Quem segue quem?

Por Affonso Romano de Sant’Anna
NO ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

Disseram-me que no YouTube tem um vídeo satirizando os chamados seguidores do Facebook, do Twitter e dos blogs. Uma pessoa vai andando atrás de outra na rua e pergunta se pode segui-la. Uns acham estranho, outros concordam. Procurei esse vídeo, mas não o encontrei: ou não existe ou se dissolveu na nuvem.

Mas a ideia é instigante. As pessoas não gostam muito de serem seguidas fisicamente, mas adoram ser seguidas virtualmente. Pessoalmente é ameaçador. Vejam esse cantor canadense Justin Bieber. Multidões de adolescentes histéricas surgem diante do hotel em que ele se hospeda, hordas de semicrianças esperam até uma semana na porta de um estádio para ver e seguir o ídolo. É quase uma cena de canibalismo virtual. Se ele facilitar, é devorado. Por outro lado, se fizesse como aquele ditador do Haiti, que ordenou que os soldados se jogassem num abismo, a multidão se precipitaria no vazio celeste como os extremistas de Alá, que se matam ingloriosamente.

O termo seguidor pode se converter em perseguidor. O fã e o crente seguem e perseguem. A internet está cheia de comerciais incentivando as pessoas a seguirem miragens de todos os tipos, ensinando a ganhar seguidores e clamando: “Quero seguidores”.

Outro dia, vi um escritor que se gaba de ter 6 milhões de seguidores e passa o dia inteiro na internet dando alpiste para eles. Esse fenômeno dos seguidores virtuais deveria merecer algum estudo sócio-psíquico-antropológico. Quem segue quem? Aliás, será que os seguidores seguem realmente o outro, ou é tudo fantasia? Fiz umas experiências. Entrei no Twitter e percebi que, na verdade, ninguém segue ninguém, todos querem ter a ilusão de serem seguidos. Também abri, durante certo tempo, meu blog aos seguidores. Notei, com raríssimas exceções, que as mensagens deixadas eram rastros de descaminhos. Eu era apenas um “lugar”.

Claro que o seguidor virtual tem características atraentes; caso contrário, nem existiria. É descompromissado. Pode usar até pseudônimo. Pergunta-se: ele está procurando alguma coisa ou apenas se divertindo com a seriedade, a ingenuidade ou a vaidade alheia?

Julio Cortazar tem um conto, “O perseguidor”, mas se trata de alguém que procura a perfeição artística. Lembrei-me (e o Google não me socorreu) de um poema – de Enzemberger, acho – falando do perseguidor que persegue e acaba perseguido. Mesmo que não seja deste poeta alemão, a ideia é muito ajustada ao momento atual. Pois, se de um lado da questão estão os perseguidores perseguindo alguém, por sua vez os que se dizem perseguidos também perseguem seus perseguidores. O Ibope é isso. A publicidade é isso. Uns já não podem viver sem os outros. Lançam mão de todas as artimanhas do marketing para domar, provocar, incitar os perseguidores. É o caso dos artistas pop, sejam os Beatles ou os Rolling Stones ontem, seja esse Justin Bieber açulando multidões que o perseguem, sem que se saiba quem é caça e quem o caçador.

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