Quem não ama Zé Pilintra?

Há algumas semanas eu vi uma imagem que ficou reverberando na minha cabeça: havia uma estátua de gesso do Mestre Zé Pilintra; um garotinho de aproximadamente cinco anos estava abraçando-a com um sorriso amoroso. Senti tanto amor naquela cena, que passei semanas refletindo: e se aprendêssemos a amar e respeitar as entidades da Jurema Sagrada desde cedo? Sim, estou usando a palavra “aprender”, porque somos seres sociais e tudo que sentimos e o modo como percebemos tudo ao nosso redor é construído socialmente.

Crescemos tão imersos em uma cultura judaico-cristã, que amar ou mesmo ser temente ao Deus cristão é algo esperado de nós. Mas quando pensamos nas entidades do Candomblé, Umbanda, Jurema e demais religiões de matriz africana, muitas vezes sentimos medo. Não no sentindo de reconhecer seu poder, mas como algo demoníaco.

Quando vi o amor daquela criança pelo mestre Zé Pilintra e a intimidade com a qual abraçava a imagem, deduzi que muito provavelmente sua família vivencia a Jurema e a narrativa compartilhada distancia-se completamente daquela disseminada pelo colonizador.

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Gosto, particularmente, dessa imagem porque me senti representada ao vê-la. Ao frequentar as giras no terreiro e perceber a presença do Mestre, aguardo ansiosa e feliz a sua aproximação. Enquanto a maioria o cumprimenta com seriedade, eu o prendo por alguns segundos em um abraço apertado e recíproco, enquanto sussurro: “Eu te amo”. Nunca fui reprendida por Ele, porque não se trata de falta de respeito. Bom, talvez seja uma quebra de protocolo, porém Ele sabe quanto amor está envolvido. E se nossa relação com nossos/as Mestres/as, caboclas/os, ciganas/os e demais entidades da Jurema fosse sempre assim?

Apesar de Seu Zé Pilintra não ser meu guia, o tenho como um amigo mais velho querido, a quem reverencio, respeito e sou grata pelos cuidados constantes. Que possamos todes, independentemente de religião e guias espirituais, manter uma relação íntima de confiança, amizade e respeito com quem zela por nós. E, para quem não é de axé, experimente exercitar a empatia, e não fazer uma leitura equivocada daquilo que desconhece, afinal, só tem autoridade para falar das nossas vivências no terreiro quem já pisou em um.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. DG Ramos 13 de maio de 2021 18:18

    Seu Zé é amigo demais! Salve zé!
    Respeito a malandragem!

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