A prosa simbólica de Carmen Vasconcelos

Thiago Gonzaga
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Por Thiago Gonzaga

Acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar, para mostrar-lhes a vida em profundidade, sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante.
Cecilia Meireles em “Obra poética”.

Com três livros de poemas publicados, “Chuva Ácida” (2000); “Destempo” (2002) e “O Caos no Corpo” (2010), Carmen Vasconcelos se tornou tão apreciada como poeta que poucos se referem a ela também como prosadora, esquecidos de que por muito tempo ela publicou crônicas no jornal “Tribuna do Norte”. No entanto, neste gênero, a importância de seu texto, sobretudo agora com a publicação de “Uma Noite Entre Mil”, (Editora Ideia, 2015) merece ser destacada e reconhecido o potencial da poeta como autora de crônicas no mesmo nível de seus versos.

Está presente nas páginas de “Uma Noite Entre Mil” uma escritora múltipla, que eclode no universo literário com uma prosa de diversas faces e possibilidades. Sua poesia se sobressai nas entrelinhas do seu texto. Carmen Vasconcelos coloca o leitor diante de uma escrita madura e obviamente bem construída. Observadora atenta dos acontecimentos do seu tempo, também aborda outros temas clássicos da crônica, como a passagem do tempo e a busca da poesia da vida, da reflexão, do memorialismo, registrando profundo humanismo e alto nível intelectual, com um lirismo intimista, carregado, sobretudo, de metáforas, numa prosa repleta de simbologias, onde as palavras não apresentam um sentido único; dependendo da forma como são utilizadas ou da situação em que são empregadas, elas assumem significados diferentes. Assim, como em qualquer bom texto literário, geralmente extrapolam seu sentido comum, causando o que normalmente é chamado pelos teóricos da literatura de plurissignificação da linguagem literária.

As diversas associações feitas na prosa de Carmen, dada a pluralidade estética e temática, configuram a cronista de perfil multifacetado. Percebemos também no seu discurso um forte anseio pela liberdade, além de uma reflexão sobre acontecimentos gerais da vida de qualquer ser humano. Levando isto em consideração, Carmen Vasconcelos interage com o leitor, desperta-o para a importância da leitura prazerosa, a literatura como arte, na medida em que ela concebe a íntima relação entre arte e vida.

Vejamos um trecho da crônica “Escrita e conforto” (pág.213)

“Escrever não me dá conforto. Dá-me um bocado de outras coisas, mas conforto, não. Agora mesmo estou escrevendo e tem coisas gritando. Escrevo e organizo os gritos, mas às vezes organizo mal. Eu não posso gritar quando estou escrevendo. Tenho de escrever compassada. De compasso e régua, se preferem. Incontáveis vezes não dou conta disso. Embora digam que a literatura é uma arte apolínea, eu não sinto assim. Acho escrever dionisíaco e, num sentido grego, infernal. Escrever é meu inferno ( no sentido grego, repito). Um inferno do qual já provei, comi a romã, portanto, não posso sair. Alguns textos me dão euforia, mas é passageira. Não me dão satisfação nunca. Sinto que poderiam ser melhores”.

Carmen Vasconcelos não se limita a dizer o que já foi dito, ou o que já sabíamos, mas nos introduz a novas experiências e perspectivas. A prosa da poeta – ressaltemos – é a prosa de um tempo em que pensar o mundo é pensar expressamente, e cada vez mais, o lugar da poesia no mundo. Embora o mundo pareça querer “excluir” a poesia da vida, ela insiste em permanecer. Na crônica, Carmen nunca deixa de ser simultaneamente poeta. Além dessa tendência, os seus textos também revelam uma necessidade muito grande de observar o que está acontecendo à sua volta. A força do seu texto literário, sobretudo o poético, tem um caráter ambíguo ou múltiplo, devido, naturalmente, ao fato de utilizar uma linguagem por excelência simbólica.

Demonstrando conhecimento do que se exige de todo e qualquer literato sobre a arte da escrita, a autora vai além do apenas literário, volta-se para a necessidade de exaltar temas e assuntos variados, onde o leitor encontrará plena satisfação na leitura. No meu entender, ela pecou, apenas, ao incluir no livro um número elevado de textos, resultando num volume de mais de trezentas páginas.

Do numeroso material selecionado destacamos as seguintes crônicas: “Tempo tempo tempo tempo”, “Refúgios”, “ A banalidade de todos nós” , “O anjo no espelho”, ”Existências, as outras”, “Reserva de lugar”, “ Onde é que há gente no mundo”, “A parte da poesia”, “Crônica para uma saudade”, “Sobre as andanças do amor”.

Em “Uma Noite Entre Mil” exercita-se um gênero literário que nos propicia refletir sobre fatos do nosso cotidiano, através de relatos que não são feitos de qualquer forma, porém com extremo cuidado. Na prosa simbólica da autora observamos a presença de vários elementos, elementos estes que tornam a leitura ainda mais compreensível e prazerosa, cabendo a cada leitor fazer a sua interpretação e dar significado ao texto.

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Thiago Gonzaga

Comentários

3 comments

  1. Lícia Oliveira 6 janeiro, 2017 at 10:47

    Bom dia, sou de Brasília e gostaria de saber como adquirir “Uma Noite Entre Mil” de Carmen Vasconcelos.
    Aguardando retorno. Grata.

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