Protestos

Por Luís Fernando Veríssimo
O ESTADO DE SÃO PAULO

Com nenhum negro na lista de candidatos ao prêmio de melhor ator, a última entrega dos Oscars prometia ser uma festa não só monocromática, mas branca, também, no sentido de engomada e sem nódoas. Acabou sendo um evento muito mais político do que se esperava. A falta de negros entre os premiáveis foi compensada pela quantidade de negros entre os apresentadores, e o maior homenageado da noite foi Martin Luther King, apesar do filme Selma, sobre a marcha contra o racismo e pelo direito do voto que ele liderou em 1965 só ter merecido um prêmio, pela música. Mas a música, Gloria (que também fala de incidentes raciais recentes, como o de Ferguson), mexeu com a plateia, e seus dois intérpretes, ao agradecerem o prêmio, fizeram fortes e bem articulados protestos contra o racismo que ainda persiste no país ­ e também foram ovacionados. O próprio apresentador da noite, tão criticado pelo seu mau desempenho, deu uma leve cutucada política na plateia quando esta aplaudiu o nome de Martin Luther King, que, durante tantos anos, representou para os brancos a ameaça da insubmissão dos negros: “Agora vocês gostam dele…”. Também houve protestos contra a discriminação das mulheres no mercado de trabalho e contra a homofobia, e ­ para completar o que foi tudo menos uma noite branca ­ o filme premiado na categoria de documentário longo foi sobre o Edward Snowden, que está proibido de entrar nos Estados Unidos depois que revelou segredos da bisbilhotice mundial praticada pela Agência de Segurança Nacional americana. Também ovacionado. E como se não bastasse tudo isso, o maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas, que o Obama está tentando mudar.

Tomadas.

O filme premiado do mexicano, Birdman, é bom. Sua proeza técnica mais comentada ­ o filme é feito no que parece ser uma única tomada, sem cortes, do começo ao fim ­ já tinha sido realizada pelo Alfred Hitchcock em Festim Diabólico ou coisa parecida. Como os rolos de negativos da época (1948) só duravam dez minutos, Hitchcock se obrigou a grandes malabarismos para disfarçar os cortes. Brian de Palma também gostava de tomadas longas, embora nunca, que eu saiba, fizesse um filme inteiro com uma tomada só. E o mais recente exemplo de tomada inacreditável foi no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos em que a câmera começa focando um estádio de futebol do alto, vai descendo, descendo e acaba enquadrando em close o rosto de um homem no meio da torcida do Racing, sem que se note quando a câmera do helicóptero vira a câmera do close. De certa maneira, Hitchcock também foi um grande homenageado na noite dos Oscars.

Cuidado.

Entre as muitas razões para se assistir ao Porta dos Fundos estava a Leticia Lima, rara combinação de beleza e talento, e ­ mais raro ainda ­ talento para a comédia. Li que ela foi contratada pela Globo, ainda não se sabe para o quê. Olhe lá o que vão fazer com a moça, Globo!

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