Quanto podemos suportar?

Por Regina Teixeira da Costa
O ESTADO DE MINAS

Há quem acredite que o sofrimento psíquico é para os fracos

A vida é boa. Não queremos perdê-la. Sofremos, mas ainda assim somos ligados a ela e buscamos superações todos os dias. No entanto, mesmo os que têm uma boa vida sentem algum mal-estar. Chamamos esse sentimento incômodo – e às vezes injustificado – de angústia existencial.

A angústia existencial pesa sobre os ombros de todos pelo simples fato de estarmos vivos e termos consciência do perigo que é viver e da presença certa e invisível da morte, mesmo num horizonte longínquo.

Para alguns, a angústia é mais perceptível e menos suportável. Ou o quantum é maior, vai saber! Cada um sente de maneira diferente, conforme sua sensibilidade. Ainda há quem acredite que o sofrimento psíquico é para os fracos, um tipo de piti ou fricote.

Há pessoas que lidam mal com a frustração, são caprichosas e querem ser atendidas. Acreditam (santa ingenuidade!) que a realidade pode atendê-las plenamente. Mas a realidade é dura, não se curva a nossos desejos e vontades. É difícil aceitar. A coisa não entra na cabeça. É uma recusa contra a racionalidade.

Para piorar a situação, há quem se engane querendo crer que pode atender toda a demanda e se desdobra por isso. Talvez tenham a ilusão de que é possível atender plenamente ao que lhe pedem. Fazendo assim, reforçam a esperança do outro de obter satisfação plena – quanto mais é atendido, mais crê que tem direitos. A realidade nos dá provas disso diariamente. A educação é uma forma de nos fazer entender que temos de nos civilizar e adaptar para vivermos entre outros. Mas a criança birrenta, quando atendida, cresce achando que a manha funciona. Por isso, muitos adultos insistem nesse comportamento infantil de obstinação.

Enfim, quando estamos preocupados e/ou ocupados, quando temos uma causa que nos motiva, conseguimos debelar, de certo modo, a dor de existir. Ou sob efeito de álcool e drogas, poderosos anestésicos dos mal-estares. Nós buscamos motivos para viver por causa disso. Escolhemos uma religião, fazemos viagens, trabalhos manuais, artes, esportes, tudo para nos sentirmos melhor. Os zen-budistas e iogues aconselham a meditação. Como é difícil domar a mente e silenciá-la!

Quem conseguiu alcançar o nirvana abriu mão do desejo e se manteve, temporariamente, fora da ação de qualquer subjetividade, evitando viver como sujeito de desejo.

Enfim, diante da dor da existência, não temos escapatória radical. O homem não nasceu para ser feliz. Por natureza, está mais apto a vivenciar a infelicidade que lhe é infligida pelo sofrimento do corpo, pela hostilidade do mundo externo e pela insatisfação que lhe causam as relações com os outros. Diante disso, conforma-se em evitar o sofrimento renunciando à felicidade. Apenas procura atenuar o sofrimento. Entretanto, o mal-estar não se mostra passageiro ou contingente, mas uma condição para existirmos juntos.

A pergunta que não se cala é: quais os limites do sofrimento devemos suportar e aceitar? Quando é preciso agir para mudar o mundo ou para transformarmos a nós mesmos?

Certas modalidades de sofrimento são mais visíveis ou mais intoleráveis que outras. Cada um de nós deve responder a si mesmo sobre como definir os limites do suportável.

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