Qual preço você pagaria?

Por Maria Rita Kehl
Estadão

Uma recente polêmica com o crítico Marcelo Coelho acerca do pessimismo me fez prestar atenção nos textos do colunista Felipe Pondé. Na réplica a Coelho, Pondé reivindicou para si o pessimismo de Franz Kafka – o que me pareceu um tanto desmedido. Na segunda feira passada a crônica “O quarto” me levou a pensar novamente sobre o pessimismo e o paradigma ético que ele encerra.

Ao evocar o julgamento da ex-guarda da SS no filme “O Leitor”, o colunista convida seus próprios leitores a se colocar na pele da personagem de Kate Winslet quando pergunta aos juízes: “no meu lugar, o que você faria?”. O crime em questão não era o de ter se alistado na Gestapo “por precisar de emprego”, mas ter trancafiado 300 prisioneiras judias dentro de uma igreja em chamas para impedí-las de fugir. “Meu dever era manter a ordem”, responde a personagem. No lugar dela, o que você faria?

A questão é tão fundamental quanto irrespondível. Hoje, seríamos todos resistentes; seríamos todos heróis. É fácil julgar fatos passados através das lentes já estebelecidas pela posteridade, sobretudo quando os vencedores estão indiscutívelmente do lado, digamos, do bem. Mas se você estivesse lá, no olho do furacão, sem entender direito o que se passava, o que teria feito? Do lado das vítimas (para neutralizar um pouco a questão) quantas famílias judias tiveram oportunidade de deixar a Alemanha e não o fizeram, incapazes de imaginar a que ponto o mal que os ameaçava poderia chegar?

Mas houve um momento em que se tornou impossível ignorar a radicalidade da política de extermínio da camarilha de Hitler. Então, a opção pela neutralidade deixou de existir. Cada cidadão não judeu que optasse pelo conforto moral de pensar “isso não é comigo” sabia ser co-autor do assassinatos de seus concidadãos. Para entender isso é preciso, como escreveu Susan Sontag em seu último livro (Ao mesmo tempo; Companhia das Letras, 2008) “se transportar mentalmente para um tempo em que a maioria das pessoas aceitava que o curso da vida delas seria determinado mais pela história do que pela psicologia, mais pelas crises públicas do que pela particulares”.

Façamos de conta que este tempo passou; que hoje as grandes questões éticas podem e devem ser decididas a partir dos parâmetros exclusivos da vida privada. A isso nos convida Pondé, ao descrever a vida de uma inocente família alemã que escondia judeus num quarto da casa. Para apelar aos valores que nos são mais caros hoje, Pondé descreve o drama familiar aos olhos da criança da casa, que não entende porque o pai o estaria submetendo ao desconforto, ao perigo, ao mau cheiro que exalava do misterioso quartinho fechado. Pondé cita uma pesquisa em que adultos que passaram por situações parecidas na infância afirmaram ter imaginado que seus pais não os amavam, pois se amassem não os colocariam em risco por causa de estranhos.

A resposta demonstra até que ponto a vida se privatizou e a família tornou-se o único valor indiscutível aos olhos da maioria. Quando os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm nada a lhes transmitir. A não ser, talvez: “sejam felizes”. A qualquer preço? Avancemos um pouco mais na perspectiva da criança: como viveria mais tarde o adulto cujos pais enviaram vizinhos e conhecidos para a câmara de gás por amor a ele? Como suportaria gozar a vida depois disso? Quanto cinismo seria preciso mobilizar para seguir vivendo, indiferente às consequências dessa escolha?

Se só se pode julgar a história pela lente da história, sabemos hoje que a indiferença para com o destino dos não-familiares, a escolha de cuidar da própria vida e ignorar a dos outros hoje tem um nome: cumplicidade criminosa. Foi esta pretensa neutralidade, ao preço de uma brutal desidentificação com a condição humana, que instalou na Alemanha o que Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”. O pessimismo de Kafka advém de não querer ignorar do que as pessoas são capazes; do que a indiferença subserviente é capaz. Nada a ver com o suposto pessimista que não acredita em nada para manter-se mais ou menos de acordo com tudo. Este é o mal do século XX (e XXI), que Walter Benjamin batizou de fatalismo melancólico.

Ninguém escolhe a época em que lhe coube viver. Cada uma delas tem um preço. No caso do holocausto, os inocentes que sobreviveram para um dia se queixarem “meu pai não me amava porque protegeu estranhos” devem saber que, naquelas condições extremas, pagaram barato.

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