PULHA

Por Carlos Gurgel

eu te disse e assim se foi
como uma sombra que arrasta quem sumiu
tão abrigo de um lixo que acolhe o que ressoe
que a cada instante renega quem te viu

e o mudo muro saiu a procura
solavacando perdas, miolos e canil
de noite entre todos os olhos de tez tão escura
espremendo seu hálito como dor tão sutil

distante de todo frio ar
o perdido ancião dedilha saudade
procurando entre os arcos do árduo lugar
o bilhete que um dia escondeu da cidade

e a ilusão que pediu atenção
rasga da noite o seu sustento
entre lâmpadas, abrigos e detentos
como cobra que incendeia o seu chão

mas as vozes que caladas estavam
se acordam e começam a ranger
como um lago que a noite e o dia esperam
o oficio de quem ganha e pode se perder

esse século é o começo do fim
não amola quem da porta se distrai
colher flôres no seu singular jardim
entre o largo o estrume e o que bye.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 27 de outubro de 2011 23:13

    Carlos Gurgel, como nos bons tempos de nossa juventude, o poema pode até ser ‘púia’ (!); só não pode ser ‘páia’!

  2. Carlos Gurgel 27 de outubro de 2011 15:01

    pois que em cada esquina um pulha e em cada canto o que dirá? assim seja. nessa cidade onde recitamos o verso livre larva louco solto. jarbas, jarbas, jarbas. jóis, jóis, jóis. carito, carito, carito. mombaça, mombaça, mombaça. civone, civone, civone. michele, michele, michele. marcos, marcos, marcos. ednar, ednar, ednar. danclads, danclads, danclads. marcilio, marcilio, marcilio. dunga, dunga, dunga. plinio, plinio, plinio. renata mar, renata mar, renata mar. e tantos. tantas. outros. outras. orai por nós!
    Cgurgel

  3. Jarbas Martins 27 de outubro de 2011 9:40

    em Angicos da minha infância e juventude, se dizia púia, a arte de enganar.conheci grandes empulhadores nessa época, depois vieram outros geniais: Fernando Pessoa, Wallce Stevens e, claro, João Cabral
    que se dizia um antipoeta. acreditem nessa pulha.Carlos Gurgel não vai nessa. é Poeta, se considera e conhece da arte de empulhar.

  4. Jóis Alberto 26 de outubro de 2011 11:59

    Muito divertida a foto do romântico casal com caras de equinos que ilustra o instigante poema de Carlos Gurgel, “Pulha”! Apesar de o casal aparecer de mãos dadas, acredito que eventuais incompatibilidades de ‘gênios’ devem ocorrer. Imagino a burra, égua ou mula reclamando: ‘oh, amor, quando você me ofertar poesias, quero poemas românticos, que falem de amor, que me deixem apaixonada, fáceis de entender e emocionar, de outro poeta ou poetisa conterrânea, e não versos surrealistas, expressionistas, sei lá!”. E o burro safado, ou o safado do burro, respondendo num tom coloquial irônico, sarcástico: “Minha querida, minha linda, você é muito crítica e inteligente, com essas manias românticas, mas sempre querendo me passar para trás. Deixe de asneiras! Deixe de idéias de jerico! Não sou tão inteligente e romântico! Você sabe: atrás de você eu sou um burro”!

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