Que a vitória recompense os que tiverem feito a guerra sem amá-la!

“¿Quién dijo que todo está perdido?/ yo vengo a ofrecer mi corazón” Fito Páez

*ALERTA: A imprensa oficial anuncia: o serviço de inteligência da polícia abriu a temporada de caça à crimidéia nas redes sociais. Uma varredura está sendo feita a fim de registrar as menções apologéticas ao vandalismo e seus autores, o objetivo é afunilar a trama de espionagem até que algum bode expiatório possa ter sua cabeça cortada para servir de exemplo aos demais. É terminantemente proibido expressar qualquer idéia capaz de inflamar desejos vândalos. A guerra contra o terrorismo, uma vez que destina seus ataques a um inimigo difuso, precisa espraiar-se nas dinâmicas sociais de tal modo que é a própria vida que se coloca na mira de sua violência ordenadora – se o corpo não apanha, não significa que não seja violentado. A máquina synóptica de monitoramento quer catalogar rostos para as idéias, circunscrevê-las nos avatares de meia-dúzia de autores descuidados e, nessas fotografias, assinalar xizes – descartar as vidas em jogo é a forma que o controle encontra para lançar certas idéias ao obscuro; é seu modo de delimitar as fronteiras do pensável. Vemo-nos, então, diante de um poder que já não só produz e regula a vida, mas dispõe dela e a procura mobilizar conforme sua molaridade. Pensar o impensável da política se torna uma atividade de risco quando as polícias do pensamento demarcam com cada vez mais força os limites da idéia – a ordem, além da violência e por meio dela, procura, também, monopolizar a imaginação.*

Na esteira dos acontecimentos recentes, Natown viu emergir, desde os seus escombros e lixo, um novo panorama de potencialidades antes obscurecidas. De certo modo, como tenho querido observar desde “A Pedagogia das Revoluções Fracassadas”, os eventos políticos do último ano – e, sem sombra de dúvida, antes outros eventos ajudaram a produzir esses – produziram fraturas significativas nas dinâmicas dos protestos que estão pipocando na paisagem hoje, tendo como consequência o fato de que uma multiplicidade de corpos e práticas pôde escorrer pelas pequenas aberturas que dessa quebra decorrem. Assim é que me pareceu necessário tentar dar conta, ao menos num plano imaginativo, dessas pragmáticas emergentes e de sua reverberação, a fim de rediscutir algumas linhas de força alojadas, subrepticiamente, na parte essencial da maioria dos discursos que tanto as mass-mídia quanto as mídias alternativas tem produzido em decorrência do levante.

É importante reconhecer, antes de prosseguir, que a produção de discurso das mídias alternativas não é menos recortada que aquela advinda das grandes corporações jornalísticas. De certo que são outros interesses que estão em jogo quando a imprensa oficial elabora seus textos, mas seria ingênuo de nossa parte considerar que, pelo simples fato de não ser hegemônica, a produção blogueira está isenta de manipulação. Escrever é criar arranjos, considerar uns elementos em detrimento de outros, forjar paisagens subjetivas. A minha escrita, por exemplo, é tão interessada quanto a de um jornalista, a diferença é que eu não respondo a patrões, mas sim ao ritmo de meu próprio pensamento. Isso não significa que você, leitor, possa confiar mais em mim do que em um jornalista; significa, aliás, que você deveria desconfiar de nós dois.

