Qual narrador?

Por Paulo Scott
BLOG DA COMPANHIA

Não acho impossível que, ao pegarmos aleatoriamente a timeline de alguém numa rede social por aí, não se consiga projetar uma narrativa coerente, não se consiga identificar um núcleo dramático principal (mesmo que por conta da mais mundana das empatias), um arco narrativo convincente — a unidade estará lá e, com boa vontade do que editará com a sua leitura e sua tesoura, um desfecho do tipo desfecho inesquecível estará lá também. Portanto a hipótese é: a timeline de um perfil no Twitter, no Facebook, pode ser narrativa poética, narrativa de prosa ficcional.

Saltemos duas casas.

Essa expulsão não seria novela literária — embora alimentada pela mesma pluralidade caótica de núcleos dramáticos em firmamento aparente (constelação?) de uma novela literária —, não seria romance — dificilmente proporcionaria a chance épica do romance, a profundidade do núcleo dramático absorvedor dos demais núcleos dramáticos secundários do romance, a verticalidade psicológica do romance —, não seria conto — dada a visível impossibilidade de chegar à perfeição, ao estranhamento polar flutuante e à brevidade programática, do conto.

Sem cogitar se essa expulsão tangenciaria as peculiaridades de crônica ou de poesia (lembrando que o debate em torno do cercadinho entre gêneros literários está fora de moda desde a primeira metade do século XX), sigamos. Saltemos mais três casas.

Imaginemos uma timeline esculpida com esmero (com entrega real e máscaras, todas as máscaras a que um vivente criativo e na pegada jardim de infância hell house teria direito), uma timeline na era de ouro do Facebook — quando foi a era de ouro do Facebook no Brasil?, Dois mil e dez?, Dois mil e onze?; certo que a resposta variará de usuário para usuário, certo que dependerá da quantidade de sorte narrativa, sucesso e felicidade que o usuário experimentou no Facebook —, e, nessa timeline, muitas interações, cumplicidades, paixões, conflitos e, rufem os tambores, um narrador inevitável. Qual narrador seria esse?

Descansemos uma rodada.

Já se disse que para conseguir hipnotizar alguém, antes você precisa hipnotizar a si mesmo, assumir um poder e uma condição que não estavam ali, convencer-se. Todo processo demanda a fase entrar no clima, no acreditar que você, num momento ou outro, funcionará como o grande misturador de grãos.

Não seria absurdo sustentar que o Facebook é uma grande narrativa em primeira pessoa e o usuário dono do perfil, o motorista, um narrador em primeira pessoa hipnotizado por si mesmo, autoinduzido a achar que é narrador em terceira pessoa (mais do que testemunha do enredo, o próprio motorista do enredo geral; parece que aqui está o truque e a enrascada), um narrador onisciente eventualmente seletivo (seletivo no sentido mais sórdido) e o dono supremo do espaço também.

Joguemos duas vezes.

Que hipótese seria essa em que o dono do espaço (a ilusão de ser o dono do espaço) funcionaria como o próprio espaço? Uma pretensão dessas está longe de ser um extremo impossível. As sentenças jogadas diariamente nas redes sociais (sobretudo se levado em conta o contexto em que a razão da pessoa vestida com o uniforme do usuário de login efetuado difere bastante da razão da pessoa circunstancialmente longe das redes sociais, a do login não efetuado) extrapolam a perspectiva do narrador em primeira pessoa, porque o ânimo, a empresa de se colocar feito bandeirante insano diante do todo imenso, avança ao encontro da tentação de controle dos resultados, dos desdobramentos do todo imenso.

Existe essa tese de que nas redes sociais as pessoas estão falando para elas mesmas, sempre. Um limite desses afastaria a possibilidade mais séria de uma narrativa em terceira pessoa, mas não a da hipnose ou de uma eventual esquizofrenia que, por conta do deleite do usuário de login efetuado — no fundo, no fundo, insisto, o login está continuamente efetuado — remeteria esse usuário (dono do espaço, a persona se confundindo com o próprio espaço) à acumulação de papéis, o que daria no mesmo. O usuário de login efetuado seria o protagonista, mas também o antagonista, as personagens-gatilho, as personagens-escada, as personagens-testemunha, as personagens-solução e por aí segue.

Uma timeline será sempre matéria-prima, isso é fácil perceber; difícil é localizar o narrador, eu insisto, e a posição determinante do resultado expulso que esse narrador ocupa; é um labirinto cujas paredes são edificadas na pretensão descontrolada do usuário (nas suas necessidades afetivas) e também na suposta presença do outro.

Nas redes sociais, o outro (os outros usuários alinhados atrás do véu que na verdade é um design) é o novo deus-instrumento, é o elemento permitido, o elemento aceito na medida em que serve bem para restar absorvido pela auto-hipnose do usuário protagonista. Diante do altar de todas as conveniências narrativas, o outro se tornará, quando muito, um falso protagonista a serviço do protagonista dono do perfil.

E a possibilidade de narrativa continua lá.

Entremos na fase final deste inferno.

Este ano de dois mil catorze foi um ano difícil (lembram quando reclamamos de dois mil e doze e de dois mil e treze?). É cedo para qualquer espécie de atestado de óbito, cedo para decretar se, para além de um ano difícil, este foi também um ano ruim — o diagnóstico vai depender dos anos que estão por vir.

Listei as situações mais perturbadoras de dois mil e catorze antes de começar a escrever o texto desta coluna. Essas situações é que deveriam ter pautado o texto, mas diante da sua extensão considerável veio a preguiça e certo constrangimento, difícil não se constranger com listas. E, além de tudo, surgiu essa vontade de falar de máscaras. De qualquer forma: um ano que termina sempre deixa restos a pagar e algumas sobras lúdicas também.

Para não morrermos na praia (será que no inferno ainda tem praia?), já que o final está mesmo logo ali, e ainda evitando a sangria das listas, divido o seguinte em clima de o que sobrou foi: sensação de que a velocidade que estamos usando como uniforme não está funcionando como deveria dentro das redes sociais; vontade crescente de escrever texto de dramaturgia no qual pessoas agiriam na vida real da mesmíssima forma como agem nas redes sociais, inclusive quanto à manifestação, e concretização, do desejo de fuzilamento, linchamento, enforcamento, estapeamento; torcida incontrolável por imprensa livre e plural, por mais mobilizações populares, por judiciário decente.

Vencemos (jogávamos sozinhos, é sempre assim no inferno, esqueci de avisar).

Não acho impossível. Acho até cabível o quadro de um narrador em segunda pessoa. E não importa se o login está efetuado ou não, porque se vocês têm contas abertas, não duvidem, vocês estão pagando o preço, estão se narrando, usando máscaras — e tudo continua lá se você não se apagou.

Falamos sozinhos. E, como sempre, mais um ano nos mastiga (como bom lanche que somos) e nos expulsa. Não culpemos o pobre do login. Se existe mesmo inferno, esse inferno e seus banhistas somos nós.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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