Quem não pula quer migalha!

O que se convencionou chamar #FORAMICARLA foi, na verdade, a apropriação de uma potência Insurgente de Multidão e a conseqüente transformação dessa potência numa Força-zumbi; a conversão de uma Multidão (multicolorida, plural) em uma Massa (cinzenta, uníssona) por meio da unificação das posturas e dos discursos, por meio de uma est/ética fascista (bordas éticas delimitando a aparência de cordeiros mansos) afirmada sobre o movimento. Nesse sentido, erra quem aponta como marco inicial do movimento a insurgência de 25 de Maio – quando cerca de mil e quinhentas pessoas avançaram rua em Natal.

O que ocorreu em 25 de Maio de 2011 não foi o primeiro protesto do #FORAMICARLA, mas, a despeito do pretenso pretexto, uma insurreição espontânea (como indício disso vale lembrar que a movimentação começou na hora marcada com nem cem pessoas e foi aglomerando gente que vinha do trabalho, da faculdade, que parava para tomar uma cerveja, que soube na hora e decidiu sair de casa) e por isso prenhe de discursos plurais e de um sem-número de pragmáticas, micropolíticas diversas, que extrapolam em muito os limites que as palavras-de-ordem e os gritos-de-guerra pressupõem. Se o que se estava gritando era #FORAMICARLA, o que retumbava nos peitos não era o desejo de destituir a prefeita de seu posto, mas a experiência rebelde de liberdade – que é perfeitamente intraduzível em palavras-de-ordem e gritos-de-guerra.

Todos esqueceram de que, muito antes do acontecimento de 25 de Maio, houve, ainda em Fevereiro deste mesmo ano, um “protesto unificado” (que reuniu sindicatos, representantes de cursos universitários, partidos de esquerda, …, enfim: não pessoas, só entidades). Nesse tal protesto, ao qual me referi no texto “Comunistas Querem Sair do Vermelho”, os fantoches das entidades já cantavam “quem não pula quer Micarla”, e ali já estava mais ou menos estruturado o discurso do #FORAMICARLA – voltado para uma concepção de poder centralizado na prefeita, objetivando não a potência livre de revoluções micropolíticas que a insurgência espontânea de 25 de Maio trouxe consigo, tampouco a redefinição do modelo democrático com vistas a uma estrutura onde a participação política superasse a representação política (propósito muito mais afim à liberdade que o impeachment da prefeita), mas sim uma luta que visava somente mover as peças de lugar sem alterar o tabuleiro.

É exatamente esse o problema dos partidos: eles estão ligados à manutenção da macroestrutura política, dentro da qual eles se inserem. Mas é essa macroestrutura que possibilita toda a teia emaranhadíssima de macro e microcorrupções. O que tem de ser desviado, portanto, não é propriamente o “representante”, a prefeita Micarla de Sousa, mas a estrutura da qual ela depende, o poder de representação política que lhe é conferido.

Luta-se contra a corrupção, não obstante engendrem-na dentro dos corpos. Parece irracional. Não?

[Aqueles que curtem um conforto, vão pensar que eu estou pensando em Ideologia como o sistema simbólico outorgado pela classe dominante para o exercício de sua dominação perante as outras classes, mas eu não. Imaginem que eu concordo com Alípio e penso em Ideologia como um fenômeno ligado a todo o processo de estruturação do simbólico, requerido sempre que se tenta atribuir à construção humana um sentido de imutabilidade, eternidade, natureza.]

A potência expoente do 25 de Maio estava na possibilidade de mutação existencial coletiva, na possibilidades de alterar, em alguma medida, as pragmáticas existenciais. Houve ainda outra experiência de pico, na seqüência do 25 de Maio, uma semana depois.

A moção ganhara força, dado o estardalhaço nas redes sociais, e as ruas haviam sido tomadas por mais uns 2.000 manifestantes. Lembro de um cartaz bem-humorado, que devia ter sido encontrado no meio da rua, com uma mensagem absolutamente dissonante do clima de protesto, levantado por umas cinco figuras, todas alegres, curtindo. Bebeu-se cerveja em meio ao furor político rebelde. Palavras-de-ordem, gritos-de-guerra…: meros acessórios. Pau e Lata ecoou. Lembro de ter fotografado manifestantes cobertos por máscaras ou panos por tê-los achado bonitos. Para andar dos arredores do Machadão, cruzar um viaduto sem carros, fotografar automóveis nas abissais, subir a passarela do Via Direta e ter a visão de uma cidade engarrafada, quase beijei um cara porque era justo que a “minha luta” não me fosse um peso nas costas, uma maldição, mas uma experiência de ecstasy.

