Quando uma cidade passa de invisível a visível para nós

Quando nos interessamos por um lugar, inicialmente nossa mente se projeta aos desejos que possuímos de bem estar, aconchego, conforto, ajustes emocionais que fazem parte da nossa interação sensível, o que decorre naturalmente, do nosso entendimento do mundo e daquilo que nos rodeia.

Algumas pessoas são “cosmopolitan”: adoram um shopping center, estar no ar-condicionado, em um lugar visivelmente agradável e com requintes de sofisticação. Outras, já preferem o respirar do ar fresco, a vista agradável naturalmente, com natureza ao redor. E são estas preferencias que definem as dimensões afetivas dos espaços, definindo inclusive, os modos de habitar.

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Natal é uma dessas cidades: consegue juntar as diversas tribos em um mesmo espaço urbano e mesmo mostrando ao longo do seu percurso histórico, modos e afetos em seus múltiplos espaços urbanos. Por mais que a gente reclame, que saiba de todos os seus problemas sociais, econômicos e culturais, a gente sempre chega na máxima: “Isso é Natal, ninguém se dá muito mal.” Como diz a célebre música de Pedrinho Mendes.Isso porque o espaço é um meio de constituição do sujeito e um meio de expressão das suas vontades reais e imaginadas. Aqui, parece que sempre vemos alternativas às obscuridades que nos confrontam, temos a possibilidade de resistência, numa cultura múltipla e imprevisível. Paradoxo.

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As cidades são exemplos do fluir da vida onde tudo muda incessantemente.A percepção se torna desperta através do simbólico, das diferenças que levam à criação não só através da imaginação, mas também ao ato de pensar. Os relatos, aqui imagéticos,extrapolam a rede de significações e representações dos signos já estabelecidos no imaginário comum e buscam renovar e subverter os fatos reais, abandonando a consciência e explorando o inconsciente, os tempos e os espaços livres. Natal é uma cidade cujo centro está em todos os lugares. Nela você sempre está, sempre seguindo em linha reta, pois os espaços se misturam continuamente. Não tem começo nem fim, você simplesmente está na malha da cidade. Para compreendê-la é necessário deixar-se levar pelo movimento sem querer subjugá-la à ordem normal. Natal têm o seu próprio ritmo, e sua própria essência.

 

paula 4Assim, pensar em “#natalcomoeuteamo” nada mais foi do que transformar um percurso afetivo, de uma Natal que foge dos tabloides turísticos, em poesia em forma de prosa imagética, fazendo uma combinação de sentidos e imagens. São narrativas imaginárias que se organizaram ao longo de três anos, entre um percurso do Alecrim à Ribeira, passado pela Cidade Alta. Personagens foram surgindo ao longo deste percurso, alguns encontros que me proporcionaram a esperança de escolha e o espaço certo com o qual se deve interagir e viver. É difícil para um estrangeiro, como eu, encontrar-se nesta terra. Patriarcal e tradicional, é uma cidade que foi formada em sua maioria por estrangeiros, e paradoxalmente, sempre possuiu resistência.

A busca por ir encontrando espaços rarefeitos formam uma geometria com as imagens que surgem e se impõem diante de um olhar e que fazem da estética, uma abordagem ainda como obra aberta e obra em movimento. A ideia na edição, é que o observador possa iniciar seu percurso por quaisquer um dos lugares apresentados, pois são histórias fragmentadas, e cada uma apresenta uma realidade suplementar a si própria e não à outra. Como não há nenhum caminho que conduz, suas ligações se fazem ao imaginar, num fluir permanente. O movimento da obra dá-se principalmente com o emprego de símbolos que indicam esse fluir permanente e contribuem para a imersão nas percepções sensoriais: o lugar, a intensidade, as relações interpessoais, as geometrias urbanas.

A ideia foi construir uma narrativa imagética descritiva da cidade, esta que se entrelaça, encadeia-se não pelos traços comuns que a revelam, mas pelos que dissimulam, num processo de continuidade e descontinuidade. Para muitos de seus habitantes, esta ainda é uma cidade oculta que se desdobra, que apresenta sua dupla imagem, desafina, mostrando muitas vezes, o seu contrário. Há uma Natal injusta e uma dos justos, oculta e ainda uma outra Natal que é o resultado da fermentação dos rancores e rivalidades nascidos da certeza dos cidadãos mais abastados. É a materialização de sentimentos, invocando a imagem de uma Natal afetivadentro da outra, real, nos mostrando como o todo pode se fragmentar em diversas variantes.

