Projeto Repórter de Rua mostra novos rumos de uma grande reportagem

Cruzar os braços e deitar na rede para ver a Banda do Jornalismo à Moda Antiga passar está fora dos planos de Esdras Marchezan.

Professor de comunicação social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), o paulista de Cosmópolis, naturalizado mossoroense desde os seis anos de idade, idealizou e caiu em campo para executar um dos projetos mais estimulantes para quem acredita na longa vida das boas histórias: o Repórter de Rua (www.reporterderua.org), cujo foco é o conteúdo multimídia.

De forma independente, quatro grandes reportagens foram feitas entre 2013 e 2015, o que lhe rendeu uma série de prêmios locais e regionais (TRT, FIERN, Massey Fergusson, Banco do Nordeste). O mais recente será decidido na próxima quarta-feira (02), com a finalíssima do Prêmio CNH de Jornalismo Industrial, a ser entregue em Sorocaba/SP – o Repórter de Rua já está entre os dez melhores.

A ideia surgiu assim que Esdras regressou à Mossoró, oriundo de Campina Grande, onde fora fazer um mestrado – também trabalhava no Jornal da Paraíba; sua experiência em redações incluem passagens pelo O Norte, de João Pessoa, além de os locais, Gazeta do Oeste e Jornal de Fato.Garimpeiros

“A partir do momento em que passei [no concurso para professor] para a UERN pensei no projeto de produção de reportagem que possibilitasse não ficar apenas na universidade, dando aula. Então chamei uns colegas e em 2013 criamos o primeiro material do Repórter de Rua”.

Esdras se refere a “Resistência em Palmares”, um dos momentos mais impactantes da luta camponesa na história potiguar, quando três mil Mulheres da Agrovila Palmares protestaram nas ruas de Apodi, em 2012, contra um projeto do Governo Federal – o Perímetro Irrigado Santa Cruz/Apodi, contestado por seis mil moradores de comunidades localizadas entre Apodi e Felipe Guerra, amparados em pesquisas realizadas pela Universidade Federal do Ceará, que atestam a maior incidência de casos de câncer (38%) nos municípios cearenses do outro lado da Chapada envolvidos em um projeto do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).

Comumente projetos de irrigação abusam de agrotóxicos na lavoura.

Textos, filmes e fotografias ilustram a realidade daquela gente tão distante das capitais. Esdras e sua equipe foram até lá ouvir o que os afligia (a reportagem foi desenvolvida em parceria com o Portal no Ar).

“O objetivo é experimentar novos tipos de narrativas para a web, com foco na reportagem em profundidade”.

Já a concentração de renda e o tormento de trabalhadores do extrativismo de carnaúba no Vale do Assu balizam “Bravos”, iniciada como fotorreportagem de Jean Lopes e expandida para as demais mídias por Esdras Marchezan.

O Seridó ganha destaque no Repórter de Rua em Uma Delícia de Negócio. Lembrei imediatamente da batalha do padre João Medeiros Filho pela instituição da Universidade Federal em uma das regiões mais antigas da antiga América Portuguesa, em especial pelo curso de gastronomia – tema forte na cultura seridoense.

Mas é com Garimpeiros que Esdras e Cia destroem deadlines.

Com fotos de José Bezerra, desenvolvimento para a web por Glaudson Alcântara e edição de vídeos de Alexandre Pereira, eles produziram conteúdo obrigatório para qualquer curioso sobre os meandros de uma vida isolada, apartada da riqueza que percorre o litoral – e explorada em toda sua desgraça, com trabalho similar ao negreiro escravagista. Foram três meses de viagens entre a divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba.

Reporter de rua_Esdras“Foi a região mais distante, gastamos mais combustível, o carro passou por um problema. Foi a reportagem mais demorada e complicada porque pra gente conseguir as fontes, as entrevistas, o pessoal com medo, até por causa da atuação de quem contrata os garimpeiros, que sabem que estão contratando de forma irregular, não oferecem condições de segurança. Tivemos de ir um período, conversar, ganhar confiança, depois retornar para gravar os depoimentos”.

Entre Equador (RN) e Junco do Seridó (PB), região cuja taxa de pobreza bate os 60%, o sofrimento de homens que mergulham na terra em busca da sobrevivência, assim como seus pais, é revelador de uma desigualdade atroz, vista desde o Brasil Colonial.

Uma tragédia humanitária distante do natalense, mas corriqueira para as gentes do interior do Estado.

Na figura de Zé Cabôco em sua casa, a pobreza diz que mora ao lado – a produção de caulim, o ouro branco da indústria ceramista, sufoca ‘Homens Tatus’, que se enterram 30 metros abaixo da terra para ganhar R$50,00 por uma carrada de dez toneladas, após pagarem porcentagem ao dono da terra.

Esdras percorreu mais de 500 km para nos contar essa dura realidade potiguar.

“Como eu lido com estudantes, é tentar passar para eles essa ideia de que o jornalismo ele não morre, embora a gente esteja passando por um cenário bem complicado. A gente tenta manter viva a chama nos estudantes que o bom jornalismo ainda pode se feito, indo pra rua, ouvindo as histórias das pessoas, ser a voz das pessoas que não têm voz”.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. thiago gonzaga 1 de Março de 2016 10:34

    Que bom ler uma matéria do Conrado Carlos.
    É um excelente jornalista e grande figura humana.
    Fico feliz em saber que ele está compondo o grupo do S.P.
    Tácito Costa e Sergio Villar acertaram em cheio.
    Um abraços para todos.

  2. Conrado Carlos 1 de Março de 2016 14:15

    Valeu, Thiago!
    Abraço!

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