Logo a moral e os bons costumes foram acionados. Os jornais sensacionalistas aludiram ao caráter pouco responsável do movimento haja vista o consumo de álcool durante a manifestação. A repórter Sara Vasconcelos, por exemplo, da Tribuna do Norte, em seu emblemático texto publicado na data do segundo levante onde ela “imparcialmente” (HAHAHAHA) falava mal da descentralização do discurso e do caráter festivo da passeata, chegando a cometer a bizarríssima gafe de confundir a palavra-de-ordem “O Egito é Aqui!”, que estava escrita numa faixa, com o carnatalesco trocadilho “O Agito é Aqui!” (essa vai para os anais…). Mas não foram apenas os jorna(l)is(tas) sensacionalistas que contribuiram com o sermão, os analistas políticos locais logo desataram a falar sobre a necessidade de definir as proposições do movimento, no sentido de fortalecer seu discurso, considerando o risco eminente de desmobilização por falta de organização e unicidade. A idéia de uma insurgência plural, livre, descentralizada começara a ser rejeitada. Arava-se o terreno para fazer brotar as ervas daninhas pseudo-revolucionárias/contra-revolucionárias.

Quando a moral e os bons costumes foram acionadas, a necessidade de organização de um discurso uníssono suscitada pelos influentes blogueiros/analistas políticos/intelectuais ativistas, ajudou a instaurar a necessidade de controle dessa potência que estava preenchendo o vazio das ruas. Dessa pretensa necessidade, inventada no seio do sutil conservadorismo latente na sociedade como um todo, decorre a apropriação da Potência de Multidão pelos pastores de partidos políticos. Essa apropriação não configura o domínio objetivo de uma bandeira perante as outras; também não cabe a caricatura de homens-de-partido programando mentalmente cada indivíduo do rebanho. Se formos um pouco sensatos, não será difícil compreender como essa apropriação da Potência de Multidão pelos partidos políticos – tendo como conseqüência a conversão dessa Multidão em Massa – resultou na falência do movimento.

Ora, ao escantear o apartidarismo, o movimento, que lá pelas tantas deu de acampar na Câmara dos Vereadores, exigindo a execução de uma Comissão de Investigação contra a Prefeitura, assumiu uma postura suprapartidária. Esse termo novo empregado ao Coletivo me parece que se configura a partir da afirmação de um interesse superior aos interesses específicos de cada partido, o que faria com que todos os partidos envolvidos deixassem de lado suas demandas específicas em prol de uma luta conjunta por um objetivo maior. O que nem os colegas da Carta Potiguar se deram conta é que mesmo o suprapartidarismo pressupunha uma organização do movimento pautada pelos cânones da política partidária, e, portanto, (pautada) por uma ética castradora da ética da multiplicidade constatada nos levantes de 25 de Maio e 02 de Junho.

Se o discurso unificado do #FORAMICARLA pedia o impeachment da prefeita ou a transformação do Palácio Felipe Camarão num zoológico para a cidade, tanto faz. Tanto faz porque é propriamente na unificação do discurso, ignorando-se assim as diferenças constituintes do todo, que começa a operar a conversão daquilo que era uma Multidão disposta a parar a cidade numa Massa cantando em coro a mesma palavra-de-ordem, sem desafinar, bonito, todo mundo junto. Conforme Negri e Hardt, “a Multidão é como uma rede aberta e em expansão, na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente, proporcionando os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum, com a ressalva de que isso não quer dizer que todos se tornem iguais.” E nas massas: “não se pode apontar quais dentre os diferentes sujeitos sociais formam as massas, pois a essência das massas é a indiferença: todas as diferenças são submersas e afogadas nas massas. Todas as cores da população reduzem-se ao cinza. Essas massas só são capazes de mover-se em uníssono porque constituem um conglomerado indistinto e uniforme”.

