Quando a mídia noticia o irreal

Por Fernanda Campagnucci

A polêmica sobre o livro Por uma vida melhor merece análise e reflexão sobre o fazer jornalístico. Não se trata de um caso isolado, mas de um fenômeno revelador dos procedimentos adotados pela produção cotidiana do jornalismo, entre eles a descontextualização

Durante quase um mês, a imprensa brasileira sustentou um debate improvável do ponto de vista da lógica jornalística, sobre um livro didático que faz uso das variantes populares da língua portuguesa como estratégia para ensinar a norma culta. Não havia, no caso, nenhum dos ingredientes considerados critérios de seleção da notícia, como ineditismo, atualidade, importância. A não ser os inventados. Não fossem essas criações, o debate seria relegado a revistas especializadas, receberia alguma atenção em cadernos de educação ou, talvez, nunca aparecesse.

Tudo se passou aos olhos e ouvidos de leitores, espectadores e ouvintes como se o Ministério da Educação (MEC), um certo dia – parece que ontem –, tivesse resolvido editar um livro chamado Por uma vida melhor. O próprio ministro da pasta, Fernando Haddad, teria definido que, a partir de então, não haveria mais “certo” e “errado” no ensino da língua, e sim os conceitos de “adequado” e “inadequado”. E não se sabe bem se por descuido de revisão ou se por ignorância, mas certamente por incompetência de Haddad e de sua equipe, erros crassos como “Nós pega o peixe” estavam estampados em milhares de livros. Calamidade que mereceu manchetes, escalada em telejornal, chamadas de capa em revistas semanais.

Alguns analistas chegaram a comparar o episódio com o da Escola Base, de 1994, quando a imprensa julgou e condenou injustamente proprietários de uma escola por abuso sexual de crianças. No caso do livro Por uma vida melhor, produzido pela ONG Ação Educativa e editado pela Editora Global, os autores foram acusados de assassinato da língua. Até agora, há pelo menos algo em comum entre os dois lamentáveis episódios: em ambas as situações, mesmo depois de esclarecidos e desmentidos os erros, os veículos de comunicação nunca se retrataram.

O caso dos livros didáticos certamente não atingiu as proporções do Escola Base, mas merece análise e reflexão sobre o fazer jornalístico. A importância do episódio se deve justamente ao fato de que não se trata de um caso isolado, mas de um fenômeno revelador dos procedimentos adotados pela produção cotidiana do jornalismo. A prática da descontextualização, aqui, transformou-se em uma mistura explosiva quando encontrou elementos de interesse político e econômico, preconceito e boa dose de desconhecimento sobre o tema entre os que se dispuseram a escrever ou opinar.

No ensaio “Padrões de manipulação da grande imprensa”, Perseu Abramo descreveu alguns procedimentos por meio dos quais os órgãos de comunicação acabam por noticiar o irreal, uma realidade distorcida, artificial. Um deles é o padrão de fragmentação e, entre seus aspectos, a descontextualização. Isolada, a informação (neste caso, a frase “Nós pega o peixe”) perde todo seu significado original e real (o de problematizar as variantes linguísticas para a educação de adultos) e recebe outro (o de erro, descuido, e até improbidade administrativa).

A falsa polêmica correu como rastilho de pólvora depois de uma nota publicada em um blog de política do IG (Poder Online), no dia 12 de maio. A matéria em tom de denúncia trazia quatro pequenos parágrafos e diversas incorreções. A começar pelo título: “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado” (nem o MEC usa diretamente o livro nem o livro ensina a falar errado). Além disso, a jornalista que assina a matéria não se preocupou em realizar o procedimento básico do jornalismo, o de ouvir o outro lado – o Ministério, os autores do livro ou a editora.

A partir daí, dois diferentes momentos do episódio podem ser destacados, ainda que com fronteiras tênues e imbricadas: no primeiro, com a repercussão da mídia eletrônica e, nos dias seguintes, com os jornais, os erros se explicam predominantemente pela desinformação de fontes e jornalistas que escreveram ou falaram sobre o tema. Num segundo momento, quando estavam disponíveis opiniões de especialistas, notas de esclarecimentos e o próprio capítulo do livro em questão, na íntegra, a ignorância já não basta para explicar o fenômeno.