Essas são imagens que se desdobram sugerindo nesse ir e vir como a vida está envolta num imenso paradoxo e como o contrário pode emergir do seu contrário (o tal avesso, do avesso, do avesso, do avesso…). Busco assim, com o meu olhar, uma investigação dos espaços e de seus personagens que vão surgindo a medida que o percurso vai se alongando. Sigo fazendo indagações, efetuando revelações, tentando atravessar as aparências, passando de um labirinto a outro, de uma margem a outra, à descoberta desse outro mundo desmesurado, compondo e desvelando enigmas. As coisas nunca têm formato muito definido e vamos moldando estas relações de acordo com uma série de fatores: pertencimentos, afetos, encontros, desencontros, buscas. A procura é por um olhar que mina nossas certezas concretas e nos encaminha para viagens descontínuas no espaço e no tempo, jornadas livres do controle, significativas, criando conexões invisíveis e multiplicando imagens sem destituí-las de seu significado, ao contrário, essa multiplicação vai operar em sí uma riqueza de significados que deixam, sempre, traços na memória do observador.

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A intenção é mostrar como é possível “construir” ou reconstruiruma cidade conforme se privilegiem determinados aspectos e as relações interativas com os grupos sociais que nela estão contidos. Cada grupo, com seu modo ver o mundo ou com interesses voltados para aspectos mais específicos pode construir e reconstruir a “sua” cidade criativamente, a partir de elementos selecionados no amplo leque de opções disponíveis na sua cultura, podendo destacar vários aspectos relativos à construção da memória e à sua função cotidiana, que não se restringe a um simples artifício à lembrança ou aspecto revelado, aproximando-se muitas vezes do material – da presença do tempo na vida das pessoas. A memória aqui sempre será o ponto de conexão e expressão.

Natal para mim é a possibilidade do desencontro comigo mesma e me deixar levar, com a vida, com os amores, com lugares. Aqui, me ponho em xeque todos os meus dias, saio da minha zona de conforto, numa relação de afinidades e contrastes que evocam a busca de novos espaços dentro de outros espaços. Tempo, dentro de outros tempos. Parte por parte. Instante a Instante. Tenho um passado, e mesmo não me limitando a ele, mesmo com espaços importantes desfocados na minha memória-tempo, encontro aqui todos os sonhos aos quais aspiro, no meu museu íntimo.Viver aqui me põe em narrativa diária com o espelho do meu imaginário, que se organiza e se coleciona, onde os afetos dialogam, sobretudo, porque evocam sensações, afinidades e contrastes através da memória, que sempre está em busca do encontro com aquilo que é essência, que é o seu espaço, o de interagir e o de viver.

Natal sempre será uma fotografia não revelada na minha mente, que sempre me deixa o frêmito na barriga por não saber o que vai se desvelar na próxima esquina, mesmo a conhecendo como poucos de seus habitantes. Revela sempre nos espaços de medo e dos sonhos, nossos encontros e desencontros. Meus sonhos e afetos, aqui, não se afastam totalmente. Andam de mãos dadas. A harmonia contém a desarmonia que a contém. A cidade infeliz contém a cidade feliz que as vezes, nem sabe se existe. Essas dualidades coexistem diariamente nesta relação de afeto. Ora queremos ir embora, traçar novos caminhos, buscar novos horizontes. Vamos, descobrimos um mundo todo afora, mas ao voltar, a sensação de lugar se reconstrói, e fica quase impossível sair desse contexto emocional-afetivo-imaginário.

O universo urbano se estende muito além, até mesmo do que o “urbanismo” possa abarcar. O urbano é feito de uma matéria não manipulável, rebelde, caprichosa, mas nem por isso menos fascinante. Cada cidade é única na sua paisagem e na construção do seu espaço pelos seus habitantes, e o número de possíveis cidades dentro de uma mesma, é infinito.E ainda, há dimensões ou imagens que servem a todas e a uma única cidade ao mesmo tempo, sem que por isso não deixem de servir como elementos diferenciadores que tornam, paradoxalmente, cada cidade, única.

Convivo com uma fotógrafa, uma arquiteta e uma gestora de projetos no mesmo corpo físico e mental. Um caleidoscópio seria mais fácil de entender. [ Ver todos os artigos ]

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