Se o apartidarismo era livre, alegre e plural (como 25 de Maio e 02 de Junho); o partidarismo assumido trazia um tom cinzento, monótono e unívoco a tudo (como 24 de Fevereiro). Ia-se embora o caráter orgiástico de toda insurreição e voltava à cena o tipo de excitação mórbida que parecia transformar cada manifestante num mártir social, num retrógrado herói político sofrendo as injúrias de um sistema que ele mesmo engendra. Era necessário dar de si uma responsabilidade tal que mantivesse o rebelde na linha, consonante à massa que compõe. Veja só que absurdo: uma massa de rebeldes educadinhos.

Se em 25 de Maio e 02 de Junho se experenciou algum tipo de liberdade, esta passou a ser regulada e vigiada pela polícia ética do movimento. A est/ética da rede, que servia de slogan para o movimento, conforme eu mesmo mostrei no meu texto “O Sagrado, eis o inimigo”, na verdade constituía só mais um delírio facilmente contestável. Se na internet somos “livres” para escolher fazer o que a gente bem entender (desde ser bonzinho até ser troll), no #FORAMICARLA não se pôde ser livre a tal ponto, pelo contrário, os limites eram declarados: tratava-se de uma manifestação pacífica e ordeira. Além disso, dizia-se da ação que extrapolasse esse cordão ético uma agressão ao movimento como um todo, ou seja, a conseqüência do ato realizado por um indivíduo diria respeito ao todo, o que também não confere com o modo pelo qual as coisas se dão na internet e nem com a idéia da autogestão. Não consigo acreditar que esses limites tenham sido colocados aí de maneira efetivamente horizontal, acho possível que a maioria dos envolvidos tenham querido andar dentro da corda do pacífico e do ordeiro, mas precisamos refletir com cuidado sobre uma ordem na qual a maioria subjuga o resto à sua vontade unívoca (também devemos refletir com cuidado sobre uma maioria com vontades unívocas), porque isso nada tem a ver com a autogestão suscitada pela internet e apropriada pelo discurso marketeiro do movimento.

Transformada a Potência Insurgente de Multidão, que estourou espontaneamente em Natal em 25 de Maio de 2011, numa luta institucionalizada e antiquada, uma Força-zumbi guiada por uma cartilha redutora da pluralidade que a possibilitou, não é estranho que a força do movimento tenha se convertido num tipo de cansaço, numa preguiça social. Contribuiu para isso também a ilusão de que conseguir que a Câmara instaurasse uma Comissão Especial de Investigação contra a prefeitura teria configurado uma vitória do movimento, que, no final das contas, nada fez senão afogar a multiplicidade para depois nadar em linha reta, deslumbrado, até morrer na praia. Se em 25 de Maio e 02 de Junho pôde-se viver uma insurreição com desdobramentos efetivos na vida das pessoas, o que se viveu depois, na apropriação do movimento pelas forças retrógradas dos partidarismos, foi a Morte de Baleia: numa sombra, delirando preás enormes, gordos, suculentos, mas que não podem matar a fome.

Comentários

Há 11 comentários para esta postagem
  1. Tiago Aguiar 20 de outubro de 2011 9:55

    Caro Daniel.

    Não estou desqualificando com quem debato, nem utilizando argumento de autoridade. O fato é que a práxis dentro do acampamento foi suprapartidarismo, autogestão e horizontalidade. O PT não poderia levar um carro de som, pois a plenária popular não aceitaria. E isso nunca foi deliberado. Lamento se a minha escrita pareceu agressiva, não foi a intenção.

    Com relação a crítica à UJS, concordo inclusive com se aparte, mas durante a ocupação do Palácio Padre Miguelinho apenas um militante daquele grupo esteve presente, e não criou problemas.
    ________________________________________________

    Caro Mombaça:

    Um texto muito interessante para compreender o que houve na Câmara Municipal durante a ocupação foi escrito por um comentarista aqui deste texto seu em tela, o Bruno Cava, que nunca esteve na CMN. Ele o faz quando escreve sobre o 15 O:

    “Formou-se uma assembléia. Umas duzentas pessoas. No chão, cartazes derramados. As pessoas vinham ao centro e falavam. Qualquer pessoa. Falavam de descontentamento, indignação, impulso de fazer diferente, mudar o mundo, elas brincavam, erravam, dançavam, batucavam, alguns desinibidos, outros sem graça. Ali falaram gente-da-internet, gente-das-artes, gente-da-zona-sul, gente-da-militância, moradores dos morros do Chapéu-Mangueira e Babilônia, ativistas de squats, professores, estudantes, midialivristas, de tudo um pouco, inclassificáveis no conjunto e nas relações desenvolvidas. Havia vários negros, havia pobres que falavam a linguagem assim materialista, que chama as coisas pelo nome, uma outra relação pessoal com os objetos, as mãos, o espaço. As pessoas falavam e as pessoas escutavam, sem muita disciplina. Jamais anarquistas: auto-organizadas.

