Quando as engenhocas disfarçam um mundo pobre de espírito

NO VI O MUNDO

Do Counterpunch, numa resenha de Doug Dowd sobre o livro Why America Failed: The Roots of Imperial Decline, de Morris Berman (reprodução de um trecho):

Nossa obsessão com a tecnologia

No mundo moderno a noção de “progresso” anda lado a lado com o progresso tecnológico, em todos os campos sociais. Berman escreve:

Se o objetivo da vida norte-americana é acumular tantos objetos quanto possível antes da morte, então a tecnologia está no centro da vida, porque tais objetos existem apenas como resultado da tecnologia e da ciência aplicada… Menos óbvio é o papel que a tecnologia teve ao promover a “hustling life” [uma vida de eterno movimento, de driblar dificuldades e aplicar golpes de sorte], que é um fenômeno tão social quanto econômico. Esta fronteira tecnológica em expansão mantém o antagonismo de classe em cheque da mesma forma que, no passado, a expansão da fronteira geográfica o fez. O propósito da vida é, portanto, o de continuar em movimento e, já que não há fim para a inovação não há fim para a vida de atropelos a qual, como a expansão tecnológica, torna-se um fim em si.

Ele cita Borgmann:

“A desigualdade favorece o avanço e a estabilidade do reino da tecnologia. Os níveis desiguais de acesso [à tecnologia] garantem uma demonstração de afluência que muitas pessoas esperam atingir. O que a classe média tem hoje a classe baixa terá amanhã… A peculiar conjunção de desigualdade e tecnologia… resulta num equilíbrio que pode ser mantido desde que a tecnologia avance… Enquanto este arranjo permanecer, a política não terá substância”. (A. Borgman, Technology and the Character of Contemporary Life (2006) (pp. 73-74)

Berman conclui o capítulo três com esta observação sombria:

O progresso nos Estados Unidos não tem muita relação com a qualidade de vida. Em vez disso é apenas sobre a “impertinente dinâmica do mais”, de mais qualquer coisa, de mais tudo. Por esta definição, a vida não faz sentido; é basicamente insensata. Alimentada pela religão da tecnologia, esta vida nos levou a um lugar empobrecido e sem sentido. Os críticos desta forma de viver são completamente ignorados; o ar está cheio de exortações para que a gente continue fazendo o que faz. Ainda assim, sob a frenética atividade, existe uma grande tristeza, que a correria e a tecnologia tentam reprimir — o que fazem, mas provavelmente não vão conseguir fazer para sempre; a fachada já está desabando”.

*****

Em The Crass and Beautiful Eternal City, no New York Review of Books, Ingrid D. Rowland resenha o livro de Robert Hughes sobre Roma (Rome: A Cultural, Visual and Personal History), e trata de duas ameaças à capital italiana, o turismo de massas e a indiferença causada pelas distrações da vida contemporânea:

“Duas forças brutais ameaçam a cidade hoje e Hughes é virulento aos atacá-las. Uma é o turismo de massa, atualmente uma força tão significativa para a economia de Roma que é pouco provável que fique sob controle. O outro é a indiferença de massa, trazida pelas distrações da vida contemporânea”.

A autora diz que Roma já sobreviveu a ameaças parecidas no passado e fala de algumas distrações dos dias de hoje:

“Steve Jobs e Silvio Berlusconi tomaram outro caminho; mas também eles são notícia velha em Roma. Os antigos também eram obcecados com engenhocas decorativas e talvez um clepsydra, ou relógio de água, parecia tão triste a eles quanto um Mac ultrapassado parece hoje. Quanto às piranhas do Berlusconi, o antigo autor de teatro Terence já reclamava, no primeiro século antes de Cristo, ao perder público para a dançarina do teatro ao lado”.

A resenhista — e Hughes — temem que o turismo de massa impeça os visitantes de refletir e verdadeiramente experimentar as maravilhas de Roma, o que enfraqueceria, no futuro, a defesa do patrimônio da cidade e mesmo do patrimônio histórico como um todo:

“Como Giorgio Bassani disse em 1972 (mas poderia ter dito ontem): Os monumentos não são chamarizes para atrair turistas e mantê-los impressionados enquanto os donos de hotéis e lojas pilham todas as suas moedas, nem são prostitutas de pedra mantidas fragilmente vivas pelo governo-cafetão. São lembretes do que ainda somos, apesar da TV e dos automóveis, e nós precisamos muito deles para continuar a ser o que somos — e não nos tornarmos, de novo, selvagens”.

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