Quem é que diz o que é loucura ou não?

Por Ana Cosby

Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura.
Aristóteles

Desde a antiguidade, de alguma forma, a crença corriqueira sempre investiu o louco com uma aura do desvalido, o desconsiderado, o que vale menos. A loucura encerra em si o estigma do “menos” ou então, no mínimo, do exilado, do apartado, no entanto, muitos loucos vem trazendo à humanidade uma série de grandes feitos. Podemos citar desde Vincent van Gogh até Artur Bispo do Rosário (foto), olhando apenas para as artes plásticas, sem contar a poesia, literatura, ciências e aí por diante.

Quem é que diz o que é loucura ou não? A loucura é um conceito etnocêntrico, para começar. Encerra uma gama muito ampla de distúrbios de ordem comportamental pautados em uma análise médica, ocidental e de caráter extremamente temporal. Todo e qualquer individuo que não se enquadra nos padrões de comportamento tacitamente estabelecidos são rotulados de “loucos”, daí à institucionalização (trancafiamento em uma instituição psiquiátrica) é um pulo.

O louco, como o arcano número 1 do Tarot, é aquele que anda próximo ao abismo, sorri e ignora ele, porque muitas vezes o mundo interno é tão rico, que o externo pouco importa, daí o que se chama “fuga do juízo de realidade” que é o que tecnicamente vai estabelecer que o “louco” possa ou não conviver com a sociedade. A perda do juízo de realidade implica necessariamente em alterações do pensamento, os quais segundo Dalgalarrondo (2008) podem ter uma distinção que vai do erro simples (distorções) a patologia em si (delírio). Disto, é preciso distinguir os fatores relativos às crenças do sujeito que envolve diretamente sua cultura, juízos de valor (valores morais, preconceitos, sexismo etc), superstições, ideologias, posições religiosas. Portanto, um conceito relativo.

Eu tive a oportunidade de conviver com a esquizofrenia através de Quinca, uma esquizôfrenica que foi minha cunhada. Nunca vou esquecer da vez que o meu sogro faleceu e coube a mim acompanhar a Quinca neste dia, pois todos estavam ocupados com coisas da realidade e alguém precisava ficar com a Quinca. Muitos dos filhos que por meses não apareciam para ver o velho pai choravam o morto com exortações ao tempo passado ou absolvições e confissões tardias que aliviavam a culpa. Lembro-me de levar a Quinca para minha casa pois a casa estava em polvorosa e a “louca” poderia descompensar. Quando estávamos no trajeto pela cidade dentro do carro ela olhou o céu e disse, em pleno dia de sol, “Nunca vi o céu tão cinza, mas o bom é que os temporais choram do céu e depois passam.” Ou seja, na loucura da Quinca ela conseguiu metaforicamente, melhor que ninguém, definir a situação. Essa foi apenas uma das tiradas “de louca” da Quinca. É claro que quem já conviveu com um doente mental ( não gosto deste termo) sabe que os momentos de surto são de extremo sofrimento, tanto para o doente, quanto para família que prefere muito mais ter apenas um membro tido como doente que assumir-se inteira doente. Não existe um doente, existe uma família doente que necessita conviver com a desabilidade de lidar com a realidade, em seus diversos níveis de consciência e ação, sendo neste caso o conceito de saúde e doença absolutamente semânticos.

Toda a vila medieval venerava a figura do louco, era tido quase como divino, pela liberdade de expressão incoercível que a loucura confere. Podemos aqui citar, por exemplo, Quasímodo de Vitor Hugo entre tantos outros loucos da literatura. Agora resta perguntar, afinal, quem é o louco? O que se liberta dos grilhões dos conceitos pré-concebidos ou quem se amordaça em prol de uma convivência social doentia?

Eu, como poeta, médica e “louca no armário”, só posso citar o dito popular: “De médico, poeta e louco, todos nós temos um pouco.” Alguns, porém, têm muito e, como somos seres humanos, nossos loucos não nascem em árvores, geralmente nascem em uma família também enlouquecida em uma sociedade mais ainda. Porém, é muito mais fácil estigmatizar o louco e trancafiá-lo em grades, tanto materiais quanto medicamentosas, que assumir-se parte do processo e tentar engajá-lo na vida apenas como alguém que tem a capacidade de pensar diferente.

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