Punks cariocas

Por Álvaro Pereira Júnior
FSP

A antropologia paternalista da zona sul nem sabe que existem roqueiros suburbanos como eles

O pior dos mundos. Longe do centro urbano, dos holofotes, isolados no além-subúrbio, antes da internet, ignorados pelo mercado e pela academia. A vida dos roqueiros cariocas da periferia, nos anos 90, era assim.

O fato de ser uma cena quase invisível não a torna menos rica. Isso fica muito claro no livro “Memórias Não Póstumas de um Punk” (ed. Multifoco), de autoria de uma figura chamada Larry Antha. Isso mesmo. Larry. Antha.

Eu desconhecia a existência da pessoa. Até que, há poucos dias, organizando minha mesa de trabalho, abri um livro que repousava em um canto, intocado, fazia meses.

Na primeira página, uma dedicatória: “Álvaro, aquela camisa do Nirvana com o John e a Yoko era demais!”. Era uma alusão a um caso que já contei na TV, em revista e jornal (minha única história interessante no mundo do rock): comprei uma camiseta das mãos do próprio Kurt Cobain, em um show em Boston, quando o Nirvana ainda começava.

Larry Antha sabia quem eu era! Decidi conhecê-lo também. Comecei o livro e não consegui mais parar. Em algum ponto da década de 90, Antha e três amigos fissurados em Pixies e no rock inglês dos anos 80 fundaram a banda punk Sex Noise. Eram de Campo Grande, extremo da zona oeste carioca.

Nada a ver com o rock bem-nascido e bem-criado que dominou o Rio na década anterior. Os quatro do Sex Noise eram filhos de operários e pequenos comerciantes. Profissionalmente, para esses jovens, o panorama era sombrio. Como em tantas histórias roqueiras, formar uma banda foi o jeito de fugir de uma vida sem horizontes. Ou pelo menos tentar.

Durante muito tempo, o cantor e letrista Larry Antha acumulou a banda com o trabalho de entregador de gás. O guitarrista e o baterista, como não davam certo em nada, ganharam da família de um deles uma pequena vidraçaria, na entrada de uma favela. No começo, capricharam no visual e iam trabalhar de camisa, calça e tênis. A “comunidade” começou a achar que eram da polícia. Rapidamente, adotaram o figurino da área: camiseta regata, bermuda e chinelo.

As histórias são muito divertidas e, na maioria das vezes, quase ingênuas. Namoros sem sexo, pressões da família por uma vida careta etc. Tudo muito diverso, por exemplo, de uma outra biografia recente que trata do rock carioca, a de Lobão. O mundo de Lobão e sua turma da zona sul é de tolerância e permissividade. No universo suburbano do Sex Noise, tudo é travado.

Em um dos casos mais malucos, Larry Antha ignora os apelos da mãe e sai de Campo Grande para ver um show no Circo Voador, na Lapa, a 55 km de distância. No trajeto -de ônibus, claro-, ele consegue sofrer dois assaltos, sendo que, no primeiro, um dos bandidos é fuzilado por um policial à paisana!

Fiel à ética punk do “do it yourself”, Larry escreveu o livro porque ninguém mais o faria. A antropologia paternalista da zona sul -aquela que adora validar tudo o que vem da periferia- nem sabe que existem roqueiros suburbanos como eles. Está presa à tríade funk/favela/samba. Rock, essa coisa anglo-saxã, cheia de brancos, às vezes cantando numa língua estrangeira? Não interessa.

O Sex Noise jamais passou do subúrbio e da Baixada Fluminense. Shows na zona sul, foram só um ou dois. O grupo também nunca tocou em São Paulo, principal mercado do país. E fez uma única excursão: para o Nordeste, de ônibus, na raça.

Cachê, não havia. Em compensação, a banda ficou maravilhada com a quantidade e qualidade da maconha nordestina, consumida sem cerimônia ou interrupção pelos punks cariocas (se há um personagem principal, aliás, não é Larry, é a Cannabis -toda a história é pontuada pelo uso pantagruélico da erva).

Apesar de todos os méritos, o livro clama por uma edição mais cuidadosa. Há casos repetidos; a linha do tempo é confusa; fatos vão e voltam; momentos importantes acontecem sem que se diga em que ano foi; vários parágrafos são truncados e/ou mal construídos.

Ainda assim, “Memórias Não Póstumas de um Punk” é leitura contagiante. Relato em tempo real de um mundo que chegava ao fim: o mundo do rock pré-internet. No Rio, e lá longe na zona oeste, para complicar ainda mais.

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