Quem ouviu a Nina?

Nina

Chico Buarque

Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou…

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Nina Rizzi 15 de julho de 2011 17:38

    CONSTRUÇÃO
    Nina Rizzi

    Imagina só meu caro amigo, que logo eu
    aos doze anos, na flor da idade
    fui um milagre brasileiro.
    Fui uma morena de Angola, dos olhos d’água,
    moça da cidade e violeira na cidade dos artistas
    uma cidade ideal pra minha canção, pra ver a banda passar,
    curtir festa modesta ou a fantasia
    sempre voltando ao samba na ciranda da bailarina.
    Era a moça mais bonita, a moça do sonho,
    na ilha de Lia, no barco de Rosa.

    Dura na queda, desafiei o malandro
    e fiz um casamento de pequenos burgueses num circo místico
    numa noite de mascarados com um novo amor
    (é que não existe pecado ao sul do Equador).
    Mas como o cotidiano é cheio de desencontros, desencantos, desemboladas,
    feito um folhetim de esconde-esconde
    deixei a menina, carioca ou francesa,
    como num samba de adeus,
    pois é, qualquer amor, romance
    é como um retrato em preto e branco,
    samba, agoniza, mas não morre
    a gente fica com tanta saudade
    então como sentimental vamos sempre em frente na roda viva.

    Mas tem mais samba rei de ramos!
    Samba de Orly, tango de covil, valsinha, um chorinho
    sobre todas as coisas daqueles anos dourados!
    sobre o tempo que passou, minha história.
    Não fui uma menina, trocando em miúdos, fui umas e outras
    e pra não dizer mais tantas palavras fora de hora
    façamos a lista do meu sonho de carnaval
    das minhas meninas, las muchachas de Copacabana
    as mulheres que fui:

    Ana de Amsterdam
    Angélica
    Bárbara
    Beatriz
    Carolina
    Cecília
    Cristina
    Geni
    Helena
    Iolanda
    Iracema
    Januária
    Joana
    Leila
    Lola
    Lily Braun
    Luísa e Luíza
    Madalena
    Maria
    Nancy
    Renata
    Rita
    Rosa
    Sílvia
    Teresinha.

    Palavra de mulher! fui todas as mulheres de Atenas!
    uma mulher em cada porto
    com açúcar e com afeto, sem açúcar, sem fantasia, sem compromisso
    de todas as maneiras.

    Mas a minha canção, o meu último blues
    é pra deixar de ser tudo que sou e que fui
    por um sonho (quase) impossível :
    ser Nina.

    E se não puder não sonho mais!
    *

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