Psicóloga natalense dá aulas de zumba na academia de Madonna em Sydney

“E o Josh, ele veio?”.

“Não, ele esta esquiando no Japão”.

Mariana Pinheiro Cabral estava em um shopping natalense, na tarde da última sexta-feira (19), ao dizer que o marido Josh Barton optara por um turismo mais próximo de casa, a próspera Sydney, na Austrália – enquanto ela enfrentou um dia e meio de voo com paradas em Dubai e São Paulo, antes do desembarque no remoto Aeroporto Internacional Aluízio Alves.

Havia poucos dias que ela passara o carnaval entre Salvador e Recife, onde fora estudar e se esbaldar (“Você precisa estar na fonte, né?”) na dança, no batuque e nas melodias das cidades que ladeiam o Rio de Janeiro como berço de boa parte da história cultural do Brasil. Aos 28 anos de idade, a psicóloga potiguar, formada pela UFRN, está há quatro morando no outro lado do mundo e vivendo um sonho: dar aulas de zumba na academia Hard Candy Fitness (www.hardcandyfitness.com), cuja proprietária é a soberana do pop, Madonna.

Falo em sonho porque Mariana tinha 20 anos ao sair de Natal rumo a Buenos Aires, no intuito de aperfeiçoar a fluência na língua hispânica. Foi lá, no final dos 2000s, que conheceu Josh, australiano sete anos mais velho então em excursão pela América Latina com o pai e o irmão. A terra de Jorge Luis Borges era uma simples escala, mas quis o acaso que aquela noite em que se encontraram em um albergue portenho fosse sem fim. Passados três anos de namoro a distância, e que distância, mais quatro de casamento, eis o resultado daquela aventura.

“Fomos vendo que tínhamos muito em comum, que acreditávamos nas mesmas coisas”.

Na primeira viagem à Austrália, meses depois daquele Beautiful Tango (quem não entendeu, clique aqui), uma ligeira inquisição: o pai de Mariana exigiu um Nada Consta completo de Josh, de carteira de motorista a comprovante de residência, para liberar a ousadia.

“Meu pai é daqueles pais bem nordestinos, cabra da peste” – o sociólogo e Promotor de Justiça, Antônio de Siqueira Cabral.

Só que a vida em Brisbane (capital do Estado de Queensland, com mais de dois milhões de habitantes), então morada de Josh, apresentou suas limitações, sobretudo quanto à liberdade profissional.

“Pra mim aquilo ali era a cidade grande, a metrópole. Eu não entendia quando recebia gente de Sydney, Melbourne, que dizia que aquilo era uma cidade de interior, sendo grande. Eu gostava, apesar de lá não ter praia. Eu dizia pro Josh: ‘Como você mora numa ilha, mas numa cidade que não tem praia?’.

A ideia de um país multicultural contrastava com certo conservadorismo britânico predominante em Brisbane, e logo Josh e Mariana se mudaram para Gold Cost, no litoral do mesmo Estado. Um breve curso técnico em fitness e um emprego desestimulante como vendedora de roupas em uma loja foram o saldo dessa época – e um contato inicial com a zumba, estilo criado por um colombiano que mescla samba, salsa, mambo, hip hop e tudo o que couber em uma hora de êxtase coletivo.

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Mariana não toma café, nem vinho. E nem precisa. Em poucos minutos de entrevista, o largo sorriso e a hiperatividade são postos à mesa. Ela confirma que é “barulhenta, exagerada, expansiva”, oposta ao ritmo de Brisbane, porém favorável para japonesas, coreanas, vietnamitas e, claro, australianas, da cosmopolita Sydney.

“Eu queria fazer algo que fizesse sentido, que eu gostasse, já que não conseguia entrar no mestrado. Entrei na academia de Sydney como aluna, cheguei a pagar um ano todo antecipado. Aí o pessoal via que eu gostava de dancar, e uma das professoras perguntou se eu poderia ajudá-la na aula. Eu disse: ‘Agora!’. Uma outra professora estava faltando muito, e a gerente me chamou para uma aula completa de avaliação”.

Já efetivada na Hard Candy Fitness (franquia negociada por Madonna também em Roma, Milão, Berlim, Moscou, São Petersburgo, Toronto, Santiago e Cidade do México), o sucesso de suas aulas foi imediato. Ao som de Água Mineral, da Timbalada, senhoras trôpegas, jovens desengonçadas e um ou outro marmanjo aceitam a máxima da natalense:

“Digo que ninguém vai sair direto para o Bolshoi, que todos estão ali para queimar caloria e se divertir”.

Mariana dá aula em mais quatro academias, a uma média de 70 dólares a hora. Conseguiu montar uma pequena empresa de roupa de ginástica e, finalmente, entrar numa turma de mestrado (em psicologia coaching, segmento atuante, principalmente, no meio empresarial e corporativo).

“O que dita se você é um bom professor de zumba é sua energia, se você tem carisma, se agita uma multidão”.

Nos idos dos 90s, Carlos Augusto Rodrigues de Brito, o Ninha, dono do gogó mais histriônico da Bahia, quando o axé ainda fazia graça (hoje chamado de ‘axé retrô’, para engabelar os modistas da vez), gritava: “Menina do alto do Gantois, menina da Ribeira, menina do alto do Candeal, menina dessa cidade negra”. O centro de Sydney não tem tantas ladeiras e afrodescendentes assim, mas de uns tempos pra cá ganhou em swing e diversão com uma norte-rio-grandense da pele alva e molejo de negão.

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Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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