    (…)

    No começo, havia um grupo do PSTU. Uniformizado, bandeiras, slogans do udenismo esquerdista anticorrupção. Grotesco. Ofereceu megafone e se pretendeu conscientizar. Mas algumas pessoas foram lá e pediram pra que saíssem. A forma não estava condizente. Aí o movimento em estado fetal já deu o primeiro recado. As formas da representação não são toleradas. Gente-de-partido pode, mas não venha com fidelidade partidária ou palanque eleitoral, para se apropriar com mídia. Tampouco é caso de partidofobia. O movimento não se pauta por isso e não é pluralista para aceitar tudo. Não há relativismo nem chapa-branca. Quase toda a diversidade de conteúdos bem-vinda, mas dentro de certa forma do emergente ciclo de lutas. Isso ficou ainda mais claro nas falas e debates. Se o desejo é reprogramar o sistema, não pode começar adotando seus próprios algoritmos: a forma-partido, as eleições, a fidelidade aos mandatos, a grande imprensa. Todo o ímpeto das acampadas e mobilizações globais está em inventar a democracia real como resposta à democracia formal.”
    http://www.quadradodosloucos.com.br/2002/mao-tse-tung-caminhava-na-chuva/

    Não falo que o PSTU registrado em tela pelo Bruno Cava seja o de Natal, que não me parece uma figura tão grotesca. =)

    Foi uma pena a maneira relâmpago que Mombaça
    __________________________________

    Caro Mariano e Bio Panclasta

    O POR (Partido Operário Revolucionário) primeiro abandonou as lutas. Depois foi ao acampamento com uma carta ridícula atribuindo a direção do movimento ao PT e ao PSTU. Saíram da CMN com umas 50 pessoas os seguindo aos gritos de “pelegos”. Se isso não é ser expulso, me dê qual é o nome.

    Eu disse que eles foram expulsos pelos anarquistas, pois antes de todo o acampamento gritar “pelegos” em sua saída, eles tentaram pegar o microfone para falar, e disseram que os partidos estavam os censurando.

    Daí anarquistas e apartidários impediram que o POR pegasse o microfone, disseram que não tinham partido, e que na verdade o POR com aquela carta desrespeitava o movimento.

    Eu falo isso pois neste dia eu estava na CMN e foi gravado tanto o Daniel Pessoa (advogado do movimento) falando sobre o habeas corpus, quanto a oficina do Pau e Lata, interrompida pelo POR, até a saída deles aos gritos de pelego.

    Saudações fraternas

  2. Bio Panclasta 19 de outubro de 2011 15:04

    Todas as observações são muito boas. Entretanto, apenas um comentário me chamou a atenção em particular: A de Tiago Aguiar – ele disse que “o POR foi expulso pelos anarquistas”. Sou anarquista, mas o POR não foi expulso pelos anarquistas. Primeiro porque eles não foram expulsos, eles mesmos se retiraram de livre e espontanea vontade, pois – imagino eu – que eles não conseguiram impor sua polítca de partido. Isso fez com que eles não se sentissem mais a vontade dentro da ocupação e sairam foram. Depois porque os anarquistas não tinham poder para expulsar qualquer partido. Lembre-se o movimento era horizontal – tudo era decidido por todos. Então, como os anarquistas expulsaram o POR? Se tudo era decidido coletivamente, se eles eram para ser expulsos, que fosse uma decisão coletiva. Não sei porque o Tiago Aguiar colocou essa afirmação, talvez ele tanha se confundido. Mas repito, nenhum anarquista tinha poder de expulsar nunguém!

  3. Bruno Cava 19 de outubro de 2011 13:23

    Gostei muito do texto e dos insights.