Crítica à Unidade Estratégica

Quando a polícia leva alguém em cana num protesto, o que ela procura é um centro. Quando um jornalista pergunta ao entrevistado sobre a coordenação do movimento, o que ele procura é um centro. As ações da imprensa oficial e da polícia, nesse sentido, brindam com o desejo amiúde expresso nas plenárias da assim chamada Revolta do Busão. Por uns tomado com fervor, e por outros dissimulado em críticas construtivas, o imperativo centralizador aparece quase sempre como condição de existência do movimento, sustentado pelo ideal de organização. Mesmo quando se diz “plenária aberta e horizontal” e “comitês autogestionados”, e a este teatro se concede o poder de falar em nome do movimento, o que se procura é delimitar um arranjo mais ou menos arbitrário para os levantes. Obviamente, o projeto falha, uma vez que as 100/150 pessoas que vi nas plenárias de que participei, por mais que gritem em seus megafones, são perfeitamente incapazes de controlar a totalidade das potências efervescentes no movimento; ao contrário do que se pode pensar, essa multidão já não conflui para um só caminho, pelo contrário: diverge. Para concluir isso, basta ir a um levante, observar a fragmentação, os conflitos internos: a nova dinâmica não diz uníssono, diz dissonância e multiplicidade.

Em comentários no facebook, em blogues, nas bocas, impera a ideologia do uno: “Nós precisamos lembrar porque estamos aqui: pelo povo! E é pelo povo que devemos permanecer unidos!” Ora, nós não somos o povo. O povo é uma concepção identitária fechada, que reduz o múltiplo a uma univocidade pasmacenta. Nas plenárias, reclama-se: “Nós não podemos perder tanto tempo em conflito, precisamos permanecer unidos!” Esse discurso, que visa excluir as dissidências e crises com vistas à estabilização do movimento, atualiza, do paradigma de massas, o pânico da desagregação – o medo de desmobilizar o movimento leva ao silenciamento dos conflitos. O irônico é que, quanto mais se clama por unidade, mais a diferença se prolifera. Os pretensos representantes do povo, no entanto, insistem: a unidade é uma estratégia. E a diferença é ameaçada.

Sobre a estratégia, é preciso lembrar que ela quase sempre traz a reboque consequências que excedem as razões pelas quais foi concebida. A unidade estratégica, por exemplo, conquanto pareça a única forma de alcançar um sucesso político, reafirma, na verdade, o domínio da política como soberania, significando a derrota da democracia no seio de um movimento de contestação. No antigo cartaz da Revolta do Busão, havia um desenho emblemático: nele, um peixão era acossado por um cardume de peixinhos em forma de peixão. A idéia de que para derrotar a ordem é preciso equiparar-se a ela tem de ser questionada na medida em que toma a disputa política por um ponto de vista binário, onde a ordem só pode ser desbancada por um oposto simétrico. Em outras palavras, o cardume de peixinhos afugenta o peixão para depois tornar-se, ele mesmo, um peixão soberano. A soberania tem sido quase sempre tomada pela teoria política como o governo do uno sobre o múltiplo, assim é que a unidade estratégica visa, no âmbito da Revolta Potiguar, reproduzir esse paradigma, ao invés de reformulá-lo.

Talvez seja preciso, se se quiser produzir uma democracia que não seja esta, reconhecer e aceitar as rupturas, dissensões e fragmentações como linhas de força constituintes do processo de democratização. Perceber que o fato de não haver uma estratégia única não significa que não haja estratégia nenhuma. O que se confere não é uma falta, mas uma multiplicação estratégica. Em minhas vivências nos levantes, plenárias e conversas informais, ouvi diversos planos de ação que, embora não estejam necessariamente implicados um no outro, podem, se levados a cabo concomitantemente, configurar uma força em rede capaz de obter sucesso político sem incorrer no erro de reestruturar o paradigma da soberania. Não se trata de uma anarquia pura e simplesmente, mas de uma aposta na potência do comum que se produz entre as diferentes forças componentes da insurgência sem que, para isso, seja necessário forjar o uno. Trata-se de compreender o espaço dos levantes e das plenárias como zonas de sociabilidade onde as diferenças se embatem e produzem uma comunidade de células autônomas; e não mais como uma massa cinzenta que pode e deve ser direcionada como um bloco soberano com vistas a uma estratégia hegemônica.