Na cobertura, ficou evidente, por exemplo, o desconhecimento vigente sobre o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), criado pelo governo federal em 1985 por meio de um decreto. Em 1996, foi iniciado o processo de avaliação pedagógica dos livros apresentados pelas editoras, feito por universidades e especialistas, que tem sido aperfeiçoado desde então. Trata-se da maior operação de compra e distribuição de livros do mundo (são milhões de exemplares negociados, anualmente). Em 2009, o programa foi ampliado para a distribuição de materiais próprios da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em que se enquadra a obra Por uma vida melhor.

Outro ponto nebuloso do noticiário dizia respeito a essa modalidade de ensino, a EJA, antes chamada supletivo. A assessoria de imprensa da Ação Educativa deparou com perguntas como “onde consigo o telefone desse EJA?”, de uma repórter de um grande jornal, ou “como pode um adulto estudar no ensino fundamental?”, de um produtor de uma grande emissora. A confusão também ficou evidente nas reportagens televisivas, que mostravam salas de crianças para ilustrar seus VTs, ou na boca de comentaristas, que esbravejaram por causa desse “crime contra as crianças de nosso Brasil”.

Não parecia óbvio nos jornais, embora fosse, que o livro não precisa “ensinar” uma forma de falar a adultos – ao chegar tardiamente à escola, estes já se comunicam com essa ou outras variantes populares. Ao mostrar a existência dessas formas, o livro se dedica exclusivamente ao ensino da norma culta, como se entende que a escola deve fazer. Esse foi o ponto central da discussão e revelou um último ponto de desconhecimento da imprensa sobre o tema: a abordagem é validada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), de 1997, e cobrada por vestibulares há mais de uma década. Qual é a novidade?

Trapalhadas da imprensa

Os padrões de fragmentação do discurso entram em cena, e os livros de Português são noticiados, ao lado do kit anti-homofobia e erros de diagramação em livros de Matemática de outro programa, no pacote caracterizado como “trapalhadas do MEC”. Articulistas fazem coro a senadores e deputados para que o livro “com erros grosseiros de português” seja imediatamente recolhido – ainda que não tenha erro algum, que esteja sendo usado por 485 mil estudantes e que tenha sido avaliado e escolhido por outros tantos professores. Depois, ao entrar em contato com essas personalidades e políticos – inclusive da Academia Brasileira de Letras –, a Ação Educativaconstatou que alguns deles nem sequer tinham lido o livro antes de opinar sobre o tema, e alguns reconheceram (não publicamente) que emitiram opiniões equivocadas por causa disso.

A polêmica se desdobrou no Poder Judiciário. Uma procuradora da República em São Paulo se precipitou e declarou que o livro era um “crime contra os jovens”. Alguns dias depois, tendo lido a publicação, ela escreveu um texto em seu blog revendo sua posição e pedindo desculpas por seu comentário equivocado. Tarde demais. Os jornais que reproduziram suas falas ignoraram a retratação, e vários dias depois revistas convenientemente publicaram aspas com a primeira fala da procuradora. Ainda que nada tenha sido decidido pelo Judiciário, o jornal Brasil Econômicose antecipou, julgou e decretou, em um infográfico, ao lado da capa do livro: “será recolhido”.

Mas, se algo positivo pode ser extraído de todo o episódio, certamente é a divulgação da opinião de linguistas e intelectuais do campo, ainda que de forma desproporcional, no debate público. Pela internet, em blogs e fóruns de discussão, também ocorrem embates interessantes sobre a questão do preconceito linguístico, fomentados pela polêmica. Diante da repulsa que o termo “preconceito” parece ter causado nos diversos articulistas e outros formadores de opinião, os elementos descritos acima não alcançam alguma explicação. Para a imprensa brasileira, o preconceito não existe, é uma invenção ideológica. Nesse caso, será preciso, como afirmou José Miguel Wisnik em artigo sobre o tema, proceder a uma “psicanálise coletiva”.

Jornalista, é editora do Observatório da Educação da ONG Ação Educativa/SP.

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