Proust no casulo

Por José Castello
O GLOBO

Detalhes quase desprezíveis, se observados desde certa perspectiva, anotam um estilo

Em muitas de suas fotografias, Marcel Proust aparece vestido com um clássico e frondoso sobretudo. Evitava dele se afastar: era seu casulo. Usava-o mesmo quando estava em casa, sozinho, debruçado sobre seus escritos. O casaco foi uma espécie de escudo protetor, último recurso de um homem hiper-sensível para se contrapor aos golpes do real.

Um século depois, a jornalista italiana Lorenza Foschini, autora de “Sobretudo de Proust” (Rocco, tradução de Mario Fondelli), reencontra o célebre sobretudo guardado em uma caixa de papelão, no Museu Carnavalet, em Paris. O museu é dedicado à preservação da história da capital francesa; Marcel Proust é, ainda hoje, a alma da cidade.

Descreve Lorenza, sem dissimular o espanto: “O sobretudo está diante de mim, acomodado no fundo da caixa, em cima de uma folha branca que quase parece um lençol, enrijecido pelo forro de papel que a preenche: parece realmente vestir um morto”. Das mangas, como lagartas, saem tufos de papel de seda. O casaco parece estufado, o que reafirma a presença perpétua de Proust em seu interior. Descreve Lorenza ainda: “Tenho a impressão de estar vendo um boneco sem cabeça e sem mãos”. Tão vivo quanto o próprio escritor a quem vestiu, o sobretudo resiste como um destroço.

É trespassado na frente e fechado por uma fileira dupla de botões. Aflita, Lorenza o desabotoa, em busca de algum segredo — talvez um rastro do espírito do escritor. Nada encontra. Nervosa, chega a revistar os bolsos, mas só esbarra com o vazio. O que, na verdade, ela encontra? A morte de Marcel Proust, sua ausência definitiva — buraco de que o sobretudo é uma casca. Em uma das laterais da caixa, só então, ela percebe a inscrição fria: “Sobretudo de Proust”. Lorenza agradece ao diretor do museu, Jean-Marc Léri, e se vai. Como se saísse de um velório que atravessasse um século.

Dentro do sobretudo, Lorenza já sabe enquanto desce as escadarias do museu, se guarda não só um fantasma, mas um livro. O livro que agora estou a ler. Conta a história do célebre casaco que, mais que uma peça de roupa, é uma relíquia. Quase sagrada, ou talvez sagrada mesmo — se alteramos um pouco a ideia de sagração.

Logo após a morte de Proust, em 1922, o sobretudo foi recolhido por seu irmão, o doutor Robert Proust, famoso cirurgião parisiense, que também se tornou o responsável por seus manuscritos. Eles incluíam longos trechos inéditos de “La recherche”. Esses manuscritos, assim como o casaco, foram parar, mais tarde, nas mãos do colecionador e industrial do perfume, Jacques Guérin. Relíquias, assim como almas perdidas, percorrem tortuosos caminhos até encontrarem seu descanso.

Em torno da história do sobretudo, o livro de Lorenza traz à cena outros célebres personagens da intelectualidade parisiense, como Violette Leduc, Pablo Picasso e Erik Satie. É Paris, um pouco, que ressuscita naquele casaco. Essas celebridades, contudo, simplesmente murcham diante da peça de roupa perdida, em que Proust se escondeu ao longo de tantos anos e dentro da qual — como um bicho da seda em seu casulo — produziu seu tesouro. Hoje, observado por olhos distraídos, não passa de um invólucro qualquer. Uma velharia. Não é qualquer um que consegue enxergar, naquela roupa roída pelo tempo, a presença perpétua de uma alma.

O pequeno livro de Lorenza segue o fascínio dos historiadores contemporâneos pela história das miudezas. É escrito no estilo de um falso romance, mas pode ser também (e talvez seja mesmo) uma reportagem. Não importa. Em associações rápidas, ele evoca outras peças do vestuário de grandes escritores de que só com dificuldade separamos seus donos. Invólucros também, em que alguns nacos da vida se perpetuam.

Penso no célebre turbante de Simone de Beauvoir. Na peruca (ou falsa peruca, pois os cabelos também enganam) que certa vez avistei, como folhas murchas, escorrendo na cabeça da portuguesa Agustina Bessa Luís. As batas esvoaçantes e exageradas de Vinicius de Moraes, em sua temporada baiana, e também de Hilda Hilst, em seu sítio místico de Campinas. O antigo colete de cavaleiro do apocalipse usado na Normandia, em seus últimos dias, pelo francês Alain Robbe-Grillet, paradoxalmente, chefe da escola do Novo Romance.

Os ternos impecáveis de José Saramago. As camisas amarfanhadas de Nelson Rodrigues. As echarpes elegantes que ainda hoje Lygia Fagundes Telles, como uma rainha, desfila pelas livrarias de São Paulo. Os cabelos longos e inacreditáveis de Ferreira Gullar, que evocam poetas que o precederam, mas, de certo modo, desmentem seus versos. As bermudas vagabundas de João Antonio.

A lista dessas pequenas intimidades é interminável. São detalhes, quase desprezíveis, a que poucos atribuem importância e que, talvez, não mereçam importância mesmo. Contudo, observados desde certa perspectiva, eles anotam um estilo. Mais que um estilo: se parecem com os selos de cera que, no passado, vedavam as cartas secretas.

São sintomas, na verdade, de corpos — manifestações sutis, em uma cabeça, um pescoço, um tronco, uma perna, sinais de alguma coisa que, antes delas, já se apresenta na obra. São expressões, talvez vícios, como no caso de Proust, e, no entanto, é preciso levá-las a sério. Uma fotografia de Marcel Proust com seu sobretudo tirada em Evian no ano de 1905 resume o que tento dizer. Ali está um estilo, não porque esteja escrito, mas porque está vestido. Porque toma a frente da cena e transforma seu portador em um segredo. Uma parte, portanto, da própria ficção, que nada mais é do que a arte de ocultar mostrando.

Proust fez de todos nós, como observou William Sanspom, “computadores ambulantes, carregando conosco as gravações do passado”. Não passamos, talvez, de filmes projetados desde nosso passado que, capturados no presente, destinam a nós, sim, a nós mesmos, homens de carne e osso, e não a peças lendárias como o sobretudo, um aspecto irreal. Poucas coisas são tão reais, ainda hoje, quanto o sobretudo de M a rc e l Proust. Ele carrega dentro de si não um homem, mas um mundo que jamais perderemos.

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