“Quem vai querer bacalhau?”

Com um sorriso no canto dos lábios e um traço de melancolia no outro, assisti neste domingo ao documentário “Alô, alô, Terezinha!”, dirigido por Nelson Hoineff e lançado em 2008 (acredito) nas telonas do Brasil. Tive a sorte de ser presenteado recentemente com o DVD, já bem colocado na prateleira de meus prediletos.

Acredito que até já falaram sobre o assunto por estas bandas. Mas, como sou meio leso, esqueci quem foi e o que escreveu. Além disso, como gostei muito do filme, não vou me furtar o dever de trazer para cá as minhas impressões.

O certo é que pude tirar algumas mais acabadas conclusões sobre a figura de Chacrinha vendo hoje esse filme, já que – na época que assistia ao programa -era muito jovem para entender aquela personalidade carismática e controvertida, um misto de Fellini com Sargentelli, com todos os elementos cênicos – mutatis, mutandi – de que os dois citados se cercaram e se serviram.

Na verdade, eu tinha um certo medo do clown vivido por Abelardo Barbosa, e  que distribuía, ao seu bel prazer, abacaxis e bacalhaus para o público, fazendo explodir sacos de farinha de trigo nas caras das “macacas de auditório”. Mas, lembro que me divertia muito, principalmente quando via o Russo fazendo aquelas mungangas todas e dando uns castigos nos calouros. E que calouros, hein? Bizarria total e risos infinitos…

E que chacretes tesudas! Invadiram, com força, o início da minha adolescência. Vendo-as na telinha, quase todas decadentes envelhecidas, compartilhando um histórico meio esquisito quanto à vivência dos bastidores da época, dá-me uma melancolia daquelas. Mas, confesso que  também gostaria de ter beijado a bunda de Rita Cadillac.

Chacrinha exibia uma certa crueldade e um comportamento absolutamente contrário ao “politicamente correto” dominante nesta nova era. Mas, ao mesmo tempo, trazia-nos a possibilidade de rir… e de chorar. Mostrava-nos a importância da emoção e encarnava um personagem absolutamente nonsense, surrealista mesmo, provocando a catarse de todo o lixo interior e do sofrimento de todas as classes sociais, principalmente daquelas mais populares.

Chacrinha era o dono do circo e tinha firmeza para segurar aquela aventura toda. Impressionante a ousadia da atuação do clown e que se vislumbra facilmente ao rememorarmos aquelas imagens.

Não tinha Roberto Carlos, nem Caetano, nem Alceu, nem Elba, nem Wanderley Cardoso, nem Fafá de Belém, nem Baby Consuelo (a quem chamava publicamente de “matusquela”), nem Wando, nem Boni, nem ninguém que dobrasse a vontade daquele velhinho. A figura principal, o protagonista era mesmo o Chacrinha. E fazia o que queria no palco, mesmo que às vezes isso significasse risco de censura ou de algo pior.

Chacrinha era carisma, coragem pura e capacidade de comunicação a toda prova. Não dá nem para comparar com os “Fausto Silva” da vida global dos nossos dias atuais. Por sinal, esse último, em minha opinião, não passa de um chatérrimo endinheirado. E sem Rita Cadillac no palco.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Lívio Oliveira 7 de fevereiro de 2011 8:22

    Trago para cá o comentário que recebi de Tuca Zamagna, do blog “desinformação seletiva” (http://tucazamagna.blogspot.com/):

    “Não vi o filme, Livio, mas amigos que viram o acharam ótimo também. Sua comparação do Chacrinha com o Faustão é perfeita, e vale também para todos os apresentadores surgidos na era da Globo. Chacrinha foi o único que a Globo tentou e não conseguiu “globalizar”. Lembro-me que achei um horror o primeito programa dele na Globo, o padrão global “civilizando” o Velho Guerreiro. Rm poucas semanas ele botou as coisas nos eixos, estraçalhando a camisa de força que lhe haviam impingido. Foi nessa época que ele chegou ao auge da bandalheira criativa, transformando em personagens até os técnicos do programa, como o Ruço. Uma sacada pioneira que até hoje é imitada (pelo Faustão, inclusive) mas jamais igualada.

    Quem não comunica… se faustiza!

    Abraços.”

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