Quando publicar, como criticar?

Há controvérsias sem fim sobre o momento adequado de uma pessoa que começa a escrever publicar seus textos: quando está maduro, seguro, acima da média, traz uma contribuição inovadora na área…

Falta o começo do começo: o que é publicar?

Literalmente: tornar público. O trabalho não melhora nem piora quando atinge outros leitores, além de seu próprio autor. A produção desse autor pode se beneficiar das críticas fundamentadas que ele receber – uma crítica negativa bem fundamentada é merecedora de gratidão eterna. Sem chegar ao público, o trabalho é fantasmagoria isolada, pode até ser ótimo mas inexiste para o mundo fora de quem o fez. Chegando ao público, ele ganha cidadania, pagando o preço de correr riscos. Viver é perigoso, escrever não poderia escapar dessa sina.

Em seguida: que é estar maduro, seguro, acima da média, trazer uma contribuição inovadora na área?

Não basta ter passado dos 20 (nem dos 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90…) anos para estar maduro, a questão é muito mais que cronológica ou etária. Rimbaud amadureceu assustadoramente aos 14 anos. Depois dele, talvez mais ninguém mas não custa lembrar seu exemplo – aconteceu uma vez, pode até se repetir. Tem gente que enverdece com o passar do tempo, morre que nem semente virgem que não frutificou. E tem o contrário, sementes novinhas que geram frutos e mais frutos. Melhor ser cauteloso, cada caso é um caso.

E estar seguro? Melhor estar inseguro. Excesso de segurança é irmão gêmeo de arrogância. Alguma dose de incerteza sempre se faz necessária. E chegar ao público ajuda a dialogar sobre essa dose. Grandes autores, com o passar do tempo, começaram a cair de qualidade – começaram a escrever como grandes autores no automático?

Situar-se acima da média: que média é essa? Os critérios para tanto não têm fim. Cada trabalho pode elevar ou rebaixar a média dominante. E escrever (pintar, dançar, cantar, filmar etc.) não pode depender de médias eternamente reavaliadas. Melhor ser o que se é e arcar com as consequências.

Trazer contribuição inovadora na área: é um ideal, nem sempre o que parece inovador consegue sê-lo, muita coisa que parece velharia remexe no existente com sutileza. Lembro de quando o Tropicalismo começou em música popular: parecia que ouvir Tom Zé seria esquecer Edu Lobo. Bobagem pura, melhor ficar com os dois, aprender com os dois – e os outros.

Resumo da ópera: melhor publicar quando der vontade. E arcar com as conseqüências, claro. Escrever não é se candidatar a unanimidade. Pode ser que as críticas negativas estejam corretas, pode ser que não. Um escritor não pode se guiar pelos outros – se o fizer, deixa de ser ele mesmo.

Última anotação: como criticar?

O objeto da crítica é o texto, não a pessoa que o escreveu. Piadas contra escritores podem até ser graciosas mas nada esclarecem, morrem no riso imediato. Se o crítico piadista não for um Lima Barreto, deve conter bastante o apelo ao riso para não cair no facilitário de programa de televisão.

As velhíssimas normas de civilidade caem bem sempre. Falar da vida íntima de escritores para comentar seus trabalhos é coisa dos piores vícios da mídia, de BBB para baixo. Revela mais sobre quem fala que sobre quem é falado.

O SP intensificou a publicação de poemas. A qualidade é variável, como costuma ser numa publicação coletiva. Os poetas frágeis podem melhorar (li um texto de Esmeraldo Siqueira sobre os poemas iniciais de Jorge Fernandes, se ele desanimasse no começo não teria produzido os excelentes textos posteriores), os bons poetas podem piorar, como tudo no mundo.

Sou favorável a essas publicações todas e às críticas todas que receberem desde que possamos garantir um pacto básico: ninguém morre se descobrir que escreveu um mau poema, ninguém morre porque leu um mau poema; criticar não é desrespeitar a pessoa que gerou o objeto da crítica, receber uma crítica não é desrespeitar quem fez a crítica; elogiar de forma argumentada também é crítica, existem textos bons ou considerados bons pelo mundo.

Vamos escrever, vamos publicar, vamos criticar! Com o carinho que a escrita literária merece.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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