Crítica ao Sujeito do Movimento

No dia seguinte ao incêndio de dois ônibus em Natown, recebi, por telefone, a notícia de que a comunidade do Leningrado, que está sendo afetada pela suposta falência de uma das empresas que oferecem serviço de transporte público à cidade, estava, naquele exato momento, rebelando-se também. Nada mais ouvi ou li sobre o assunto depois daquele telefonema, mas essa emergência (mesmo que fosse fictícia, teria ainda valor empírico porque um boato expressa sempre um desejo de forjar realidade) fez com que me aparecesse o problema do sujeito da Revolta do Busão/Revolta Potiguar: estudantes? trabalhadores? quem?

Ao lidar com movimentos políticos, estamos acostumados a procurar depreender deles uma identidade prevalecente, na qual seja possível circunscrever a todos, indistintamente. Essa ficção identitária serve, de certo modo, para dar legitimidade à causa erigida quando de um protesto. No entanto, uma comunidade de estudantes não cessa de ser perfurada por outras formas – e os trabalhadores nunca poderão, por conta própria, guiar-nos à nada. O movimento se constitui na carne que lhe deborda, nesse pipocar de únicos que se associam conforme uma dinâmica de afetações que vai muito além do paradigma identitário. As identidades fraturam-se em singularidades, e cada célula no organismo se assume responsável pela sua própria excentricidade e imanência.

A insurgência de Leningrado – e mesmo a potência para que outras como essa emerjam – representa, aqui, o desmantelamento das sobrecodificações identitárias que produzem como sujeitos da efervescência política natalina os estudantes e trabalhadores. Os pobres, ao movimentar-se, põe a perder a centralidade das categorias higiênicas da classe média (a saber, estudantes e trabalhadores) em relação ao movimento, fazendo espraiar além-bordas a carne de uma insurgência que contém em si mesma o potencial para levar-nos muito além das querelas deste mundo – que já mal se sustém por sobre as fictas, palafictas e estas sobre uma lata – de lixo. O comum na Multidão não se confere nas identidades, tampouco nas causas erigidas. Afirmar isso seria como aceitar que o comum é, como a identidade, um artifício normativo da ordem; ou, como a causa, transcendente a multidão. Proponho, em contrapartida, que sejamos radicais e procuremos o comum-a-todos da efervescência poty naquilo que tem levado as pessoas às ruas: a insatisfação e a vontade de movimento.

Crítica ao Pacifismo Legalista

As polícias instaladas nos levantes para tentar conter os desejos vândalos procuram o que Canetti chamou de “o inimigo interior” – que se esconde nas cavernas da massa, nas zonas obscuras e que, por manter sua diferença em relação aos demais acesa, ameaça a densidade da massa. Se, no ano passado, quando do #ForaMicarla, a diferença sofreu com as tentativas de captura acrítica por parte daqueles que questionaram o caráter festivo dos levantes, desta vez é a ideologia pacifista-legalista que procura inserir no panorama do movimento um fator policialóide normativo. O chefe da polícia vai à tevê aberta assegurar que os danos à propriedade não decorrem da ação do movimento (que é pacífico), mas da atividade subterrânea de grupelhos infiltrados. Na Carta Potiguar, vi mais de um texto sobre a insurgência com a palavra “pacífica” estampada no título, e mesmo o colaborador mais sagaz pareceu querer não se dar conta da captura pacifista. Não entrarei, por enquanto, no mérito da violência (falarei sobre isso mais tarde), porque me interessa falar sobre como deriva da ideologia pacifista-legalista o principal jogo de exclusão engendrado no seio da Revolta do Busão/Revolta Potiguar.

É baseado na metafísica da propriedade e na violência legítima da ordem que as polícias internas investem sua força máxima na contenção dos “vândalos”, passando a discriminar sistematicamente aqueles que, de algum modo, constroem essa imagem. Há relatos de que, no último protesto, uma menina tenha chegado para umx mascaradx e exigido: “tire a máscara!” De certo a pobrezinha caiu no conto dos grupelhos infiltrados e decidiu ela mesma salvar a pátria e as janelas dos ônibus desmascarando os vândalos em potencial. O fato é que a máscara tende a se transformar, desde o ponto-de-vista dos pacifistas-legalistas, na marca de uma diferença inadmissível, que precisa ser exposta e rechaçada.

A contenção da diferença, além de retomar o paradigma da “unidade estratégica”, opera como um imperativo massificante no seio da multidão, porque deseja criar um ambiente de igualdade e indiferença. Acontece que a própria dinâmica dos levantes trai esse imperativo, uma vez que a diferença se prolifera e movimentos aparentemente contraditórios passam a coabitar uma mesma zona. Tanto as flores quanto as pedradas oferecidas à polícia, cada uma a seu modo, realizam de maneira legítima um ataque à ordem. Nem uma forma nem a outra devem vir a ser paradigmática, sob o risco de que retomemos o imperativo massificante – não acho que um cartaz com uma frase ferina seja inválido diante de um chute na lanterna de um ônibus, ou que um carnaval seja menos poderoso que uma ação direta. Ao invés de hierarquizar, elaborando assim uma cartilha e atirando meu estilhaço de deus contra uns em favor de outros, é preferível tentar depreender o comum entre os dois: a violência recuperada e o pacifismo não inerte, embora divirjam quanto à forma, investem contra a ordem como uma arma. Assim é que, onde as polícias da ideologia pacifista-legalista vêem uma diferença a expurgar, é preciso que procuremos observar o que há de comum na trama de singularidades.

EXCURSO: Violentamente Pacífico


a thic quang duc

A dança é uma arte de guerra porque exige “prontidão”, estar atento aos fluxos e contatos, como uma disponibilidade para ser-com. Eu sempre disse que quando a polícia viesse me bater, eu dançaria. Porque se eu não posso dançar não é minha revolução. Há que se diferenciar a ideologia pacifista-legalista de um outro pacifismo, este não-inerte, que ao invés de interditar o movimento como uma polícia, faz da sua não-violência uma arma. Enquanto a ideologia pacifista-legalista nada mais é que obediência à ordem, o pacifismo não inerte é aquele cuja base da ação é a própria desobediência. Quando o corpo percebe que suas rotas já não precisam ser aquelas previamente editadas, o complexo da ordem se põe a perder porque, afinal, a soberania do uno depende inteiramente da tácita submissão da multiplicidade aprisionada que se deixa governar por ela. O pacifismo não inerte e desobediente é aquele que realiza o êxodo abissal, a fuga desabalada pelas noites geracionais de novos mundos; aquele que se desgarra. Mas esse desgarrar, ele próprio não é inteiramente pacífico, pelo contrário: o governo do uno não vai deixar que as crianças abandonem o playground; o rei, que era nosso amigo, na nossa fuga de pasárgada, vai mirar seus canhões contra nós. Dancem, dancem ou estamos perdidos. Porque quando a guerra nos ameaça, precisamos nós também nos armar. Mas que armas usar contra um pelotão de cães de guarda munido de gás de pimenta, bombas de efeito moral, tiros para o alto, balas de borracha e escudos? Pedras e poemas! Penso ser possível, através de uma crítica das armas, recuperar a violência e reimaginá-la – fazer brotar de chernobyl a possibilidade de armas criativas, que redirecionem a violência, recuperem-na de seu potencial exclusivamente negativo. Do mesmo modo, há que se recuperar o pacifismo – resgatá-lo das sobrecodificações que dele se apossam a fim de reconhecer que a não violência como atitude para com a vida se vê diante de uma crise inevitável: como pretender a oposta simetria a uma violência ordenadora já sem precedentes? Como ser pacífico para além da passividade e do inativismo?

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Sandra S. F. Erickson 27 de Setembro de 2012 21:10

    Extremamente vem escrito, além de poético, esse é um dos textos mais lindos e inteligentes que li em muito tempo! Lembro que movimentos pacíficos são tbm de disobediencia civil. Obrigada por essa jóia e, ah, como gostaria de ter o poder (sim que brega, não é?) de fazer com que todos o lessem….paz, poesia & força sempre, s.

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