Quando Godard (não) falou na USP

Por Cadão Volpato
ESPECIAL PARA A FSP

O cineasta Jean-Luc Godard esteve no Brasil em 1981. Visitou a FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), em cujo auditório fez uma concorrida palestra, lotada de cinéfilos e gente à paisana. Conta-se que as pessoas se abalaram até os bosques da universidade porque o jornal “O Estado de S. Paulo” anunciou a vinda do diretor. Uma aluna da Escola de Comunicações e Artes, futura cineasta e roteirista, preparou um jantar para o diretor.

Naquela noite, havia uma grande impaciência no ar. Um grupo de espectadores acabara de se rebelar, por conta da longa espera. Quando Jean-Luc Godard, usando uma gabardine, chapéu Borsalino e os célebres óculos escuros, entrou pela parte de trás do auditório e seguiu em linha reta pelo caminho que dividia as cadeiras, houve um silêncio compacto, seguido de palmas estrondosas.

Um incidente marcou a chegada do cineasta: um rapaz aparentemente desequilibrado investiu contra o ídolo de “Je Vous Salue Marie”, tentando acertar-lhe um soco. Dois seguranças informais, postados ao pé dos degraus que conduziam ao palco, conseguiram controlar o agressor. Jean-Luc subiu, sentou-se na cadeira que o esperava no centro do espetáculo, e começou o seu discurso. Ao lado dele, acomodados em cinco cadeiras alinhadas geometricamente, cinco jovens faziam a tradução simultânea -para inglês, italiano, japonês, alemão e… francês- de tudo aquilo que o criador de “O Demônio das 11 Horas” dizia no mais puro português.

Ódio. Revolta. Consternação. Esses sentimentos só vieram à tona quando as pessoas se deram conta de que o cineasta palestrante que diziam ser o maior nome da nouvelle vague, o homem que àquela altura rivalizava a céu aberto com François Truffaut (1932-84), com quem brigara por carta, e que havia acabado de desembarcar da aventura xiita dos vídeos de combate do projeto Dziga Vertov -esse homem não era Godard.

Esse homem era um estudante da ECA bem mais jovem e nem tão parecido assim com ele (tinha mais cabelo e um nariz nada pontudo). O Godard de araque estava mais para Jean-Paul Belmondo, o herói de cara azulada de “O Demônio”. O Godard de contrabando era eu.

É preciso voltar o filme um pouco para entender: eu e meus amigos éramos trotskistas. Trotskistas tinham boas relações com os surrealistas. Trotskistas desenhavam dentes de vampiro nas fotos de Stálin. Trotskistas se dividiam em inúmeros agrupamentos minoritários -que, conforme diziam os inimigos, cabiam todos num Fusca.

Meu grupo era barulhento. Éramos da linha lambertista e estávamos para fundir com os morenistas.

Os morenistas, no caso, eram argentinos. Esses argentinos eram artistas, de um grupo chamado Taller de Investigaciones Teatrales (TIT). Eram tão barulhentos quanto a gente. Vieram com tudo. Davam aulas de tai chi chuan. Eram meio hippies, não tinham alguns dentes; um deles, bonitão, tinha sido motorista de táxi em Buenos Aires, outro tinha sido operário. E uma militante era tão bonita que parecia uma miss. Tudo isso junto nos seduziu, e o episódio Godard saiu da união dessas forças e de um planejamento passo a passo.

Era o que se chamava de “intervenção urbana”, atividade na qual o grupo Viajou sem Passaporte, também daquela época, se tornou especialista: bastava entrar numa peça de teatro, em bando, e ir desmaiando aos poucos, com método.

Foi mais ou menos assim com Godard.

De toda essa irresponsabilidade, sobrou um jantar deixado para os cachorros (como aquele episódio da volta do goleiro Barbosa para casa, em 1950, depois da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo). Também sobrou uma maldição: Godard nunca botou os pés no Brasil. Se você ouviu falar a respeito, desconfie.

CADÃO VOLPATO, 54, é escritor, músico e apresentador do programa “Metrópolis”, da TV Cultura.

Quando Godard (não) falou na USP

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