    Mas eu faria a ressalva quanto a “apartidarismo”. Dá a entender que tudo o que se passa no partido é descartável. Que é indiferente, todos são iguais, e aí há o risco de igualmente cair nesse sentido de ideologia. Penso que, na verdade, o partido seja uma forma tendencialmente vazia, uma estrutura de captura, mas dentro dele, ainda assim, haja vida e produção, que ali acontecem por falta de alternativa. Pelo menos, em alguns partidos.

    Exceção à pessoa mais aparelhada, a maioria das pessoas filiadas não se subjetiviza exclusivamente pelo imaginário do partido. Também há lutas reais. Acho que elas acabam doando potência vital e diferença constitutiva à vida partidária, menos do que o inverso. Assim, ainda há circuitos produtivos que atravessam essa forma-partido, embora nela haja uma força grande de neutralização (pelos mecanismos da representação).

    Se o movimento do 15-M traz o novo, não está em simplesmente substituir o velho, mas reorganizá-lo. Quero dizer, reorganizar a produtividade que atravessa os partidos de modo mais potente, indo além dessa forma, das malhas da representação e da política normal. Isto significa reagenciar as pessoas que são filiadas e participam de partidos, numa nova subjetividade mais livre e desprendida. O ponto de subjetivação está no movimento das lutas reais, mais que nos aparelhos e na lógica eleitoral.

    Daí a apartidário eu preferir o termo suprapartidário ou, com mais pertinência, transpartidário. Admite que dentro da vida de alguns partidos (ainda) há vida e devir, e que justamente por haver, é preciso reorganizar a política além dessa forma, impactando-a, o que vai além de fidelidade partidária, da tendência à torcida de futebol, identitária e tribal.

    Por isso, acho que toda a mobilização global de 2011 recusa a forma-partido, mas não simplesmente desprezando-a como um todo e em gênero, mas fazendo de tudo pra que essa forma — assim como outras capturas — seja implodida, de fora pra dentro e de dentro pra fora.

    De qualquer forma, as velhas dinâmicas de partido têm muito mais a aprender com o 15-M e a Praça Tahrir e as acampadas do que o inverso.

  4. Bruno Pastel 15 de outubro de 2011 22:57

    Concordo muito com o conteúdo desse texto, me sinto bem contemplado sobre a análise desses acontecimentos “espontâneos” dos quais uma massa natalense foi protagonista…

    importante também o destaque que o autor da para o papel nocivo da aparelhagem partidária sobre o movimento e que para mim servirá ainda para provável punhetagem para o ano eleitoral que vem …

    ótimo texto Jota!

  5. Claudio 14 de outubro de 2011 20:35

    Cada um se vale dos argumentos de autoridade que pode lançar mão; um a teoria e outro a práxis, a vivência prática. Ambos desunidos estão equivocados. A pretensão intelectualista do intelectual não é menos equivocada e nociva do que a ingenuidade militante e seu culto ignorante da práxis.

  6. Mariano Lúcio 13 de outubro de 2011 16:42

    o POR não foi expulso, eles abandonaram a luta, o que é totalmente diferente… Por isso os gritos dos anarquistas – e dos petistas também viu?! – de pelegos para eles, não pq estavam expulsando-os, mas pq eles estavam pelegando mermo

  7. Daniel Menezes 13 de outubro de 2011 13:41

    Tiago,

    01. Durante a ocupação membros do PT estavam com um carro de som sim… Eu mesmo presenciei a situação que foi por mim relatada. Isto não significa dizer que eu esteja defendendo a tese do aparelhamento. Em nenhum momento disse isso.

    As vezes é tentador pintar o oponentes com cores fracas para depois ficar mais fácil de apagar.

    02. A UJS tentou sim, na reunião que se iniciou no machadão, se apropriar do movimento. Presenciei também algumas pessoas argumentando sobre o revês que o movimento poderia sofrer ao fechar o trânsito da cidade no horário de pico. Eles fizeram que não ouviram, não argumentaram e correram para o meio da rua para liderar o movimento. Tanto que muita gente foi para casa chateada com a situação.

    “Um detalhe importante, e que tanto o Daniel Menezes quanto o Mombaça não possuem conhecimento, é a respeito da praxis dentro do acampamento”.

    Que afirmação contra-argumentativa e autoritária?! Quer dizer que só pode falar do acampamento quem dormiu lá e passou um mínimo X de horas a ser institucionalizado por alguém?

