Quem “entende” ditaduras, deve ler “Sussurros”

Por Elio Gaspari
FSP

Um livro que mostra o cotidiano da Rússia durante o stalinismo, do sonho coletivista ao terror

CHEGOU ÀS LIVRARIAS “Sussurros – A Vida Privada na Rússia de Stálin”, do historiador inglês Orlando Figes, autor de “A Tragédia de um Povo”, de longe a melhor narrativa da Revolução de 1917 e da implantação do bolchevismo.

O título diz tudo, é a história de uma sociedade que viveu aos sussurros. É um livro que serve como advertência para quem “entende” ditaduras. Um pedaço da elite intelectual do século 20 “entendeu” o stalinismo, outro, menor, “entendeu” o maoismo. Ainda hoje há quem “entenda” o castrismo e o regime iraniano.

Figes é um historiador do calibre de Simon Sebag Montefiore (“A Corte do Czar Vermelho”). Tira seus livros de documentação recentemente descoberta e traz de volta para a história personagens que, à época, não valiam um sussurro. (Se ele não tivesse se metido na baixaria de derrubar o trabalho de outros autores com mensagens anônimas na internet, seria possível dizer que tem a elegância de Montefiore, mas ela lhe falta.)

“Sussurros” é um mergulho no cotidiano de um regime totalitário. Suas primeiras páginas dizem tudo. Contam a história de Antonina Golovina. Aos oito anos, ela foi mandada com a família para a Sibéria. De volta, entrou para a Juventude Comunista e trabalhou durante 40 anos no Instituto de Fisiologia de Leningrado. Casou-se duas vezes e não contou seu passado aos maridos, muito menos à filha.

Um deles também não lhe contou que seus pais haviam sido presos. O outro só no anos 90 revelou-lhe que passara pelo Gulag. Eles foram pedaços de um país onde uma pessoa em cada 1,5 família foi perseguida. Golovina pertenceu ao Partido Comunista até 1991, quando ele foi dissolvido. São essas tensões que fazem de “Sussurros” um grande livro.

Sua descrição da metamorfose de uma revolução coletivista num regime totalitário a partir da supressão das individualidades e da doutrinação da juventude conduz o leitor de tal forma que, a cada volta do parafuso, ele é até capaz de “entender” o que sucedia.

A primeira ekipekonômica do bolchevismo morava num conjunto residencial, com banheiros, cozinhas e refeitórios comunitários. Figes publica uma comovente carta com a história infantil do gato Shammi, escrita para a filha pelo economista Nikolai Kondratiev, autor da teoria dos ciclos que leva seu nome. Estrela da equipe de Lênin, ele estava preso e, quase cego, foi fuzilado em 1938.

O historiador manuseia habilmente narrativas e explicações: “O terror foi a inspiração e não a consequência do Plano Quinquenal” (Era o festejado projeto de industrialização acelerada de Stálin).

“Sussurros” detém-se na trajetória do jornalista e escritor Constantin Simonov (“Os Vivos e os Mortos”), um herói do trabalho socialista. Simonov foi uma das grandes estrelas do jornalismo de sua época. O aparelho que o exaltava não conseguia trabalhar direito com outro repórter, Vassily Grossman, cuja esplêndida biografia (“Um escritor na Guerra”), foi editada no Brasil.

Infelizmente, até hoje nenhum editor nativo interessou-se pelo seu romance “Vida e Destino”. Mikhail Suslov, o ideólogo da URSS pós-stalinista, disse que ele não poderia ser publicado em menos de 200 ou 300 anos. É uma joia da literatura da Segunda Guerra.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 25 de Agosto de 2010 10:40

    Amigos e amigas:

    É muito importante discutir criticamente a experiência do Stalinismo e toda a Revolução Russa, que começa plural e termina no que a Rússia é hoje – Capitalismo com enorme poder de Máfias..
    Sinto falta de uma discussão, no comentário de Gaspari: a URSS, em nome do Socialismo e com procedimentos extremamente autoritários, foi muito bem sucedida na implantação do… Capitalismo na Rússia (não é à toa que Stálin defendeu com unhas e dentes a introdução do Taylorismo nas fábricas soviéticas). Como a China o faz hoje. Dá até a impressão de que a disciplina feroz imposta à população garante salários baixos e submissão dos trabalhadores, em nome de sua hipotética-futura-quem-sabe libertação. Triste fim.
    Mas Polyanna e Anne Frank nos ensinaram: as coisas podem melhorar. Se não tivermos essa esperança, melhor seria nem insistir em viver.
    Abraços:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP