Veja três condições básicas para ser chamado de escritor

Mário Quintana tem uma frase célebre que diz: “Quando alguém pergunta ao escritor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”. A frase diz muito e confunde mais ainda. E Paulo Coelho serve de exemplo. Seus livros são demasiado didáticos, fáceis de ler; imagino que bem entendido por todos. Então, se ninguém pergunta ao “Mago” o que ele quis dizer, Paulo Coelho é um legítimo escritor e seus leitores são inteligentes? A pergunta serve para abrir a discussão e Paulo Coelho segue como exemplo para sugerirmos três condições para ser um escritor.

1) Produzir literatura – O autor brasileiro mais vendido do mundo em todos os tempos e já imortal da Academia Brasileira de Letras permanece contestado apesar dos números e do reconhecimento. O próprio Mário Prata, em entrevista recente publicada neste blog, desqualificou a obra de Paulo Coelho. Mas eu nunca li uma crítica aprofundada, um ensaio sobre a obra do “escritor” Paulo Coelho. As opiniões geralmente recaem no “não é literatura”. Então, a alcunha de escritor já se restringe mais um pouco: Escritor é aquele que produz literatura.

Mas como definir claramente o que é ou não é literatura? Um livro-reportagem bem documentado e escrito por um jornalista é literatura? Uma boa biografia é literatura? Há livros-reportagens e biografias que são e outros que não são literatura? Vale então a qualidade desses livros? Então, Fernando Morais é jornalista ou escritor? Ou ambos? Laurentino Gomes é historiador ou escritor? Os dois produziram best-sellers e são mais classificados como escritores pela mídia.

2) Escrever um livro – Aliás, classificar o autor de escritor é sempre mais fácil ao jornalista desinformado quanto à formação daquele autor. Se não sabe se é publicitário, jornalista, professor, etc, de certo ele é escritor porque escreveu um livro. E normalmente é essa a mais simplória definição de escritor: aquele que lança um livro. Seja um livro de memórias, de genealogia ou de piadas de boteco. O autor lança a obra com pompa, junta uma boa fileira de amigos no lançamento e recebe de presente a alcunha de escritor.

Então escritor é aquele que lança livro e produz literatura. Mas literatura está dividida em vários gêneros. O cronista pode ser escritor, o contista pode ser escritor, o quadrinista pode ser escritor, o poeta – se não bastasse a beleza de ser poeta – pode ser também escritor. E até o “pesquisador” – outra palavrinha fácil aos jornalistas – também pode ser escritor. E assim, com a facilidade de se produzir livros hoje, com tantas editoras independentes, o “escritor” está cada vez mais presente entre nós.

3) Viver da literatura – Se qualificar a literatura como boa ou ruim para medir um escritor ou não-escritor é subjetiva (embora um parâmetro mínimo possa ser estabelecido), e haja tanta facilidade na produção de livros, está relativamente fácil ser escritor hoje em dia. Mas há quem diga que escritor mesmo é aquele que vive do ofício de escrever ou, mais especificamente, da venda de livros ou, quiçá, de convites para eventos literários. E se há alguma definição possível para “escritor” é nesta que mais acredito. E sendo assim, aplaudo de pé nossos nobres cordelistas.

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