    Por diversas vezes estive por lá. No entanto, ficava na minha e depois ia para a minha casa. Não procurei holofotes como alguns fizeram. E ainda que não tivesse ido, poderia sim emitir uma opinião sobre o assunto, direito que uma esfera pública minimamente democrática permite.

    Quanto ao POR… eles, sim, procuraram holofotes… presenciei algumas vezes os meninos desse movimento, tentando criar confusão com os demais presentes, que em inúmeros momentos os ignoraram.

    Alias, as cartas escritas pelo POR foram um dos meios pelos quais a prefeita e sua equipe começaram a deslegitimar o movimento.

    Debate se faz ouvindo e argumentando, caro Tiago, e não tentando atacar a fonte emanadora de argumentos.

    Que coisa mais tosca.

  8. Tiago Aguiar 13 de outubro de 2011 9:31

    Caro Daniel

    Não discordo de seu texto, mas existem dois aspectos que devem ser elucidados.

    A UJS participou dos movimentos de rua, mas durante a ocupação na CMN possuiu apenas um militante acampado. O problema que houve durante os atos de rua, não existiu na ocupação com este grupo político.

    O carro de som disponibilizado no 2º ato de rua, o foi pelo sinsenat, sindicato dos servidores municipais de Natal, mesmo sindicato que forneceu mais de 200 refeições às famílias do MST e do MLB. Acho mais do que natural um sindicato que defende funcionários municipais lutar contra uma gestão que trata funcionário como lixo. E tem gente que trata isso como “aparelhamento”. É a esquerda que a direita ADORA!

    Um detalhe importante, e que tanto o Daniel Menezes quanto o Mombaça não possuem conhecimento, é a respeito da praxis dentro do acampamento.

    Só para exemplificar, o POR (partido operário revolucionário), que atua nos moldes da 4ª internacional, foi expulso por ANARQUISTAS do acampamento aos gritos de “pelego”. Os anarquistas expulsaram o POR do acampamento, pois eles não respeitaram a horizontalidade, a autogestão, e a pluralidade.

    O debate não pode ficar nos campos da ilação, nem do discurso pseudo científico, recheado de referências, mas carente de nexo causal. Espero ter contribuído ao debate.

    Saudações fraternas

  9. Daniel Menezes 13 de outubro de 2011 0:16

    Caro Mombaça,

    legal a tua iniciativa de refletir sobre os sucessos e fracassos do #foramicala.

    Gostaria de esboçar alguns pontos de convergência e outros em que tendo a enxergar de maneira diferente.

