Quando fui Prefeito de Natal

Por Lívio Oliveira

Como quase sempre faço nos feriadões em que fico em Natal, aconteceu que no último final de semana – emendado com um 12 de outubro, Dia da Criança e Dia da Padroeira, Nossa Senhora Aparecida –  andei me embrenhando, além da “selva” de livros e revistas, em meio à insalubre papelada (cartas, fotografias, diplomas, recortes de jornais, etc) que guardo em pastas gorduchas acumuladas no meu minúsculo escritório de apartamento, buscando sempre algo perdido no tempo, que tento organizar ali, naquele espaço reduzido, para que a memória caótica, que custa a operar por ela própria, possa ser nutrida e restabelecida nos intervalos da existência frenética e às vezes aperreada.

Esse exercício tem sido para mim sempre uma espécie de catarse preliminar, para que os dias de trabalho posteriores aos fins de semana ou feriados iniciem com mais leveza, até com menos culpa pelos esquecimentos, algo que me faz crer também em alguma espécie de resistência de hábitos e costumes já não tão repetidos por gente da minha geração. Quase todo mundo, na verdade, tem sempre algo mais eficaz e direto para colmatar as lacunas mentais que surgem de repente. No caso deste escrevinhador, talvez esses buracos mentais sejam fruto de uma velhice minha precoce, desligamento involuntário de sinapses. De qualquer sorte, vou resistindo. Da forma como posso resistir. Viver entre papéis (em sentidos múltiplos) é a maneira mais amena, não sei se totalmente eficaz, que escolhi. E somente escrevo porque ainda vivo entre esses muitos papéis.

Eis que de repente, em meio aos pululantes companheiros ácaros cheios de alegria e voracidade, e às traças de coloração cinza-prateada cheinhas de restos de amido, deparei-me com uma coleção de recortes de jornais natalenses me fazendo lembrar que exatamente há trinta e cinco anos me mantive, por um mandato imenso de uma semana (falo do exercício efetivo), no honroso e de muita responsabilidade cargo de Prefeito Mirim de Natal, o que foi fruto de um evento promovido justamente na Semana da Criança, em 1980.

Naquela época eu já era um “longevo” e incauto moleque que me gabava das virtudes naturais dos meus onze anos de idade e de uma gana colossal pela vida. Andava com os bolsos cheios de bolinhas de gude e figurinhas coloridas e com a cabeça entupida de sonhos e pretensões (talvez ainda os alimente, em parte). E tinha a energia explosiva de um pequeno leão com um espinho de mandacaru incrustado na pata dianteira.

Incauto e inquieto, decidi que acompanharia a pequena excursão da Escola Estadual Manoel Dantas, onde estudava, até a Cidade da Criança, ambas no bairro do Tirol. Lembro que fomos a pé, já que a distância era pequena (destaco aqui que ambas, Escola Manoel Dantas e Cidade da Criança – alô, Ricardo Buhiú! – continuam firmes e ativas, apesar de certas intempéries ocorridas nos tempos e nos governos). Pois bem, fomos a pé, fila indiana, até chegarmos àquele oásis infantil: uma cidade inteirinha destinada às atividades lúdicas e artes brincantes. Ali, inaugurei e concluí a minha meteórica vivência de político miúdo (no bom sentido, de gente pequena somente no tamanho, não como vemos a maior parte dos políticos brasileiros da atualidade) e imaginei soluções para os problemas todos do mundo. Pena que não deu tempo de executá-las durante tão curta administração.

Na Cidade da Criança, enquanto me jogava às brincadeiras todas, ouvi um chamamento geral através de alto-falante, para a inscrição de candidatos aos elevados cargos de Governador e Prefeito mirins. Achei curioso e vi que alguns coleguinhas se dirigiam à sede da “Prefeitura” para apresentarem suas candidaturas. Fui lá e dei o meu nome, talvez por achar que aquela fila de meninos e meninas só podia existir por algum bom motivo como ganhar confeitos e algodão doce ou pipoca. Candidatei-me a Prefeito. Achei que o nome era mais bonito. Até porque da criança era a cidade e não sabia muito mais sobre o Estado do que sabia sobre a minha queridíssima Natal. Minutos depois, participei (no muito improvável, mas real Castelo da Branca de Neve) de uma eleição por aclamação. Ganhei mais palmas do que os outros (nunca soube o porquê), fui eleito. Passei uma semana inteira andando de carro oficial preto (não é mentira) e visitando autoridades, escolas, repartições públicas, rádios e jornais (tenho os recortes de jornais para provar o que digo, além de um restinho de memória).

Ao microfone, no momento da aclamação, fizeram-me proferir o primeiro discurso solene da minha vida. Lembro-me de ter dito poucas palavras, com as mãos nos bolsos sujinhos da calça escolar. Tão-somente: “ – Agradeço aos que me elegeram”. Acho que algum adulto chato me mandou dizer essa frase sem graça. Talvez eu preferisse ter dito, como eu digo agora, com ênfase e ardentemente: “ – Permitam-me carregar dentro de mim a infância eterna. E me deixem ser um “menino perene” (como já o disse Nelson Rodrigues), para muito além dos próximos trinta e cinco anos.”

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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