Quarto Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes

QUATRO

ANTES DAS SETE DA MANHÃ, OS cavaleiros entraram em Princeza. Não houve um tiro sequer. João Sem-Medo, que havia juntado trinta homens e preparado uma emboscada, terminou derrotado pela bubônica, se ardendo num braseiro de febre, tendo em sua volta companheiros perfilados, bravos, envoltos numa névoa luminosa que lhe dava a impressão de que todos flutuavam. Atirou várias vezes, apontando uma arma imaginária em direção aos peitos dos animais, aquela grande muralha que se movia e avançava. Uma mulher misteriosa vinha guiando os cavaleiros e suas vestes reluziam ao sol e encandeavam. João Sem-Medo não pôde enxergar direito, mas teve a impressão de que ela brandia uma foice. João não viu a foice medonha e curva, mas levou consigo para os cafundós secretos da morte o frio no pescoço, tão logo escutou o zunido do ferro piando nos ares. A dita senhora, carniceira e altiva, ia crescendo, crescendo como um gigante à medida que se aproximava, da mesma forma que crescia o estouro dos cascos da cavalaria a detonar o chão. “Acorda, João, acorda”, gritavam os companheiros.

E enquanto os cavalos estalavam os cascos nas pedras das ruas de Princeza, João Sem-Medo achava-se em compenetrada conversa com os mortos. E momentos antes de partir com eles, definitivamente, João havia de recordar o dia em que voltou ninguém sabe de onde. O fato é que voltou. Montado num cavalo estropiado, depois de vários dias de navio e de trem, de mula, jumento, a pé, a nado, correndo, quando João apontou no início da rua, a barba grande, magro, ninguém o reconheceu, mas ao desmontar do cavalo para tomar uma bicada de cachaça, o bodegueiro foi em cima.

– João, onde você se meteu por todo esse tempo?

– Na guerra!

O bodegueiro ficou pensativo. Nunca tivera conhecimento de guerra alguma durante os trinta anos em que o homem passara ausente de Princeza. As últimas guerras tinham sido as do Cariri do Ceará, a de Canudos e a maior de todas que foi a do Paraguai. Mas estas não foram guerras do seu tempo. Do seu tempo, só a Primeira Guerra Mundial, e se João Sem-Medo inventou de brigar nela, deve ter brigado sozinho, sem o Brasil mandar, por sua conta e risco.

Dizem que ele não brigou em guerra nenhuma. Aconteceu de um dia, estando de saco cheio e liso, resolvera tentar a vida no Amazonas. E chamou um amigo de nome Sebastião, que tinha o olho grande. Os dois tomaram um vapor e se danaram para o Norte. Lá chegando, subiram o rio até onde não mais existia o menor risco de aparição de homem branco. João Sem-Medo quis parar. Sebastião não concordou:

– Mais para adiante!

– Aqui está bom! – ponderou João.

– Mais para adiante – teimou Sebastião.

E nessa lengalenga os dias foram se passando. E ao cabo de um mês, navegando rio acima, resolveram parar. Amarraram o barco, pegaram as ferramentas e as armas e se embrenharam na mata em busca dos seringais.

No fim de três meses de trabalho, quando o barco já estava quase afundando de tanta borracha a bordo, eles escutaram uns assobios. Então perceberam que não estavam sozinhos. João deu um tiro para cima e os índios atacaram. Os dois correram em direção ao barco. E em momento algum João chegou a sentir medo, nem mesmo quando ouviu o grito lancinante de Sebastião no instante em que uma flecha o trespassou.

Alguém tinha de ficar vivo para contar a história, pensou João, na carreira louca em direção ao rio. O importante era salvar a história. Por isso, do jeito que vinha, cortou a corda e mergulhou num dos reservatórios de leite sobre o convés. O barco desceu à deriva rio abaixo.

Depois de rezar pela alma do colega seringueiro, João vendeu o látex no Grão Pará, viajou pra cacete, entrou no Pernambuco pela perna do pinto e veio sair pela do pato, em Princeza, muitos anos depois.

Precisava refazer o lar, agora sem a mulher e sem os dois filhos, tocar uma roça no Espinheiro dos Antas, retelhar a casa e construir um novo cagador, que era um buraco bem fundo com um porco lá dentro para se alimentar de suas fezes. Era quando dar de corpo, fazer cocô, como se diz, virava divertimento. João ainda se lembrava dos tempos de antanho, quando costumava ficar lá em cima, acocorado, fazendo pontaria para acertar a bosta na boca do porco. A artilharia de gases pondo em alerta o animal que se esticava na ponta dos pés, grunhindo, à espera daquele manjar do céu. Com o tempo, o porco estava gordo, porque além de João Sem-Medo tinha a esposa e os dois filhos que vez em quando iam ao reservado.

Dificuldade danada era tirar o porco do buraco, mas compensava o sacrifício. João apreciava o ritual. Era sempre a mesma coisa quando ia matar um porco. Acordava muito cedo, pegava uma peça de corda nova, um machado, uma bacia de zinco, o binga, os gravetos, as palhas, e punha-se a amolar a faca. O bicho, que já estava amarrado pelo calcanhar, era pendurado no galho de um cajueiro, João metia-lhe o olho do machado na cabeça, em seguida enfiava-lhe a faca no pescoço, aparava o sangue, depois pelava o animal e em seguida providenciava a evisceração. Poucas horas depois, já faminto e exausto, lá estava João traçando um prato de sarapatel, toucinho e farofa de torresmo, tudo misturado com angu, leite e rapadura, que era comida de sustança.

Não demorou e os trovões de novembro começaram a despejar do céu a grossa artilharia e os relâmpagos botaram fogo nas nuvens e incendiaram a noite. João Sem-Medo abriu a porta e correu para sentir nos couros a pancada do inverno. Os trovões explodiam e a chuva grossa lhe lavava o corpo e ele chorava e se lembrava da mãe que nessas horas sempre clamava por Santa Bárbara, a santa pára-raios, que livrava a todos da ignorância do céu. E as águas tiravam a poeira das árvores entisicadas, abarrotavam as grotas, riachos, açudes, cacimbas, e o Riacho-da-Velha descia mundo abaixo, pelos azeites, cavando as serras e levando árvores, cadáveres de jumentos, vacas, porcos e de quando em quando uma pessoa. A trovoada era, pois, o prenúncio mais real da ressurreição dos campos. Os relâmpagos, fantasmas ígneos, infestavam o regaço da noite e davam a João Sem-Medo uma mostra de como era o sol bombardeando a terra com suas chispas inclementes. E os inimigos, no meio da noite, escondidos em trincheiras de nuvens, disparavam seus canhões.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 29 de agosto de 2011 16:34

    MUITO BOM ALDO, JÁ ESTOU AGUARDANDO O QUINTO CAPÍTULO. MANDEI UM CONTO PRA VC POR ELIDETE, ESPERO QUE GOSTE, UM ABRAÇO!

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