Prolongar o sonho de Leon Cakoff é uma necessidade

Foto de Flávio Florido/Folhapress

Por Walter Salles
ESPECIAL PARA A FOLHA

“Estou me sentindo órfã.” Foi a primeira mensagem a chegar quando Leon se foi. Logo vieram outras, muitas mencionando a mesma palavra, enviadas por amigos de diferentes gerações. Órfãos.

Não é para menos. Por obra da Mostra de São Paulo, Leon não formou apenas gerações de cinéfilos. Também abriu, para um público amplo, uma janela para o mundo. Leon não queria só descobrir o primeiro filme de um novo diretor –algo que fez com uma frequência impressionante. Ele se interessava sobretudo pelo cinema como forma de desvendamento de outras culturas.

Por isso, esse legítimo sentimento de filiação, por isso a dor e a sensação de perda irreparável: Leon Cakoff, que nos revelou que o mundo era bem mais amplo do que imaginávamos, partiu.

De Kiarostami a Wim Wenders, de Amos Gitai a Jia Zhang-ke, cineastas de latitudes diferentes vieram pensar e discutir o cinema em São Paulo. A Mostra se tornou um festival de festivais, um ponto de encontro para realizadores que, como Manoel de Oliveira, faziam questão de voltar com frequência à cidade.

Em que outro festival encontros como o de Oliveira com o mestre mexicano Gabriel Figueroa, sob o olhar atento de Leon e de críticos como Luiz Zanin, seriam possíveis? Por isso, também, a desolação que tomou conta dos inúmeros amigos que Leon tinha mundo afora.

FILME DE ABERTURA

Leon, possivelmente, jamais imaginaria tamanha comoção. Viveu lutando para concretizar o sonho da Mostra. Até os últimos dias, preocupou-se em discutir a seleção do filme de abertura com Renata, sua mulher e companheira de todas as horas.

Tive o privilégio de compartilhar um desses momentos com Leon, quando a doença deu uma última trégua, há pouco mais de duas semanas. Com Daniela Thomas e Felipe Tassara, passamos uma tarde inesquecível ao lado dele e de Renata. Leon estava consciente, o raciocínio veloz e agudo.

Riu, perguntou como andava a montagem “que não acabava nunca” do filme que estou terminando, e logo passou para seu assunto preferido: a Mostra. Falou da possibilidade de escolher “Habemus Papam”, o mais recente longa de Nanni Moretti, para a abertura.

Fazia sentido. “Habemus Papam” é a história de um cardeal, magnificamente encarnado por Michel Piccoli, que se nega a ser papa. Em um mundo em que muitos querem o poder a qualquer preço, o simples ato de recusá-lo já é de uma extrema pertinência política.

Dizer “não” é um ato que tem relação direta com a vida de Leon. Para colocar a Mostra de pé, ele disse não à repressão do regime militar, a diversas formas de censura, ao descaso crônico com a cultura no Brasil. Lembro do desabafo que Leon fez no ano do 30º aniversário da Mostra. Três décadas depois de estruturar a melhor mostra de cinema da América Latina, ainda batalhava para viabilizar o evento.

Finalmente, a escolha da abertura da Mostra de 2011 recaiu sobre “O Garoto da Bicicleta”, o ótimo filme dos irmãos Dardenne, Grande Prêmio do Júri em Cannes-2011. Uma escolha que também tem uma relação direta com Leon. Afinal, o cinema dos Dardenne é o resultado de um extremo rigor e de uma busca pelo essencial.

ORGANIZADOR DE IMAGENS

Leon, como programador da Mostra, propunha uma seleção de filmes a partir do olhar rigoroso que tinha. Com a multiplicação de imagens e a desordem crescente com que elas são apresentadas e muitas vezes manipuladas, esse trabalho de organização se tornou ainda mais essencial.

Luta, entusiasmo e rigor. Do embate interno dessa tríade nasce possivelmente o lado mais complexo de Leon: aquele em que ele se revelava passional, muitas vezes generoso, muitas vezes voluntarista. Mantinha o humor no campo de batalha: quando entrava em conflito com alguém, falava de “zona de turbulência”. Podia ser beligerante, mas não era nunca dogmático.

Fui testemunha do momento em que um antigo desafeto da “zona de turbulência” transformou-se num amigo próximo. A relação mudou diametralmente, e Leon ficou feliz com isso.

Era antes de mais nada um apaixonado. Dessa paixão desenfreada pelo cinema nos beneficiamos todos, por meio das críticas ou livros que ele escreveu, e sobretudo por meio da Mostra.

Se muitos artigos aplaudiram não só a sua trajetória como incansável arquiteto da Mostra como também a contribuição das Mostra à formação da identidade de São Paulo, é porque poucos eventos culturais na cidade têm tamanha repercussão nacional e internacional e tamanho poder de inspirar gerações de pessoas.

A Mostra fez de São Paulo uma cidade melhor. É por isso que tantos esperam que ela possa sobreviver com autonomia e independência, dirigida pelo olhar igualmente apaixonado de Renata de Almeida, codiretora da Mostra há mais de 15 anos. Se o sonho de Leon Cakoff virou realidade, o prolongamento desse sonho é uma necessidade.

Volto ao último encontro com Leon. Falamos de um amigo comum, Donald Ranvaud, e do desejo de trazer uma retrospectiva de Ettore Scola para a Mostra deste ano, com a presença do diretor. Não daria mais tempo, mas nem isso abateu Leon. Quando a noite se avizinhou e nos abraçamos na hora da despedida, o título de um filme do velho mestre italiano não saía da cabeça. Agora, a um dia da abertura da Mostra, ele ecoa ainda mais forte. Cometo a heresia de transformá-lo um pouco, para falar de Leon: nós (amigos e frequentadores da Mostra) que o amávamos tanto.

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