    01. Concordo contigo quando você diz que o movimento, em certo sentido, mas não totalmente, conforme ponto 02, foi fruto de um “acontecer anônimo” em que é inútil buscar os líderes, ou os organizadores. Nietzsche, parafraseando Schopenhauer, nos apresenta como é infrutífero tentar encontrar o “ponto zero” dos acontecimentos. Como o #Foramicarla, eles simplesmente emergem (isto não retira a possibilidade de compreender e explicar os fatores que possibilitaram essa emergência).
    02. Ainda que não concorde com o espontaneísmo inerente a noção de potência que você emprega, já que foi possível perceber certos focos de organização do movimento e eles não apareceram apenas no final, o caráter “aberto” foi legal de ver.
    03. E aí concordo contigo quando você afirma que foi uma mudança cultural, não apenas política, tremenda. Algo diferente que ajudará, assim eu torço e espero, a formar novas práticas contestatórias (daí o medo do #foramicarla cultivado, inclusive, por quem não é a favor da prefeita).
    04. O ingresso dos partidos, que eu defendi naquele momento e continuo a defender, foi produzido de modo estabanado. O desespero para se apropriar do movimento foi algo engraçado de se ver.
    O PT, alguns sindicatos, mas principalmente a UJS, não souberam canalizar toda aquela energia. A preocupação era de liderar, de se apropriar. Ao invés de deixarem a coisa correr solta e apenas subsidiar os manifestantes com apoio material (carro de som, gastos com organização, etc) e simbólico, já que o movimento atacava, não apenas, mas fundamentalmente todo um grupo político que derrotou a candidata da esquerda em 2008, se aperriaram para dizer que eles tavam ali liderando.
    Basta lembrar de um momento – para mim o mais patético – em que o PT, que havia disponibilizado um carro de som no momento da ocupação da Câmara, que em tese era para o #Foramicarla, mas que só permitia a fala de membros do PT. Um filiado do partido ficava perguntando e falando no microfone: “O movimento é plural, é plural. Todo mundo pode falar. Quem quer falar?!”. Mas só passava o microfone para membros do PT.
    A tentativa de pautar o movimento foi, sem dúvida, sufocante.
    04. No entanto, penso que a questão institucional não pode ser desconsiderada. Ainda que a gente tente virar as costas para a instituição estatal, ela está interferindo e formando as condições contextuais para desenvolvermos as nossas vidas. O Estado forma, inclusive, a nossa psiquê, conforme Nobert Elias tão magistralmente demonstrou. A influência é direta, constante e infinitesimal. O Estado está tão presente e nós estamos tão acostumados com ele, que ele parece não mais existir.
    05. A política institucionalizada não pode ser simplesmente varrida para debaixo do tapete. Pior. Ainda que a gente queira desconsiderar, a câmara municipal e a prefeitura estão decidindo sobre nossas vidas. Não dá para querer esquecer que é possível também abrir barricadas por esse caminho. Os mecanismos institucionais e sociais mais gerais de disputa não estão em oposição. O #Foramicarla poderia e ainda pode, já que acredito que toda aquela energia ainda não se dissipou – as pessoas tomaram consciência do que são capazes de fazer -, alterar o quadro político da cidade. Em resumo, podemos lutar para alterar práticas, visões de mundo e costumes na sociedade civil, mas também articular uma alteração progressiva das correlações de poder no âmbito do Estado, o que gramsci chamou de sociedade política.
    06. Queria fazer uma rápida análise sobre o que representou a vitória de Micarla de Sousa. Há quem defenda o argumento de que ela não está fazendo nada do que prometeu. Ainda que muita gente tenha criado expectativas em torno da vitória dela, eu não acredito que ela falou uma coisa e fez outra.
    Vamos nos ater aos fatos concretos e não as palavras soltas ao vento. Micarla está cumprindo tudo aquilo que ela havia sinalizado durante a campanha…
    A prefeita atendeu aos interesses dos grupos empresariais que financiaram sua campanha. Ela “agilizou” as concessões para as construtoras, transformando a SEMURB numa secretaria voltada para os interesses do SINDUSCOM.
    A “borboleta” em nenhum momento contrariou as vontades das cooperativas médicas. Basta lembrar que a única vez que uma secretária de saúde, a corajosa Ana Tânia, ameaçou cortar os plantões dos médicos que não iam trabalhar, foi rapidamente rifada.
    Micarla de Sousa foi uma mãe com os empresários de ônibus da cidade.
    E, para terminar, a prefeita pegou parte dos recursos da secretaria de educação, que deveriam ser empregados para proporcionar vagas condizentes para os alunos do ensino fundamental, e “investiu” pagando 12 mil bolsas para alunos das faculdades privadas. Ou seja, Natal tem 7 mil crianças fora da sala de aula e mais outras milhares sem aula pela péssima condição das escolas, ou porque os alunos não tem todos os professores para preencher a grade curricular, mas a prefeita fechou os olhos para o quadro educacional em que o ensino fundamental se encontra, que é de sua responsabilidade, para beneficiar os empresários do setor educacional.
    Micarla, portanto, atendeu aos seus principais patrocinadores da campanha. Está fazendo tudo que tinha a intenção de efetivar.
    Será que Natal tem de ficar eternamente a mercê das elites empresariais e políticas da cidade?!
    Há quem diga no PT, inclusive, que um partido de esquerda só se elegerá para prefeito de Natal, se escrever um manifesto a favor dos empresários da construção civil. Se produzir, com letras garrafais, que se curvará ao SINDUSCOM. Do contrário, eles sempre vão impedir o acesso de uma proposta progressista para a cidade. Será que isso é mesmo verdade?
    Virar as costas para essas questões implica em afirmar nossa própria condição de dominados.

    Caro Mombaça,

    Não podemos naturalizar a ideia de que essas pessoas são invencíveis. E para fazermos isso, temos também que competir no âmbito do Estado.

  10. Tiago Aguiar 12 de outubro de 2011 22:48

    É muito importante haver uma crítica ao movimento social, mas devemos nos ater a certos aspectos que a análise em tela peca.

