Protegendo Woody

Caros amigos:

A carta de Geraldo Thomás (em português, com acento, embora ele seja fluente em inglês e escreva de Paris) para Woody Allen tem méritos narrativos, é um pré-argumento muito mais que interessante para um filme: a angústia de um diretor de teatro talentoso diante da vinda de um bom diretor de cinema ao Rio de Janeiro, a fim de filmar. Com atores e direção adequados, o pré-argumento renderia – pena que Fellini jáá esteja morto.
Na prática, considero-a patética. Embora Woddy Allen não chegue ao nível de Goya e Picasso, farei um paralelo inspirado em Jorge Luís Borges: imagino um desenhista talentoso escrevendo para Goya não gravar os “Desastres da guerra” porque a situação sob a invasão napoleônica era de perigo de vida; imagino um fotógrafo talentoso escrevendo para Picasso não pintar “Guernica” porque os nazistas eram adeptos da experimentação sem limites na atrocidade contra seres humanos.

Thomás, embora talentoso e sempre anunciando o novo, parece não ter entendido que a produção artística não vive do senso comum – Proust escreveu o fim de “Em busca do tempo perdido” sofrendo crises de asma e parece ter falado da agonia de Swann a partir de sua própria experiência de morte se avizinhando, ao invés de ficar tomando os remédios receitados por seu médico e repousando. A tragédia carioca (brasileira e mundial também, Thomás: o que vc acha da fronteira EEUU/México e de Guantánamo?) deve ser combatida duramente, claro, mas o silêncio covarde dos artistas diminuirá a força do combate. Ou Kafka deveria não ter escrito “O processo” para não prejudicar sua possível carreira na burocracia da época? E Joyce, tão descuidado em relação a suas finanças e que nem sequer se dedicou a um bom doutorado britânico, preferindo escrever aqueles experimentos?
Simpatizo com a falta de ridículo na fala de Thomás, penso mesmo que essa atitude é coisa de artista. Apenas não vale a pena expressá-la em tom de retórica malufista. Ou vale, Becket (que também não precisa ser protegido de nada)?

Filmar é perigoso. Escrever é perigoso. Viver é perigoso. São demais os perigos desta vida – e não vêm somente de balas perdidas e governos demagógicos, os artistas demagógicos podem ser perigosíssimos!

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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