Quem semeia livros?

Oh! Bendito o que semeia

Livros, livros à mão-cheia…

E manda o povo pensar!

O livro caindo n ‘alma

É germe – que faz a palma.

É chuva -que faz o mar.

(Castro Alves)

A leitura, dizem muitos, é uma necessidade. É, sim. Para formar um pensamento racional, precisamos de livros. Precisamos entender o que lemos e isso só se faz com um volume muito grande de leitura.

Quase uma unanimidade é, também, o fato de que estamos lendo cada vez menos. As novas tecnologias nos têm roubado tempo e atenção que poderiam ser dispensados aos livros. Ou seja, se já tínhamos pouca leitura, as redes sociais não ajudaram em nada a aumentar o nosso gosto pelos livros.

A verdade é que, nós, brasileiros, nunca fomos assim… muito fãs da leitura. Muitas pesquisas deixaram claro que nunca fomos grandes leitores. Por isso, também sempre nos faltou excelência na interpretação das palavras, das frases.

A interpretação é fundamental para a compreensão do mundo. É ela que nos livra de enganos e autoenganos. Mas, ela nos falta. Os livros nos faltam. Nos falta, assim, também, o pensamento lógico.

Quando falamos disso com qualquer pessoa, com qualquer representante de uma instituição, será quase certo que todos concordaremos com a necessidade da leitura na vida das pessoas.

Concordaremos, também, quase como se repetíssemos um mantra, que os incentivos à leitura seriam necessários para aumentar a nossa capacidade de ler e interpretar.

Ilustrações: Davide Bonazzi

Livro não dá likes

Nisto tenho estado a pensar, por longos dias: no incentivo que as instituições públicas e privadas dão (ou poderiam dar) à leitura. E, no frigir dos ovos, falamos muito, fazemos pouco. A televisão aberta, por exemplo. Não seria um lugar de excelência a incentivar a leitura?

Ah, mas livros não dão audiência. É bem verdade que não, mas, além da busca pelo lucro da audiência, não teríamos também a mínima responsabilidade com uma sociedade mais pensante?

Não sou exatamente a mais assídua expectadora da TV aberta, mas presto atenção ao que vejo e um programa específico me chamou a atenção com relação ao assunto.

Recentemente, a InterTV Cabugi teve aumentado em meia hora o seu programa local no horário da manhã, o Bom Dia RN. Costumo ver partes desse programa e acompanho o feitio de suas matérias.

Pra mim, é visível que muitas matérias se estendem para muito além do necessário, apenas para preencher o tempo que eles têm. O programa é longo e nem sempre há tanto assunto.

Pois bem. Fico a pensar no porquê de um programa desses não ter, por exemplo, um quadro de cinco minutos para falar de leitura. O programa tem duas horas. E zero minuto para os livros. 

“O brasileiro não lê”

Pensando nisso, conversei com o jornalista Cefas Carvalho, que conhece muito mais do que eu, o fazer do jornalismo cultural no Estado e a programação das TVs abertas, e lhe perguntei sobre os programas culturais.

É preciso que se diga que o próprio Cefas trabalha na PNTV, uma WebTV que possui atualmente dois programas que produzem conteúdo artístico: o PNTV Cultura, apresentado por Cefas e que apresenta artistas locais ou aqui radicados, e o PNTV Literatura, apresentado por Michelle Paulista, de entrevistas com escritores e escritoras.

Tais programas podem ser acompanhados ao vivo, pelo Facebook, Youtube e portal Potiguar Notícias (www.potiguarnoticias.com.br).

Quanto às TVs abertas, no entanto, o quadro é desanimador. Não temos incentivo à leitura na TV aberta, muito embora de vez em quando qualquer uma delas possa até fazer uma matéria sobre o quanto “o brasileiro não lê”.

Já vi esse tipo de matéria no conteúdo nacional das TVs abertas. Nacionalmente, porém, o conteúdo também não é muito animador quanto ao incentivo à leitura.

Qual o espaço dado à cultura pelas TVs abertas? Um pouco de divulgação, em regra. E essa divulgação dependendo sempre da penetração que a produção cultural já tenha na sociedade.

Dependendo, ao fim e ao cabo, da audiência que possa dar. A música costuma ter mais espaço, porque tem mais gente interessada. Mesmo assim, fala-se de música muito mais como entretenimento ou quando vai acontecer alguma apresentação.

Contribuição ao pensamento racional


“Seria uma enorme contribuição ao pensamento racional que as TVs abertas investissem um pouco de seu tempo em discutir literatura”.

Também não se tem um quadro fixo, com algum especialista analisando a música em si, ou contando coisas e casos que constroem a cultura musical.

Quanto às artes plásticas, de quando em vez se divulga alguma exposição. Mas, também, nada de muito aprofundamento. 

De modo geral, alguns programas incluem expressões artísticas. Cefas lembrou, nesse sentido, o programa “Resenhas do RN”, da InterTV. Outros programas entrevistam escritores locais quando esses estão lançando algum livro.

Para isso, geralmente, também precisam já ter certa penetração social, mediante sua atuação em outras áreas, ou ter uma assessoria de imprensa, que faz a ponte com os jornalistas de TV.

Mas, é só. Não existe, até onde pudemos ver, um programa dedicado à literatura, ou mesmo um quadro fixo que fosse feito para incentivar a leitura na população. E não me refiro a um programa ou quadro que focasse nos escritores locais.

Seria uma enorme contribuição ao pensamento racional que as TVs abertas investissem um pouco de seu tempo em discutir literatura, conversar sobre livros e sobre a importância deles para formar cidadãos pensantes e conscientes.

Poderiam fazer isso muitas vezes no lugar de matérias enormes, sobre assuntos nem tão relevantes, que tomam todo o tempo do mundo para repetir informações ou dizer pouca coisa.  

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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