    Em primeiro plano, erra pelo glamour excessivo ao que Toni Negri chama de ‘indignados’, isto é, a massa que não possui um objetivo, não sabe bem a pauta que demanda. É muito bom haver movimentos parando o trânsito, mas naquela altura o desgaste acabava por atacar muito mais o cidadão médio do que as instituições e os políticos. Havia um princípio de antipatia, e creiam, a população que trabalha horas a fio não é a culpada pelos problemas, não é quem deve pagar.

    Quando da ocupação, apesar de entre os acampados estarem pessoas com filiação partidária, tudo o que ocorreu foi nos moldes da horizontalidade e da pluralidade. O autor faz uma imensa confusão entre o apartidarismo e o suprapartidarismo.

    Neste particular, estar acima da órbita de ação dos partidos é algo que foi efetuado durante a ocupação, mesmo que com a presença de pessoas dos mais diversos movimentos sociais. Haviam pessoas do Canto Jovem, do Consultório de Rua, dos Blogueiros Progressistas, do movimento Hip Hop, Movimento de lutas dos bairros vilas e favelas, MST, e até de partidos políticos.

    O grande pecado é maneira que o autor reduz a inteligência de quem lá esteve e não possui filiação partidária ou a movimento social. É como se os jovens que lá estavam e entoavam versos de Bertolt Brecht fossem zumbis. Não, eles não são zumbis.

    O autor do texto deveria refletir, por exemplo, sobre os movimentos sociais que constituem a primavera egípcia. Embora tenha derrubado o Mubarak, não se obteve a democracia real. Então as ações sociais possuem fluxos e refluxos.

    De outro pórtico, o texto possui a fantasia de atribuir uma dormencia da população a certos atores, como se indignação popular não tivesse uma dinamica e pudesse ser encantada.

    Antes do movimento, e principalmente, antes da ocupação, as irregularidades da gestão do PV não haviam sequer passado por uma investigação. Hoje além de uma ação de improbidade correndo no Ministério Público, há de fato uma CEI funcionando.

    O efeito pedagógico de um movimento social, para uma cidade e para sua população, é algo de grande importancia. Reducionismos podem soar como uma agressão gratuita, mas parecem muito mais com preconceito e falta de conhecimento de causa.

  11. Mariano Lúcio 12 de outubro de 2011 20:54

    gostei da análise desse movimento que ocorreu, porém não concordo a dizer que a ocupação de 11 dias da câmara não tenha sido também um desdobramento efetivo na vida das pessoas que participaram, foram suscitadas discussões, trocas de experiências e uma vivência realmente libertária! houve vários erros que levaram ao adomercimento dessa potência subterrânea rebelde instaurada no coração dos que reivindicaram as ruas e vidas na cidade, vejo com bons olhos a crítica do texto a necessidade de notar que quando há apropriações institucionalizadas [ não que seja necessáriamente partidárias, pois acredito que no caso do #foramicarla, não houve de fato ‘partidarização’ ] mas há de se pensar que talvez, o coletivo que se instituiu, que era aberto, #foramicarla, não atendeu a contemplar a rebeldia, nesse sentido falhou, conseguiu alguns avanços, e angariar alguns mecanismos para o que se propôs – fora micarla, e vejo isso sim, como uma vitória… Mas o que mais reflito sobre o texto e linko com a problematização dos extintores da rebeldia latente que estava-se consolidando no cu do elefante, consoante com toda as manifestações mundiais, questionando, rebelando, destruindo a ordem social da democracia representativa e estamos indignados com a mesma. Tenho certeza que a rebeldia permanece nas 2mil pessoas que organizaram as maiores manifestações – e mais belas – que natal já viu, resta saber como fazer vazá-la, sendo uma força agregante, multifacetada, caótica, e de alma rebelde. Como fazer isso?! é a minha inquietação ao terminar de escrever estas palavras, com um texto como o seu, penso. Fazendo as pessoas questionarem-se o que levou a possibilidade de transformar a vida mecânica da cidade e brincar na rua, curtir o asfalto, com várias pessoas legais, etc… sei que será com alguma zona de tensionamento, seja um aumento de ônibus, uma merda que fira a consciência coletiva, e a faça desacreditar na legitimidade do poder…. que criemos essas zonas de tensão e façamos ela se auto-propagar com uma ressonância magnética que acorde a estrela do caos presente em cada um de nós,
    há braços

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