Quem sabe explicar o tempo?

Dia desses estava eu a ler um artigo sobre a Teoria da Relatividade, de Einstein.  Mais precisamente sobre sua assertiva acerca do tempo, que diz  “o tempo avança mais devagar num relógio em movimento em relação ao que acontece num relógio em repouso”.

Gosto das considerações sobre o tempo. Científicas ou filosóficas, gosto. E gosto muito de relógios.  Gosto tanto que se pudesse teria uma coleção: relógios de pulsos, relógios de parede, daqueles que as pessoas penduram no bolso da jaqueta (todo mundo já viu isso nos filmes,  não?), de ouro, dos camelôs. E se me perguntarem respondo:  – Colecionaria até relógios de cuco e despertador.  

Mas, voltando ao artigo, não sei se  Einstein tem razão. O articulista diz que sim, que é teoria física. Eu, como não sou física, digo como a maioria das pessoas dizem:  “tudo é relativo”. E vou escrever umas coisinhas sobre minha relação com o tempo.

Quando menina, não parava. Avançava o tempo todo, que nem o relógio em repouso de Einstein.  Eu e os outros meninos e meninas que comigo brincavam no riacho, no açude, na quadra da escola, no campinho de futebol, no meio da rua  ou no meio do mato, simplesmente.

Era tanta coisa prá fazer na meninice que pra gente nunca sobrava tempo. Embora não soubéssemos, naquele tempo, que quando parávamos não era porque estávamos cansados, era porque acabara o tempo .

Pra mim, era a minha mãe que avisava: 

– Já brincou demais, o tempo acabou. Tá na de ir pra escola.  

Outras vezes:

– Já brincou demais, o tempo acabou. Tá na hora de dormir. Foi assim até quando cresci um pouco e ela continuou implicando com o meu tempo.  E, a essa altura, o relógio era sua ferramenta de controle. Olhava pro pulso e disparava. Tá na hora de acordar. Tá na hora de parar de namorar. Tá na hora de entrar. 

Até que, quando terminei o curso científico e me disseram que já era adulta, o relógio e o tempo começaram a substituir as determinações de minha mãe, a parecerem donos do meu tempo, das minhas horas. Aí, se na meninice eu não tinha hora prá nada, na idade adulta passei a ter hora prá tudo. 

Desde então, vivo num embate medonho com o tempo. Logo, num embate medonho, também, com o relógio. Como todo adulto,  já faz muito tempo que parei de brincar com o tempo e passo o tempo todo de olho no relógio.  

É muito horário para  cumprir nessa fase da vida: hora de dormir,  de acordar, de trabalhar, da reunião, de comer, de ir ao médico, de levar as crianças na escola, do curso de capacitação, da missa… Foi na idade adulta que descobri porque inventaram a agenda: porque ainda faltava preencher algumas horas.

É tanto horário para cumprir que às vezes falta tempo.  Ou sobra tempo? Não sei. Também não sei falar sobre o tempo do mundo, sobre outro tempo que não seja o meu. 

Por isso deixo as considerações do físico Einstein e recorro às do filósofo Santo Agostinho, que disse sobre o tempo: 

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente”? 

Ilustração: Lydya Ortiz

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