Quatro dias para Manoel

Por Socorro Acioli
BLOG DA COMPANHIA

Semana passada, recebi uma carta de remetente desconhecido. Uma missiva manuscrita, como nos velhos tempos. Doze páginas de papel almaço em caligrafia calma, impecável, desenhada, sem perder a força do traço até o fim.

A carta veio da Penitenciária Nestor Canoa, em Mirandópolis, São Paulo e chegou à minha casa, em Fortaleza. Foi escrita por um detento, que chamarei aqui de Manoel, inspirado pela leitura do livro A cabeça do santo. Ele reescreveu todo o enredo do romance em versos rimados, com direito às suas próprias interpretações e realces, à sua maneira, dos trechos preferidos.

Quem encaminhou a correspondência foi a Maria Queiroz, do Núcleo de Incentivo à Leitura da Companhia das Letras. Ela e a Janine Durand me explicaram melhor o projeto que serviu de ponte entre livro e leitor.

O Manoel faz parte do Programa de Incubação de Clubes de Leitura em oito unidades prisionais do estado de São Paulo, fruto da parceria entre a Companhia das Letras e FUNAP. Foram selecionados oito títulos do catálogo da editora: A arte de ouvir o coração (Jan-Philipp Sendker), A cabeça do santo (Socorro Acioli), Cada homem é uma raça (Mia Couto), Dois irmãos (Milton Hatoum), Estrela amarela (Jennifer Roy), Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino), Persépolis (Marjane Satrapi) e Sociedade da neve (Pablo Vierci). Em cada uma das oito unidades prisionais, foram formados grupos de vinte detentos, que têm trinta dias para ler cada livro, com a ajuda de um mediador orientado pela editora. Ao fim do prazo, eles têm que apresentar uma resenha, a ser avaliada pela equipe de voluntários da Companhia e encaminhada à FUNAP e ao juiz regional para que seja concedida a remição de pena. Se tudo der certo, a cada livro lido o detento terá até quatro dias a menos no total da sua pena. Quatro dias de liberdade em troca de trinta dias de literatura.

De tudo o que aconteceu desde o lançamento de A cabeça do santo, em fevereiro de 2014, receber a carta do Manoel foi a experiência que me causou mais impacto. Esse livro, que fala do pedaço de Brasil de onde eu venho, das pessoas do Nordeste e suas desesperanças, ultrapassou uma barreira que eu nunca imaginei. Fui tomada pela imensa alegria de constatar que a literatura e seus percursos podem e devem ser um processo coletivo. Não somos mais só eu, minha ficção e a teia sufocante da vaidade, guerra de egos, números e disputas que esgota o autor contemporâneo. Sempre busquei um sentido além disso tudo para o que faço e ele chegou dessa vez na caligrafia do Manoel. A cabeça do santo, agora, faz parte de um projeto muito maior, de mãos dadas com outros escritores que admiro tanto e isso renovou minhas esperanças no poder da palavra.

Não consigo parar de pensar nos quatro dias de liberdade de Manoel, na grande alegria de fazer parte disso. Desejo que sejam horas bonitas, que ele enxergue beleza onde não via antes. Que ele lembre dos trechos dos livros que leu, que os personagens o acompanhem. Que o mundo pareça menos cinza e menos cruel do que tem sido. Que ele encontre esperança e, sobretudo, força. E que não se esqueça nunca do quanto a literatura pode fazer por ele e por todos nós.

 

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santo, e em 2015 lança nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Tânia Costa 3 de Março de 2017 13:42

    Que projeto belo! Que texto massa!

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