativos e provincianos –, já basta os provincianismos deixados pelo mestre – anticomunista – Câmara Cascudo. Além disso, é dizer: Apesar de Clarice Lispector ter chamado Natal de “pequena ordinária”, existem aí três coisas que não temos aqui, nesta ilha de concreto e solidão: Sol, Mar e Poesia, muita poesia! Abraço do seu Fantasma – rsrsrsrsrsrs

  16. Marcos Silva 1 de novembro de 2011 7:39

    Prezado Jóis:

    Escritores paraíbas? Tomara que os colegas de outros estados (ou países, quiçá planetas) não apelem para um conceito tão preconceito, equivalente a baianos, caipiras, beradeiros (nenhuma relação com os estudos de Pierre Verger, Antonio Cândido e Oswaldo Lamartine)… Sei que você colocou a palavra entre aspas mas altivez é sempre necessária.
    Não sou grande admirador da escrita de Auta de Souza, embora considere impressionante uma mulher potiguar de família negra – mesmo com dinheiro – ter se tornado escritora no final do século XIX, mas sempre cabe lembrar que ela foi apresentada, em seu único livro, por Olavo Bilac, então muito prestigiado. Ele era amigo de Eloy de Souza, irmão de Auta, mas duvido que colocasse em risco sua reputação para elogiar uma irmã de amigo em quem não visse méritos. É uma escritora paraíba? Bons compêndios sobre literatura brasileira da passagem do XIX para o XX costumam indicar sua obra, Mário de Andrade aconselhou Câmara Cascudo a escrever mais sobre ela – o que ocorreu depois. É claro que escritores cosmopolitas da côrte não têm obrigação de ler esses compêndios. Ou têm?
    Penso que o contato com arquiduques e princesas, numa democracia, pode ser uma lição recíproca sobre a diversidade desierarquizada do mundo, mesmo que seja no nível da osmose. E serve para os plebeus descobrirem que arquiduques e princesas transpiram e bebem água, como todo mundo. Bem como para os arquiduques e princesas descobrirem que plebeus pensam e produzem cultura, como todo mundo.
    Muitos paraíbas (baianos, caipiras, beradeiros), talvez todos, também são cosmopolitas. Não preciso citar nomes potiguares.
    E viva a Paraíba, viva a Bahia, viva os caipiras, viva a beira do rio (grande do norte)!

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