Quando as férias se acabam

Por Woden Madruga
NA TRIBUNA DO NORTE

Não deu para viajar e as férias foram apenas no entorno da Reta Tabajara, entre Natal e Queimadas, passando os domingos pela Feira de São Paulo do Potengi para assinar o ponto na confraria do mestre Ambrósio Azevedo, todos debulhando rezas na esperança de chuvas, as contas do rosário, fazendo calos no polegar e no indicador do cristão penitente. A seca é braba, dói no lombo, na alma e no bolso dos renitentes moradores dessas caatingas, não tanto quanto dói “a inércia do Governo”, como bem o disse o arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha, sertanejo do Trairi e pensante da mesma escola do monsenhor Expedito de Medeiros, o Profeta das Águas.

A primeira leitura de todos os dias é no rastro dos saites da internet que cuidam das mudanças do tempo e trazem as notícias dos doutores meteorologistas. Aqui e acolá a gente se anima com a chuva que caiu no Piauí, atravessou a divisa e veio molhar o chão fértil do Cariri do Ceará  e do Araripe de Pernambuco. No Rio Grande do Norte ainda nada. A não ser algumas chuvas, um dia só, em pedaços do Seridó. A apreensão soou mais forte quando da reunião da Funceme, em Fortaleza, todos os meteorologistas pregando que as chuvas no sertão do semiárido serão, nestes primeiros meses do ano (fevereiro, março e abril), abaixo da média histórica da região. No final de fevereiro, aqui em Natal, haverá outra reunião agora cima dos novos sinais dos satélites meteorológicos e da quentura ou friagem das águas do mar, que escondem esses mistérios da chamada Zona de Convergência Intertropical, que é aquela faixa que corre paralela à linha do Equador. Exatamente por ali onde se acariciam (ou não) os ventos que sopram do norte e do sul.

Ultimamente anda ventando muito nas Queimadas. Derrubam os ninhos dos casaca-de-couro e levantam a poeira em redemoinhos quase. À sombra, coisa de 35 graus. O sol perto do meio dia queima como brasa. Tirando os juazeiros, os umbuzeiros e as algarobeiras, quase tudo que se vê é cinza. Os bichos sofrem com a água escassa e o bagaço de cana que vem de fora, caro, é da pior qualidade. Só dá uma melhorada quando o pessoal da cocheira mói com o cardeiro, batata da macambira e um resto de palma. Completa com pouco de melaço por cima da mistura. Milho, só o cheiro.

As noites, no copiar, olhando para a Serra de Joana Gomes, sopra um ventinho ameno que convida a leitura na cadeira de balanço de couro. As férias foram de algumas leituras, livros novos e uma releitura aqui e acolá. De Rubem Braga, por exemplo, de quem se comemora neste ano seu centenário de nascimento (12/01/1913) No decorrer da semana irei anotando aqui, até como sugestão de boas leituras (acho) para os amigos leitores de alguns livros que me deram prazer. Cito, agora, por exemplo, o romance O Violoncelo, de Francisco Antonio Cavalcanti, engenheiro, que faz sua estreia na literatura. É natalense, radicado na cidade de João Pessoa, onde ensina na Universidade Federal da Paraíba.

E tem o romance de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras), romanção de 400 e tantas páginas, forte sotaque gaúcho, que agarra o leitor logo na primeira página e só vai soltá-lo no fechar da cortina. Daniel Galera está no pódio dos novos bons escritores brasileiros. Ainda nas águas da ficção nadei com o veterano Sérgio Sant’Anna, Páginas sem glória (Companhia das Letras). Dois contos e uma novela. A novela, que deu título ao livro, versa sobre o mundo fantástico do futebol. Beleza. E tem ainda os contos de Paulo Henriques Britto, reunidos no livro Paraísos Artificiais, que marca a estreia na ficção do poeta –  que é Prêmio Portugal Telecom –  e tradutor badalado.

Amanhã, falaremos sobre outras leituras. O mês de janeiro foi assim, com muitas emoções. As maiores, a aprovação de dois netos ingressando na universidade. Natália vai fazer Arquitetura, na UFRN, e Tibério, Ciências Contábeis, também na UFRN. Antes, ele já tinha sido aprovado para o curso de Direito, na UNI. Fará os dois cursos juntos, pensando em ser um notável tributarista. E o cara só tem 17 anos!

Bom, estamos de volta à Ribeira.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Lívio Oliveira 5 de fevereiro de 2013 8:12

    O velho estilo de Woden de volta. Que bom!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo