Putas sem reputação

Por Antonia Pellegrino
Ilustração: Cynthia Gyuru
REVISTA TPM

Este é o mês de lançamento do longa-metragem Bruna Surfistinha, livremente inspirado na vida da prostituta homônima. É a minha estreia como roteirista na tela grande, a seis mãos, juntamente com dois ilustres companheiros.

Neste parágrafo eu já posso imaginar algumas leitoras torcendo o nariz. Porque, desde que entrei no projeto, em 2006, essa tem sido a reação mais comum.

No entanto, a Raquel Pacheco, codinome Bruna Surfistinha, tem uma história incrível. Da garota gordinha e desencaixada que, semivirgem, deixou a casa dos pais para ir morar em um privê nos Jardins e ganhar a vida como puta. Virou a maior de todas. É um tremendo education plot, filme de formação através do sexo.

Quantas de nós, mulheres, já não vimos nossas vidas serem transformadas pelo sexo? A gente pisa mais firme no salto quando está feliz sexualmente. Foi isso o que aconteceu a Raquel. Mas o fato de ter sido através da prostituição é imperdoável.

Porque a puta ocupa um lugar destacado na fantasia de homens e mulheres. E, numa outra volta do parafuso, torna-se alvo de inveja das fêmeas reprimidas ou de ódio de homens hipócritas. Afinal, elas são bem resolvidas sexualmente, divertidas, desbocadas e ganham grana. Em última instância, podem transar os nossos maridos. Definitivamente, esse não pode ser um trabalho nobre.

No belo curta de Sergio Borges para o projeto transmídia Por que a Gente É assim?, uma travesti fala do poder místico do sexo, do prazer que ela sente ao ver o cliente alcançar o gozo, com um grito, que a um tempo reenergiza e eleva.

Surpresa!

Qual a diferença entre uma mulher que se prostitui todas as noites e aquelas que namoram ou se casam por interesse? Somente o prazo do contrato. Eu sei um monte de histórias de mulheres que saíram de bolo e agora exibem seus casamentos felizes nas capas de revista. Toda vez que entro em um restaurante caríssimo, lá estão elas. Mas ninguém torce o nariz, são as putas com reputação.

A Raquel Pacheco não teve a oportunidade de abocanhar esse mercado “sofisticado”. Vender a genitália no atacado foi o que deu para ela. Entretanto, seria esse um trabalho espiritualmente mais aviltante que passar 12 horas diárias como operadora de telemarketing?

Minha única queixa contra a prostituição é que a mulher não possa exercer o papel de cliente.

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Antonia Pellegrino, 31 anos, é roteirista e escritora. Seu e-mail: a.pellegrino@terra.com.br

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