Quando tudo explode num corpo contido

Por Francis Wilker

Quando criança fui ensinado que cor de rosa era “cor de menina”, cresci olhando meio desconfiado para a tal tonalidade, achando bonito e sem poder usar ou dizer. Uma cor que estaria sempre associada a uma “coisa fofa”, um ursinho de pelúcia, o algodão doce, algo assim…carinhoso, delicado.

Foi essa a primeira significação que me ocorreu olhando o título do espetáculo da CIA de Dança do Teatro Alberto Maranhão. Começaria aqui o exercício de vasculhar aquilo que, de alguma forma, marcou esse “corpo-memória”. Entrar em contato com uma obra de arte é sempre encontrar formas de se relacionar com ela, ainda que não intencionais. E o meu “Rio Cor de Rosa” – aquele que brotou e correu da minha relação com o rio da CIA – não foi delicado e carinhoso e talvez não tenha sido também sonho, se penso no significado mais comum dessa palavra.

Diante de mim um espaço vazio e corpos que pareciam dançar vidas esvaziadas de sentido. Ironicamente num linóleo rosa. Intérpretes jovens, amadurecendo suas técnicas, mas, assegurando uma entrega capaz de realizar a precariedade de estar vivo. A precariedade do nosso tempo tão “evoluído”. Parecia que nada externo seria capaz de fazer mover daquela maneira. Tudo explode num corpo contido. Era assim que eu sentia, um corpo a todo instante bombardeado por dentro, dos seus sótãos, banheiros, quartos e porões. Trôpego. Diante deles, talvez Hamlet dissesse: o resto é desequilíbrio.

O som alto me incomodava. Lembrei das vezes que coloco a música bem alta pra não ouvir tudo que em mim grita. Os bailarinos falavam insistentemente. Pouco se ouvia. Talvez falassem pra si próprios. Um mundo que não se escuta. Não havia ali comunicação possível.

Ao reconhecer na trilha trecho da música usada no belíssimo filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, era difícil não ler naquelas imagens – vivas – pedaços de um tempo que corre, cada vez mais, em busca de poder, sucesso, dinheiro. Um tempo controlado, cheio de padrões, cobranças e metas a cumprir. Vidas sozinhas em público. Ilhas repletas de solidão. Um mundo onde reina a primeira pessoa do singular. Já nem a masturbação era prazerosa: gesto puramente artificial, solitário e asséptico.

Repetidamente andar para trás. Uma volta. Duas voltas. Muitas voltas. Voltar para onde? Fiquei tentando encontrar o que um dia eu fui. Lentamente tentar devolver a vida objetos daquele outro tempo em que eu não precisava ser grande e nem provar nada a ninguém. Durou pouco, atrás da bailarina que tirava ursinhos de pelúcia de um saco, estava outra, perdidos cacos de infância recolhidos.

Ainda veria ali aquela cadeira que se completa com uma mesa e um computador na frente, ainda que eles não estivessem ali. Aquele objeto de sentar que carrega a idéia de trabalho. Ela gira, gira. O tempo passa enquanto giro em volta dela ou dele – o trabalho. Paradoxalmente a “máquina” que eu comando e que me consome.

Antes da luz da platéia acender – em meio ao redemoinho de imagens que corriam em mim – penso como é bom poder ver um trabalho que valoriza o processo de criação, a pesquisa, a busca por rigor técnico, ver jovens artistas com tamanha sede, dispostos ao risco, ao tropeço, a desmedida. Talvez seja essa a busca da arte de nosso tempo. Uma arte que nos faça lidar com o precário e contraditório que há em nós. Que nos tire da artificialidade, da aparência cuidada, do disfarce, do “mais do mesmo”. Arte viva, que acorda em nós a capacidade do encanto e do espanto diante de uma sociedade que, talvez, esteja nos dizendo: me belisca pra ver se ainda sou capaz de sentir!

Definitivamente aquilo não era um sonho, de um sonho acordamos. Ali, como última imagem tinha uma mulher rodeada e sufocada de opressão – ordens violentamente gritadas em inventadas línguas – Ela mergulha na escuridão até o sumir das tiranas vozes. Talvez, somente agora, aquela mulher esteja sonhando, para resistir à realidade!

Francis Wilker Carvalho é formado em teatro pela UNB, professor de teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, diretor do grupo Teatro do Concreto, consultor do SESI, e atualmente faz pós-graduação em direção teatral também na UNB. Está em Natal fazendo uma residência artística na Casa da Ribeira via prêmio Interações Estéticas da Funarte, que envolve a criação um espetáculo com os educandos do programa Arte Ação. Francis informa que foi a primeira vez que viu a Cia Tam.

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